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Clube Safo 25 anos: “Um compromisso com as vidas das mulheres que têm relações com mulheres”

Alexandra Santos Clube Safo.JPG

No ano em que o Clube Safo - organização de defesa dos direitos das mulheres lésbicas - faz 25 anos de existência, entrevistámos Alexandra Santos, membro da direcção.

 

 

dezanove: De que forma vão ser celebrados os 25 anos de existência de Clube Safo?

Alexandra Santos: Os 25 anos do Clube Safo vão ser celebrados durante todo o ano de 2021 tendo início no mês de Abril o mês em que se comemora o dia da visibilidade lésbica, a 26 de Abril. Queremos falar da história da associação e das pessoas que fizeram parte dela por isso vamos fazer uma Zona Livre (revista editada pelo Clube Safo desde o seu início e que já vai no número 70) dedicada ao tema dos 25 anos do Clube Safo, com testemunhos, histórias e até fotografias históricas. Como ainda estamos a viver esta realidade pandémica e o distanciamento social é ainda uma questão, queremos utilizar os meios ao nosso alcance para contar as histórias da associação ao longo destes 25 anos de existência.

 

Consegues destacar alguns marcos históricos (nomeadamente legislativos, presença em marchas LGBTI+, manifestações interseccionais, etc.) para as mulheres lésbicas e bissexuais em Portugal nos últimos 25 anos?

Um dos grandes marcos foi a Primeira Marcha de Orgulho LGBT que aconteceu no ano 2000 em Lisboa e que foi proposta por uma mulher do Clube Safo. Também de referir a participação do Clube Safo ao longo dos anos nas actividades da Marcha Mundial de Mulheres que denota que desde sempre há um compromisso com o feminismo e com a interseccionalidade que culminou com a queixa contra o estado português por não deixar o barco Women on Waves atracar na nossa costa. Também muito importante para a nossa história associativa a organização em 2002 das primeiras Jornadas Lésbicas em parceria com o ISPA. O primeiro evento em Portugal sobre o tema, que não voltou a repetir-se e que reuniu mais de 300 pessoas para debater, questões relacionadas com lésbicas.

Marcha do Orgulho LGBT de Lisboa 2000

Marcha do Orgulho LGBT de Lisboa 2000

 

Quais as principais mudanças desde 1996 até aos dias de hoje?

Em 1996 a única legislação existente em Portugal era a da descriminalização da homossexualidade. Não se falava em políticas públicas, não se falava em direitos humanos ou sociais e foi com o surgimento de associações LGBT que se começou a fazer esse trabalho de visibilidade e sensibilização para estas questões. Por isso, as mudanças são muito grandes em termos legislativos para os direitos humanos e civis e de políticas públicas direccionadas e específicas. Em 1996 lésbicas não sabiam que podiam ter relacionamentos com outras mulheres, quanto mais casar, ter direito a adoptar e acesso à procriação medicamente assistida. Tudo coisas que hoje é possível.

Em 1996 lésbicas não sabiam que podiam ter relacionamentos com outras mulheres, quanto mais casar, ter direito a adoptar e acesso à procriação medicamente assistida. Tudo coisas que hoje é possível.

 

De que forma está organizado o Clube Safo?

O Clube Safo é uma associação horizontal que mantém a formalidade associativa, mas que tenta na sua génese torná-la menos hierárquica e patriarcal no sentido de que todas as sócias fazendo ou não parte da direcção tenham espaço para propor e concretizar actividades na associação. O Clube Safo tem também uma forma de estar descentralizada. Ou seja, um dos pontos fortes da associação é o facto das suas actividades não se cingirem às grandes cidades ou às capitais de distrito. Tem também um cunho bastante intergeracional em que nos seus espaços encontram-se pessoas de todas as idades. Para além disso, o Clube Safo é uma organização que se tem mantido ao longo do tempo porque tem um espólio de conhecimento, histórico muito grande e acho que isso também diz muito da forma como está organizado e se operacionaliza.

O Clube Safo tem um cunho bastante intergeracional em que nos seus espaços encontram-se pessoas de todas as idades.

 

Evento de oficialização do Clube Safo - O Mirante

Evento de oficialização do Clube Safo -  Ana Prata, Fabíola Cardoso e Eduarda Ferreira. Foto: O Mirante

 

Analisando os dias de hoje, que desafios se colocam ao Clube Safo de 2021? 

Eu entendo que os principais desafios continuam a ser a sobrevivência da associação no sentido da sua relevância. Tanto neste modelo associativo que muitas vezes é necessário de forma a pedir apoios formais como por razões de formulação. Hoje com as complexidades de identidades, há categorias que muitas vezes são questionadas. Será que ainda faz sentido falarmos de lésbicas? Quem são as lésbicas? Sendo que depois o desafio é também a inclusão de todas estas categorias no trabalho específico. Quem incluis, ou, quem excluis quando falas de lésbicas ou quando queres responder às necessidades específicas de um grupo de pessoas.

Quem incluis, ou, quem excluis quando falas de lésbicas ou quando queres responder às necessidades específicas de um grupo de pessoas.

 

Que actividades desenvolve o Clube Safo e onde são desenvolvidas?

Neste momento as actividades são todas desenvolvidas online, mas estamos desejosas de voltar à estrada (sorrisos) Temos actividades fixas como o sarau das safo, o chá das safo e o clube do livro. E depois vamos sempre fazendo actividades para a visibilidade lésbica. O Clube Safo tem um compromisso com as vidas das mulheres que têm relações com mulheres (todas as mulheres) e por isso as suas actividades são também políticas, anti-racistas e feministas.

 

Quão é importante o Clube Safo manter-se activo?

Para mim essa questão está continuamente a ser respondida. Tanto pelas pessoas que nos chegam com necessidades específicas por exemplo de regulação parental, pedidos de asilo por razões de homofobia. Como pelas pessoas que participam nas nossas actividades e que continuam a dizer que não têm sítios para ir, onde estar, onde se sintam bem, tranquilas. Onde possam ter as discussões que lhes fazem sentido e encontrar pessoas iguais a elas. É importante sim, e será importante sempre porque as pessoas são tudo o que são e não apenas parte delas. As lésbicas também são pessoas e merecem os seus lugares.

 

Entrevista de Jéssica Vassalo