opinião

Da liberdade à jaula identitária: o lado tóxico do “mundo gay”  



 

“Perguntem a qualquer pessoa LGBTIQ+ e, pelo menos, metade dir-vos-á que o “mundo gay” é  um ambiente tóxico. Mas o que é que realmente o torna tóxico? É o ambiente que é tóxico? As  pessoas? Algumas pessoas? Ou todas as pessoas?”  

Este pequeno parágrafo, que tive oportunidade de ler numa “story” do Instagram de um amigo meu,  resume um desconforto que muita gente sente, mas que poucos querem assumir em voz alta. Quem  já passou por dentro do chamado “mundo gay” (este termo provoca-me calafrios) sabe que há ali  algo que não bate certo.  

Se por um lado se fala muito de inclusão, de diversidade, de aceitação, por outro a experiência  concreta é muitas vezes feita de julgamento constante, competição, solidão no meio da  multidão e uma pressão silenciosa para encaixar num molde muito específico. 

Aqui começa uma das perguntas que me interessam mais: Será o “mundo gay” é tóxico por causa  da sociedade “heteronormativa” que o rodeia, como costuma ser dito, ou será que também há  escolhas internas e dinâmicas próprias destas subculturas que alimentam essa toxicidade e se  alimentam dos resultados para se fortalecerem?  

Em teoria, o orgulho LGBT nasceu para reclamar direitos iguais e reconhecimento da  dignidade de cada pessoa. Até aqui estou de acordo. Onde deixo de estar de acordo é quando  esse orgulho se transforma num fim em si mesmo e num modo de vida separado do resto da sociedade como, de resto, não me tenho cansado de afirmar.  

Quando se passa de afirmar que “sou um cidadão como qualquer outro que, por acaso, é  homossexual” para “faço parte de uma comunidade à parte, com códigos próprios, circuitos próprios, linguagem própria e uma agenda política e cultural própria”, surge uma mudança  importante em que se passa da integração ao auto-isolamento.  

Outra pergunta que se impõe é sobre se o problema não estará precisamente neste auto-isolamento  de “comunidades” e subculturas em relação ao resto da sociedade. Porque quanto mais se reforça  a ideia de que existe uma “comunidade LGBTQIA+” (outro termo que me queima os olhos),  quase como um condomínio fechado identitário, mais se cria a sensação de que há um “nós” e  um “eles”. Isto, para além de não aproximar ninguém, cria guetos, mesmo quando se fala de  inclusão. 

Outra dimensão que contribui para a toxicidade é a forma como a esquerda identitária construiu  uma narrativa em que determinadas minorias só existem enquanto vítimas. Porque se não fores  vítima de algo, estás a “trair” a comunidade ou és muito privilegiado.  

Em vez de se caminhar para uma normalização saudável em que uma pessoa pode ser vista como  um indivíduo completo, com virtudes, defeitos, responsabilidades e capacidades como qualquer  noutro cidadão, empurra-se muita gente para um papel fixo de oprimido permanente sem capacidade para ser um membro válido da sociedade. 

Isto tem inúmeros efeitos perversos como, a criação dentro do tal “mundo gay”, de uma hierarquia  estranha em que quem encarna melhor a narrativa da vítima sofre mais, mas também é mais 

aplaudido. E quem se afasta desse guião, quem quer simplesmente viver a sua vida, trabalhar,  ter uma relação estável sem entrar no jogo político e performativo, é muitas vezes visto como  “vendido”, “acomodado” ou “heteronormativo”. 

Quando a identidade é forçada a ser construída contra uma sociedade que supostamente te odeia, em  vez de ser construída com base na tua própria liberdade e responsabilidade, ficas preso à bolha,  envolvido por ela e com cada vez menos hipóteses de lhe fugir. E uma bolha, por mais colorida  que seja, é sempre um espaço fechado. 

Depois vem a parte mais visível e mais silenciosa ao mesmo tempo. O culto do corpo, da imagem,  da eterna juventude, da sexualidade sempre disponível. Quem já passou por bares, discotecas, praias  e, sobretudo, por aplicações de encontros, sabe bem o que isto significa. Corpos moldados, filtros,  fotografias calculadas, descrições que reduzem uma pessoa a dois ou três atributos. E, por trás  disto tudo a mensagem que, se não fores assim, não serves ou “não fazes o meu tipo”…  

Outra pergunta incómoda é se não estará a enorme pressão para rejeitar qualquer regra  “heteronormativa”, a obsessão com o corpo e a necessidade de corresponder a uma determinada  imagem queer, a gerar problemas psicológicos e sociais dentro destes meios?  

Quando uma relação estável, o compromisso, o envelhecimento a dois, o simples facto de não  querer uma vida de festa permanente começam a ser vistos quase como traição ao espírito  “livre” do meio, muita gente entra em conflito interno. Ou finge adaptar-se para ser aceite e faz  um esforço por estar presente todos os fins de semana em determinados locais de copo na mão, ou  afasta-se e carrega a culpa de ser “careta”, “velho” ou “traidor”. Em qualquer dos casos, para  muitos, o resultado é ansiedade, solidão e dificuldade em construir relações profundas.  

