a ler,  a saber

“Como matar homens e sair impune” de Katy Brent



“Como Matar Homens e Sair Impune”, de Katy Brent, é um thriller psicológico que mergulha no impacto do sexismo na sociedade contemporânea.

A protagonista, Kitty, é uma jovem rica e influenciadora digital com milhões de seguidores. Por trás do glamour e da imagem de vida perfeita, esconde-se uma mente corroída pelo assédio e pela violência machista. Homens que não aceitam um “não”, que drogam ou embebedam mulheres para as dominar, que as agridem, tornam-se a face de um sistema que desgasta lentamente a sua saúde mental.

“O stress de passar a noite a ser encurralada e apalpada por alguém a quem deixei claro que não estava interessada.”

É neste contexto que, após provocar a morte aparentemente acidental de um homem que a perseguia, encontra um propósito inesperado: eliminar homens com comportamentos misóginos como forma de justiça social.

“O mundo é melhor sem estes homens, os traidores, os mentirosos, os predadores. No fundo, só estou a ajudar, a limpar uma sociedade que já está demasiado podre para se aguentar.”

A obra convida a várias reflexões, nomeadamente sobre padrões culturais profundamente enraizados: homens educados a insistir, mesmo perante a recusa, e mulheres ensinadas a adiar o “sim”. Um jogo aparentemente inofensivo que, na prática, abre espaço para abusos, assédio e perseguições, deixando marcas devastadoras. A perda de controlo sobre o próprio corpo e os próprios limites gera medo constante, ansiedade e hiper vigilância, comprometendo de forma grave a saúde mental feminina.

É precisamente neste contraste entre ficção e realidade que o romance ganha força: ao contrário de Kitty, que responde com violência, na vida real as mulheres, apesar de serem as principais vítimas do sexismo, raramente enveredam por esse caminho. Já a masculinidade tóxica continua a alimentar mortes e a perpetuar ciclos de violência.

Assim, a narrativa inverte as regras para expor, com brutal clareza, o peso invisível do sexismo na vida das mulheres. Uma leitura viciante, que combina suspense com a exploração dos recantos mais sombrios da mente.

.

Chancela: Desrotina

Tradução: Quem Me Lera

Edição: Junho de 2025

Páginas: 320

.

Daniela Alves Ferreira

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *