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Dark horses rugby

Há 12 anos atrás, quando fui ao primeiro treino daquilo que viria a ser a equipa de rugby “gay” de Lisboa, ainda não tínhamos nome. Os treinos eram num local secreto (divulgado em privado antes), não tínhamos material, nem capitão, não se podia tirar fotos e desenrascou-se um treinador - e tudo o resto - à custa de muita boa vontade individual. E assim nasceu uma equipa.

Éramos todos muito diferentes, mas o medo e o entusiasmo - equilibrados em igual medida e partilhados por todos - colocava-nos meio em pé de igualdade. O medo, na altura, não era o de nos aleijarmos, como agora; o que a maior parte dos atletas temia era que se soubesse que estavam numa equipa "gay".

Do grupo dos fundadores da equipa, a maioria dos atletas era de uma geração diferente da minha, anterior, com vivências de armário maiores e com medos que eu nem sempre partilhei. Eu, que tinha saído do armário aos 18 anos e com anos de contacto com activismo LGBTQ, destoava um pouco do resto nesse sentido, onde a grande maioria ainda estava no armário e com receio de lá sair.

Por consequência, a equipa que nasceu foi igualmente uma equipa discreta, embora unida e funcional. E, a bem e a mal, também foi essa a mentalidade que influenciou o rumo da associação que se criou na altura. Crescemos, começamos a organizar eventos, recrutamentos, e permitia-se alguma exposição, mas sempre com uma grande reserva no que toca a questões identitárias; não nos podíamos associar a marchas e nada de categorias demasiado explícitas como "gays" ou "LGBT" no nome. "Somos é inclusivos!", justificavam de uma forma que a mim me soava a tentar mascarar o medo.

Como, se Queer e LGBTQ, achava eu, não fossem - na sua génese - expressões criadas especificamente para ir de encontro à falta de inclusão e diversidade no mundo;
Como se no LGBTQ não coubesse toda a diversidade de género, sexualidade e expressão, incluindo os aliados, as famílias, etc;
Como se houvesse algum problema em assumirmos a nossa especificidade, em vez de apontarmos para uma universalidade teórica meio vazia;
Ou como se o desporto amador e de qualidade não devesse ser sempre inclusivo.

Mas era uma realidade diferente, e assim foi.

O tempo passou, eu dei outros voos e regressei passado uns anos. Nos entretantos, a equipa - como o mundo - mudou. Ao longo de várias versões da equipa, com diferentes atletas, capitães, treinadores e lideranças da associação, muito do medo que existia foi-se dissipando, mas alguma teimosia ficou.

Uma década depois, continuávamos ainda a recusar uma presença oficial na marcha do orgulho, e continuávamos a justificar internamente a fuga às nomenclaturas LGBTQ nas nossas comunicações e identidade, mesmo já depois de termos documentários, patrocinadores, arraiais, calendários, e toda uma vida explícita e positivamente Queer, Gay ou lá como lhe queiram chamar.

E eu perguntava-me sempre quanto mais tempo iríamos ser a única equipa gay de rugby europeia que não se assumia LGBTQ, mas apenas como "inclusiva" e que se recusava a participar nas marchas locais da sua cidade. Ambas coisas recorrentes nas outras equipas como a nossa que conhecemos por essa Europa fora.

Este receio, em certa medida, conseguia ser tão contraprodutivo que até deu origem a uma piada recente com um atleta da equipa, que tem uma amiga que, por tanto ouvir falar da “equipa de rugby inclusiva", ficou surpreendida quando soube que éramos (quase) todos LGBTQ, e que na cabeça dela já se tinha perguntado, “como é que as pessoas em cadeiras de rodas jogavam rugby connosco?”.

Somos uma equipa inclusiva, sem dúvida; como todo o bom desporto deve ser, mas também somos uma equipa LGBTQ, e não é por sermos LGBTQ que excluímos pessoas que não são LGBTQ. É essa a diferença entre a nossa equipa e as outras. Cá também cabem os que não são como nós, os aliados e amigos e curiosos e etc. Tal como não é por sermos uma equipa de Lisboa, que só temos ou aceitamos atletas de Lisboa ou de Portugal. Esta é a nossa origem e identidade, é isto que nos diferencia das dezenas de outras equipas de rugby, e acredito que devemos celebrá-la com orgulho. Os únicos que cá não cabem são os homofóbicos, transfóbicos, sexistas e racistas (etc), que são habitualmente as únicas pessoas que se ofendem com as designações arco-íris.

 

Somos uma equipa inclusiva, sem dúvida; como todo o bom desporto deve ser, mas também somos uma equipa LGBTQ, e não é por sermos LGBTQ que excluímos pessoas que não são LGBTQ. É essa a diferença entre a nossa equipa e as outras.

Rugby gay team Lisbon

Os únicos que cá não cabem são os homofóbicos, transfóbicos, sexistas e racistas (etc), que são habitualmente as únicas pessoas que se ofendem com as designações arco-íris.

 

E é por perceber tudo isto, por conhecer e por ter vivido parte desta história e desta luta, que sei que este ano foi tão especial.

Este ano, pela primeira vez em 12 anos de existência, os Dark Horses foram à Marcha de orgulho LGBTQ de Lisboa como equipa, usando o equipamento oficial, todos juntos! E foi tão bonito.

Ter conhecido uma versão desta equipa onde ninguém teria coragem ou vontade de participar numa marcha, para chegar a um universo onde praticamente todos os atletas vêem e participam nela com orgulho e entusiasmo, é indescritível. É progresso e é liberdade, as coisas mais bonitas de se viver.

Certo, ainda continuamos com ordens superiores para moderar parcialmente o discurso relativamente a estas palavras que nos definem, mas que passo que este foi depois destes anos todos!

Podia ter sido mais cedo? Claro que podia (e devia!), mas cá chegámos! E fizemo-lo com uma versão da equipa tão fantástica, tão cheia de energia e entusiasmo, com atletas tão empenhados e unidos e com um capitão fenomenal, o nosso Terry Martins.

Parabéns Dark Horses e parabéns a todas as pessoas que por cá passaram e que nos fizeram chegar a este momento! Este ano ficará, sem dúvida, como um marco histórico para a equipa e para a associação, que também merece crédito por ter finalmente consentido com este passo, e por se estar a re-inventar numa versão ainda mais inclusiva de si própria mudando de nome de “Boys Just Wanna Have Fun” para “All Together 4 Sports”.

Que seja o fim do medo do orgulho e o medo da nossa identidade. Somos e sempre fomos valentes, mesmo até quando não o percebíamos.

Marcha Orgulho 2022

E termino da forma que costumamos terminar os nossos treinos a gritar, e que este ano soa ainda mais pertinente:

Temos medo?
NÃO!

 

David Jacaré

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