Quem me conhece e me lê, sabe o quanto do meu tempo dedico ao activismo. Comecei nos idos anos 2010, na ILGA Portugal, onde trabalhava no centro de documentação, implementei a feira do livro LGBT e era voluntário no nosso maravilhoso Arraial Pride.
Passaram uns tempos, juntei-me ao mundo corporativo, descobri ser seropositivo. Comecei a dedicar uma grande parte do meu tempo à questão do VIH, em campanhas, conferências e um sem número de actividade. Também na empresa, onde trabalhei 12 anos, fui de 2021 até agora, responsável por dinamizar actividades para a comunidade LGBTQIA+. E que alegria foi poder fazer coordenação de 7 países e colocar países conservadores como a China e a Polónia a falar de VIH, terapias de conversão e uma série de coisas impensáveis, antes de assumir a responsabilidade do cargo.
Foram anos maravilhosos. Ganhei muito mundo… E continuo a ganhar todos os dias. Quando acompanho uma pessoa com um diagnóstico recente de VIH, quando faço algo tão banal como gravar um vídeo para as redes sociais ou quando encaminho esta ou aquela pessoa para um serviço médico específico.
Mas o activismo e o voluntariado vão muito além. Eu fui activista nos 7 anos em que leccionei na Universidade Sénior de Massamá e Monte Abraão. Perguntar-me-ão porquê? Quando tinha algum aluno – atenção que falamos de pessoas acima dos 70 anos – que me questionava porque era solteiro, respondia, com toda a calma e naturalidade do mundo: por opção e por ser gay. Ainda não encontrei a pessoa certa. Na próxima semana, quando for com o meu grupo de Cantares Alentejanos ao hospital Fernando da Fonseca, cantar na enfermaria de infecciologia, para os meus irmãos infectados, estou a ser activista e voluntário.
O activismo, o voluntariado é algo que se faz todos dias, muitas vezes na sombra. Há uma pessoa que aprecio imenso e me ajudou a tomar esta consciência, o Paulo Corte-Real, antigo presidente da ILGA Portugal. Em conversa, partilhou situações em que se assumiu como é, face a atitudes machistas e ultrapassadas.
E lutar por algo em que acreditamos é isso mesmo. Mais importante do que fazermos parte de organizações de renome, são pequenos gestos. Beijar em público, dar as mãos, não nos escondermos. Há anos que faço isso e a liberdade interior que tenho vindo a ganhar é imensa.
Não sou herói, não tenho pretensões de capas ou palmadinhas nas costas, apenas o sonho de, quando partir, ter consciência de que tudo fiz para a construção dum mundo mais justo, mais equitativo, para todos.
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Ricardo Falcato


