No próximo dia 9 de Outubro será apresentado o projecto “DIVER_CIDADE: rumo a um Centro para a Diversidade e Inclusão”, integrado na candidatura de Sérgio Aires (BE) à Câmara Municipal do Porto. O dezanove.pt falou com Mia Filipa e Kira Gama Rocha, candidatas independentes na lista de BE, que apresentarão esta iniciativa que, num primeiro momento, se propõe a realizar um «diagnóstico colectivo para mapear o que já existe, identificar o que falta e desenhar em conjunto» o futuro centro. O evento contará ainda com a presença de Sérgio Aires, Rute Bianca, Gabriel Resendes, Núria Rosa, David Peres e Amália Caniço. A entrada é livre mas sujeita a inscrição.
Mia Filipa e Kira Gama Rocha, de que forma os vossos percursos no activismo e intervenção pública pelos direitos LGBTQIA+ se relacionam com este projecto?
Mia: A minha vida e o meu percurso profissional estão profundamente ligados ao terreno. Trabalhei seis anos em equipas de rua com pessoas em situação de sem-abrigo, estive sete anos na comissão organizadora da Marcha do Orgulho LGBTI+ do Porto e dois num projecto de apoio a mulheres trans que fazem trabalho sexual, financiado pela Direcção-Geral da Saúde. Essas experiências mostraram-me que não há políticas eficazes se não escutarmos quem vive as exclusões na pele.
O projecto do Centro para a Diversidade e Inclusão nasce justamente dessa escuta — da convicção de que a cidade precisa de um espaço público, acessível e participativo onde as nossas vozes orientem as decisões. Enquanto pessoa transfeminina, educadora e activista, sinto que o meu papel é trazer a realidade concreta de quem tantas vezes não tem lugar à mesa e garantir que ninguém fica de fora, nem nas políticas, nem na cidade.
Kira: Até há poucos anos, para ser sincera, eu não estava nada envolvida com as questões LGBTQIA+. Durante muito tempo senti vergonha por só ter percebido a importância do activismo quando iniciei o meu próprio processo de afirmação. Mas, olhando agora, vejo que já trabalhava há muito com comunidades invisibilizadas, com quem o poder raramente dialoga.
Essa experiência deu-me um olhar crítico sobre o modo como se decidem políticas para quem nunca é ouvido. E foi isso que me aproximou deste projecto: perceber que a transformação real acontece quando a escuta se torna prática, não apenas discurso.
Nos últimos tempos, pessoas como a Mia e o Sérgio Aires mostraram-me que o activismo não é território exclusivo de quem “sempre lá esteve”. O meu percurso, vindo de fora e sem filiações, pode somar, trazendo liberdade e vontade de construir pontes entre quem está dentro e quem ainda não se sente convidado a participar.
Num tempo em que se questionam conquistas de direitos, com o crescimento de movimentos que apoiam ou são complacentes com a violência contra pessoas queer, estes espaços assumem uma nova urgência?
Mia: Sem dúvida. Estamos a viver um tempo em que o discurso de ódio se tenta normalizar e as nossas vidas voltam a ser objeto de debate, como se os nossos direitos fossem negociáveis. Por isso, um espaço como este é mais do que um projeto, é uma forma de resistência coletiva.
Precisamos de lugares seguros, de convivência e de construção política, onde as pessoas queer, racializadas, migrantes, com deficiência e tantas outras possam existir sem medo. Mas também é urgente criar pontes com a sociedade no seu todo: o combate à discriminação é um trabalho comum, não apenas das comunidades visadas.
Kira: Estamos a viver um retrocesso perigoso, em que se tenta normalizar o ódio e transformar direitos em opiniões. Não é um acaso; é uma estratégia política. Quando os discursos extremistas ganham espaço, o medo cresce e o silêncio instala-se.
Por isso, estes espaços tornam-se urgentes: são lugares onde recuperamos força coletiva e lembramos que existir é resistir. Mas também são espaços de diálogo, porque o combate à discriminação não é só uma causa queer, é uma causa democrática.
O medo é contagioso, mas a coragem também é. Cabe-nos, também, a nós garantir que a coragem se espalha mais depressa.
Como caracterizam a cidade do Porto neste aspecto? Qual tem sido a evolução nos últimos anos?
Mia: O Porto é uma cidade viva, com movimentos fortes e comunidades resilientes, mas também marcada por desigualdades profundas. Nos últimos anos, vimos avanços, sobretudo pela força das pessoas e coletivos que se organizaram, não pela criação de políticas públicasestruturadas.
Ainda falta uma estratégia municipal para a diversidade que não dependa da boa vontade de quem está no poder. Temos uma cidade onde o turismo cresce, mas a habitação escasseia; onde se fala de inovação, mas ainda se invisibiliza quem vive à margem. O Porto tem sido umacidade de resistência, agora queremos que seja também uma cidade de pertença.
Kira: Há ainda muito trabalho por fazer. O Porto tem a energia de uma cidade mobilizadora, mas falta-lhe uma visão política consistente para a diversidade e a inclusão.Existem exemplos em várias cidades europeias de políticas locais que funcionam com continuidade, equipas dedicadas e ligação direta entre autarquia, associações e universidades.
O Porto tem todas as condições para o fazer. Já provou que sabe resistir; agora precisa de mostrar que também sabe cuidar.
Quais serão as principais valências do Centro para a Diversidade e Inclusão e a quem se destinarão?
Mia: O Centro será um espaço multifuncional, de acolhimento, formação, cultura e participação cidadã. Queremos reunir num só lugar respostas concretas, apoio jurídico, psicológico e social, mas também um espaço de criação artística, assembleias populares, grupos de trabalho e produção de conhecimento.
Será um centro aberto à cidade inteira, com foco nas pessoas LGBTQIA+, mas transversal a todas as formas de diversidade: género, corpo, origem, idade e condição social. A ideia é que o Centro não seja um “gueto”, mas um laboratório de cidadania, onde se experimentam novas formas de convivência e políticas baseadas no cuidado.
Kira: O primeiro passo será ouvir e mapear. Diagnosticar as necessidades das associações e coletivos que já estão no terreno é essencial para definir prioridades e evitar duplicar esforços.
A primeira fase deve focar-se em canalizar recursos humanos e técnicos para quem já faz o trabalho. O Centro deve ser um eixo de reforço e articulação, não um substituto.
Depois, identificar lacunas e criar novas respostas, mesmo que provisórias, para garantir que o apoio chegue rápido a quem mais precisa. O objetivo é um modelo ágil, inclusivo e sustentável, que una o conhecimento das bases ao compromisso institucional.
O encontro do próximo dia 9 é aberto a todos os interessados e, em particular, aos coletivos da cidade. O projeto prevê também um modelo de gestão participativa?
Mia: Sim. A participação é o coração deste projeto. “Antes de construir paredes, queremos ouvir vozes”, disse o Sérgio Aires. Por isso, esta sessão pública, no dia 9, será um espaço de escuta e cocriação.
O modelo que defendemos é o da gestão comunitária e horizontal, com representação direta das comunidades e associações envolvidas, num processo contínuo de decisão e avaliação.
Não queremos um centro feito para as pessoas, mas com as pessoas, com orçamentos participativos, transparência e compromisso público.
Kira: Costumo perguntar: como se organiza uma comunidade que ainda não existe? Criar mudança não é só fazer política, é reconstruir as ligações que o sistema nos ensinou a quebrar.
O capitalismo e a colonização vivem dessa desconexão da terra, das vizinhanças, do sentido de pertença. Reencontrar-nos é um ato de descolonização.
Antes de falar em gestão participativa, é preciso criar comunidade, partilhar histórias, celebrar, existir juntas. Porque não posso lutar ao teu lado se nem sei quem és. A transformação real acontece quando nos encontramos cara a cara, quando criamos laços que os algoritmos não mediam. É aí que começa a verdadeira participação.
Qual foi o acolhimento que receberam da candidatura “Estamos aqui” à Câmara Municipal do Porto, encabeçada por Sérgio Aires do Bloco de Esquerda, e qual o grau de compromisso com este projeto?
Mia: O acolhimento foi extraordinário. Desde o início, a candidatura do Sérgio Aires mostrou um compromisso genuíno com a escuta e a diversidade, abrindo espaço para vozes independentes e experiências de vida que conhecem bem as bases.
Este projecto não é apenas simbólico, é político e estrutural. O Sérgio compreende que a inclusão não se decreta: constrói-se. E é com esse espírito que estamos a trabalhar, pessoas de diferentes áreas, movimentos e identidades, para construir um Porto que existe e resiste, mas também que sonha e transforma.
Kira: A ambição para este Centro chegou-me através do Sérgio Aires, e foi isso que despertou o meu interesse em participar. Desde o início, a candidatura mostrou coerência entre discurso e prática.
As ideias que defendemos, a escuta, a participação e criação de laços reais, encontraram espaço nesta equipa. Há uma abertura genuína à diferença, não apenas como valor simbólico, mas como prática política. Por isso acredito neste projeto: porque junta pessoas muito diferentes, com a mesma vontade de transformar o Porto num lugar onde todas as vidas contam.

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Pedro Leitão