Há um truque retórico que se tornou muito conveniente. Sempre que alguém fala em valores como  compromisso, responsabilidade, limites, moderação e equilíbrio, rotula-se tudo isso como  “heteronormatividade”, como se desejar uma vida afetiva estável, com respeito e lealdade, fosse  apenas uma imposição da sociedade heterossexual e algo de muito errado para um homossexual.  

Mas, se queremos ser honestos, temos de nos questionar se querer amar e ser amado de forma sólida  é uma imposição externa ou é uma necessidade humana básica, independentemente da orientação sexual. Será que é mesmo assim tão revolucionário defender que o sexo não é só consumo, que  o corpo não é só um produto, que as pessoas não são só perfis descartáveis numa aplicação  tipo “Grindr” ou “Scruff”? 

Quando uma subcultura se constrói em oposição sistemática a qualquer ideia de limite, qualquer  crítica interna é rapidamente silenciada. E aquilo que deveria ser um espaço de libertação  transforma-se num espaço de tirania social, onde todos têm de ser “livres” da mesma maneira.  Podes pensar como quiseres, desde que penses como eu. 

Há ainda outro ponto que não pode ser ignorado. Esta dinâmica de comunidades, etiquetas sempre  mais longas e fragmentação identitária é politicamente útil para alguns partidos e movimentos, pois  quanto mais dividida estiver a sociedade, quanto mais grupos pequenos se sentirem em guerra  com o “sistema”, mais fácil é mobilizar as pessoas que a eles pertencem em função de agendas  ideológicas específicas.  

Não se procura integrar mas manter o conflito vivo. E manter o conflito vivo passa também por  alimentar um certo ressentimento contra a sociedade em geral, incluindo contra pessoas que nada  fizeram de mal a ninguém. Se toda a tua identidade política depende de seres “oprimido”, então  precisas que a opressão nunca acabe. Mesmo que, na prática, a tua vida concreta vá melhorando,  a narrativa não pode mudar.  

Isto cria uma prisão invisível. Não para os outros, mas para ti próprio.  

Voltemos às perguntas iniciais: É o ambiente que é tóxico, são as pessoas, só algumas pessoas ou  todas as pessoas? 

Não, não são “todas as pessoas” pois há pessoas extraordinárias que vivem a sua homossexualidade  de forma serena, responsável, discreta ou pública, tanto faz, e que constroem relações sólidas, têm  amigos de todos os estilos de vida, trabalham e participam na sociedade sem se fecharem em  subculturas.  

O ambiente é tóxico quando se incentiva o contrário disso. Quando se reforça o narcisismo em  vez da maturidade. Quando se recompensa a vitimização em vez da responsabilidade. Quando se celebra o choque constante e o escândalo vazio em vez da construção de vida real. Quando  se transforma uma característica da pessoa em rótulo total, em vez de a assumir como apenas  uma parte da sua identidade.  

Para terminar deixo aqui algumas perguntas que ficam por responder apesar de eu não ter qualquer  pretensão de fechar o tema. Aliás, o objetivo é, pelo contrário, deixar perguntas abertas que quase  nunca são bem recebidas dentro do próprio “mundo gay”.  

1. Será que o problema não estará, em boa medida, neste auto-isolamento em “comunidades” ou  subculturas que se vão afastando do resto da sociedade?  

2. Até que ponto é que a insistência em viver dentro de circuitos fechados não alimenta a sensação  de solidão e incompreensão que tantas pessoas relatam?  

3. Não será que a pressão para rejeitar qualquer regra que possa cheirar a “heteronormativa”,  aliada ao culto do corpo e da imagem, está a gerar danos psicológicos sérios, dificuldades de  compromisso e relações superficiais e descartáveis?  

4. Quem é que ganha mais com isto tudo? São as pessoas que procuram uma vida plena, ou são as  indústrias, as marcas, as plataformas e os movimentos políticos que transformam identidades  em mercado e votos?  

Fica o desafio.  

Talvez esteja na altura de deixar de falar tanto de “comunidade” e voltar a falar de pessoas.  Seria um bom começo.

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Imagem: IA

Vítor Grade 

Um Comentário

  • Tiago Mendes

    O autor tem a sua opinião e é livre de a expremir porque existiu um 25 de Abril neste país que deu liberdade de expressão às pessoas.
    Mas também eu tenho a minha opinião e por isso também a irei exprimir. A opinião do autor é de alguém que não teria problema em votar em um partido que quer levar a comunidade LGBTQIA+ à sua invisibilidade e negar todos os direitos conquistados pelas pessoas desta comunidade.
    Não é o “mundo” gay que é tóxico. A natureza humana é que é tóxica e cruel. Em todos os cantos deste mundo irá encontrar pessoas boas e pessoas más, independentemente da sua raça, religião, identidade ou orientação sexual. E negar o direito às pessoas de poder viver no seu próprio mundo, de poder escolher a sua comunidade… Enfim nem tenho comentários para qualificar o que isso é.

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