opinião

Demorei, mas cheguei



Acabei de ver o filme Homem com H, sobre a vida de Ney Matogrosso.

E, mais do que ver um artista, vi um homem inteiro, livre, intenso que teve a coragem de ser quem era, desde cedo.

Vi também a conversa final com o pai. Um momento que me ficou cá dentro. Porque me fez pensar no meu.

Eu nunca tive uma luta aberta com o meu pai sobre a minha homossexualidade.

Mas sempre senti, de alguma forma, que não correspondia àquilo que ele esperava de um filho homem.

Havia um silêncio entre nós que dizia muito. E, mesmo sem palavras duras, eu carregava a sensação de estar sempre um passo atrás do que ele queria que eu fosse.

Nunca saberei se ele aceitaria a minha saída do armário.

Nunca saberei se teríamos tido aquela conversa final, como o Ney teve. Foi apenas um monólogo da minha parte enquanto as máquinas se apagavam.

Mas carrego comigo esse vazio. Essa despedida, esse diálogo que não aconteceu.

E, ao mesmo tempo, uma espécie de paz – porque hoje sou inteiro.

Demorei.

Fiz o caminho que consegui fazer.

Esperei 50 anos para ser eu, para amar sem esconder, para me olhar ao espelho sem vergonha.

E hoje, com o Fernando ao meu lado, com tudo o que vivemos e construímos juntos, sei que este momento também é meu.

Estas lágrimas que me caem enquanto escrevo são parte disso.

São parte da chegada.

Demorei, sim.

Mas cheguei.

E agora, finalmente, posso respirar.

Dedico  a quem esperou uma vida inteira para ser quem é.

A quem ainda está a caminho.

A quem nunca teve a conversa, mas encontrou a paz.

Rui de Sousa

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