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Nem na mata se encontram histórias assim

Cesariny, “atentado ao pudor” e espaços de engate da comunidade gay em instalação no MAAT

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A 16 de Setembro de 1964, Mário Cesariny dá entrada na Prisão de Fresnes, a sul de Paris, acusado de “atentado ao pudor”. Este momento está na base do novo trabalho de João Pedro Vale e Nuno Alexandre Ferreira exposto no MAAT.

 

Os dois meses de clausura e as razões que terão levado à detenção de Cesariny permanecem envoltos em argumentos contraditórios. Para além da sua intensa dedicação a um pequeno livro composto por uma série de relatos confessionais, desenhos e poemas-colagens, pouco se sabe sobre esse período. Da leitura desse livro, intitulado “A Cidade Queimada” (1965), é possível entrever, entre outros assuntos, o seu fascínio pelo jardim e Torre de Saint-Jacques no Marais.

Quando em 2018 os artistas João Pedro Vale e Nuno Alexandre Ferreira se mudaram para Paris no âmbito de uma residência artística na Cité Internationale des Arts deram conta que o seu apartamento ficava nas redondezas da torre gótica que figura na capa desse livro. A dupla iniciou um processo de pesquisa em torno da vida e obra de um dos mais importantes membros do surrealismo português e uma figura incontornável do século XX, focando-se especialmente no período que passou em Fresnes, estabelecendo um paralelismo entre as novas estruturas de encarceramento, as vivências relegadas à clandestinidade e as múltiplas estratégias de transgressão, subversão e dissidência dos corpos.

“Ama como a estrada começa” é um projecto inédito produzido especialmente para o MAAT. A exposição apropria o título de um poema-colagem criado por Cesariny em 1955 e articula inúmeras referências gráficas, culturais e artísticas que os artistas foram buscar ao imaginário e legado surrealista e em particular às referências do poeta português, mas também aos primeiros movimentos políticos queer e de libertação sexual. Estes são elementos que remetem para ideias de impureza e higienização, crime e castigo e a sua relação histórica com a homossexualidade e com as noções de género e cura.

João Pedro e Nuno Alexandre criaram uma instalação com dois andares, uma estrutura que se assemelha a uma grande colagem ou assemblagem surrealista que evoca os espaços de engate da comunidade gay — como os urinóis públicos, clubes de sexo e as saunas — mas também traz à memória as infra-estruturas e equipamentos de higiene pública e sanitária como, por exemplo, urinóis, lavadouros ou celas e outros elementos da vida prisional.

A instalação fica patente até 20 de Abril de 2020 no MAAT.