Confesso que pensei bastante se devia ou não escrever, mas depois lembrei-me de que quem não toma partido, está a tomar o partido do opressor e os tempos não estão para brincadeiras. Ontem, após ter visto alguns apontamentos nas redes sociais, lá me predispus a ouvir a entrevista conduzida pela Cristina Ferreira a Rita Matias, ainda que a contragosto. Pouco tempo pretendo dedicar à deputada do Chega, pois já todos sabemos, que quando lhe cai a máscara de devota a Nosso Senhor, quando abre a boca é tudo ao lado, só diz merda. Nunca pensei chegar a 2025 e ouvir uma “feminista”, como se auto-intitulou, (com muitas aspas, pois a senhora não deve conhecer a definição da palavra) dizer que se tivesse uma filha com 12 anos, vítima de violação, e ficando esta grávida, teria de verificar primeiro a vontade de a filha continuar ou não a gravidez, depois, ver se a filha teria capacidades físicas para trazer esse filho ao mundo.
Rita Matias, querida, uma menina de 12 anos é unicamente isso: uma menina. Nenhuma criança deveria ser vítima de estupro, muito menos ter de levar a cabo uma gravidez do agressor sexual. Uma criança de 12 anos não tem capacidades físicas ou psicológicas para para ter um filho, sobretudo depois do trauma duma violação. Mas, já perdi demasiado tempo com isto. Um conselho à senhora deputada de alguém que já anda nisto há uns anos: dedique-se às dancinhas do TikTok e poupe-nos ao seu discurso. O mundo está tão preparado para ouvir o que diz, quanto a Rita está preparada para ser mãe (pobres crianças).
Este tipo de episódios têm vindo a acontecer cada vez mais nos meios de comunicação social. Um fenómeno completamente assustador. Parece estarmos a normalizar a estupidez e o discurso de ódio. No entanto, não culpo apenas os convidados – que poderíamos esperar desta senhora do Chega, que quando abre a boca, enfim, é o que se sabe –, mas culpo sobretudo os dinamizadores deste tipo de conteúdo, no qual se confunde liberdade de expressão com o vomitar de todos os disparates, em nada conformes com o previsto na Carta dos Direitos Humanos.
A Cristina Ferreira conseguiu no espaço de menos de um mês dizer que uma vítima de violação “se pôs a jeito”; dar uma gargalhada e fazer uma graçola idiota acerca duma vítima de violência doméstica, que acabou assassinada; e, por fim, a mencionada entrevista, na qual, para além da verborreia, nos foi vendida uma fascista como uma menina querida, educada na Igreja, em suma, um amor.
Não me darei ao trabalho de falar de canais como a CMTV, pois seria estar a chover no molhado. Teria tema para uma tese de doutoramento. No entanto, questiono-me em relação a Cristina Ferreira, ou a Manuel Luís Goucha, ou ainda Cláudio Ramos. Será que pensam apenas em dinheiro e audiências? Não se questionarão acerca do que fazem? Creio que não. As pessoas que mencionei têm uma enorme visibilidade e, quer queiram, quer não, forjam mentalidades. Por vezes penso que se eu tivesse 1% da sua visibilidade, faria chegar mensagens de responsabilidade social muito mais longe. Não usaria os meus poucos minutos de fama para entrevistar ditadores e assassinos – sim, Tiago Grila, um dos convidados de Manuel Luís Goucha, confessou num directo do Youtube ter atropelado uma pessoa e fugido.
Isto é tudo mórbido e assustador. Muitos dos pais e avós, já reformados, são bombardeados de manhã à noite por programas de qualidade duvidosa. E sim, não estou a inventar, as pessoas formam a sua ideia com base naquilo que lêem e ouvem. Sejamos honestos. Muitos destes pais e avós não têm escolaridade ou pensamento crítico para perceberem que estão a ser manipulados. E isto é preocupante.
Depois do desastre eleitoral de Maio, em que um partido de extrema-direita foi levado ao colo pela comunicação social para o poder, sendo actualmente a segunda força política, pergunto-me qual será o desejo da directora da TVI: eleger Rita Matias como Presidente da República e Tiago Grila como Primeiro Ministro?
Peço isto do fundo do coração: TENHAM NOÇÃO! Usem a vossa visibilidade para o bom, pois o vosso trabalho, actualmente, se pensarmos um pouco, em muito se assemelha ao papel que a comunicação social desempenhava no Estado Novo.
Peço isto do fundo do coração: TENHAM NOÇÃO! Usem a vossa visibilidade para o bom, pois o vosso trabalho, actualmente, se pensarmos um pouco, em muito se assemelha ao papel que a comunicação social desempenhava no Estado Novo.
Como disse, outrora, o saudoso maestro e musicólogo Fernando Lopes-Graça, também ele homem queer e comunista histórico:
“Acordai.
Acordai homens que dormis,
A embalar as dores
Dos silêncios vis.”
Acordai. E quanto a nós, comunidade LGBTQIA+, que saibamos que os tempos são de luta e de união.
Ricardo Falcato


