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O início desta crónica levou duas tentativas até eu conseguir perceber exactamente o que é que queria dizer, como o queria dizer, e a quem o queria dizer. Não sabia se o queria escrever em jeito de confissão a vocês que me lêem, ou à pessoa que me faz escrever esta crónica, por isso é provável que estes parágrafos não passem duma versão em prosa dum disco da Adele/Taylor Swift, ou outra qualquer que esparrama a vida sentimental em discos.

O denominador comum aqui é a dúvida. A dúvida e o receio de ter dado um passo (ou vários) que me vão dar material para mais crónicas corrosivas. No entanto, também existe esperança a contra-balançar essa dúvida. Esperança que o resultado desses passos seja algo bonito. Lidar com a incerteza da espera é talvez um dos aspectos com os quais ainda sinto mais dificuldades quando conheço alguém em quem estou interessado. Acho, por isso, que vale a pena passarmos esta crónica a falar um bocadinho acerca das palavras “esperança” e “expectativa”, e da forma como elas conseguem mudar muito a forma como nos relacionamos com as outras pessoas.
A Wikipédia tem uma definição interessante para a palavra “esperança”. Fala nela como uma disposição de espírito ou crença emocional na possibilidade de resultados positivos. Já em relação a “expectativa”, diz-nos que implica contar com que um resultado positivo aconteça. Em bom Português, podíamos dizer que “expectativa” é contar com o ovo no cu da galinha e “esperança” é mais um Ai, melher! Desqueira que sim!

Distinguir entre estes dois sentimentos é lixado, seja na vida em geral, seja nos relacionamentos.

Distinguir entre estes dois sentimentos é lixado, seja na vida em geral, seja nos relacionamentos. Quando começamos a conhecer alguém novo, é virtualmente impossível separarmo-nos da nossa bagagem emocional. Por muito que um sem número de artigos de auto-ajuda e de mindfulness nos digam que temos que viver no momento presente sem estar agarrados ao Passado, ou sempre a pensar no Futuro, está na Natureza humana evitar a incerteza: o Passado informa-nos e aquilo que desejamos para o Futuro serve muitas vezes como reconforto para um Presente que é frequentemente desconfortável. Do ponto de vista dos relacionamentos, isto é tão ou mais verdade do que nos outros aspectos da nossa vida. Considero-me um sortudo por nunca ter passado por um relacionamento abusivo porque sei que não é essa a realidade de toda a gente. Há pessoas que passaram por coisas muito más, saíram de antigas relações extremamente magoadas e é muito difícil seguir em frente e resolver as coisas. Coisas essas que às vezes tornam a nossa relação com a definição da palavra “Esperança” que mencionei acima bastante complicada. Acabamos, em certa medida, por perder essa crença emocional na possibilidade de um resultado positivo e começamos a ceder ao chamamento das “Expectativas” que nos iludem com a falsa certeza de que algo vai acontecer.
Escrevo esta crónica sentado a olhar para o esplendor do Tejo num dia de Sol e tento perceber exactamente onde é que estou no que diz respeito a estas duas palavras e à minha situação actual: por um lado tenho esperança que esteja algo de bonito a começar mas, por outro lado, o meu medo de ficar sozinho puxa-me para o lado das expectativas e de querer apressar o processo para não ter que lidar com o desconforto da incerteza durante muito tempo.

É importante introduzir esta terceira palavra nesta crónica: Medo.

É importante introduzir esta terceira palavra nesta crónica: Medo. O medo é uma coisa fascinante no sentido em que é uma ferramenta indispensável no arsenal do nosso instinto de sobrevivência e, ao mesmo tempo, o grande responsável por todos os desastres que tendem a acontecer quando a pessoa cede a conselhos de “amiga, segue os teus instintos”. Biologicamente, o instinto não é mais do que a parte mais primitiva do nosso cérebro a reagir a alguma coisa. A questão é que não reage com base numa ameaça real, mas sim numa ameaça percebida pelas nossas circunstâncias e experiência de vida: como esta parte do nosso cérebro já não tem que nos defender de ursos, lobos, etc. (double entendre propositado, mas estou mesmo a falar de bichos de quatro patas… as nomenclaturas EXTENUANTES da comunidade homossexual masculina ficam para outro dia), “defende-nos” de coisas que não são necessariamente uma verdadeira ameaça. “Seguir os instintos”, não é mais do que ser reactivo à ansiedade e a ansiedade raramente nos leva a tomar boas decisões na vida. (Por acaso, a Sodona Amália cantou tudo o que há para dizer acerca do Medo.)
Eu acho que no contexto duma relação, ou do início duma potencial relação, o Medo leva-nos a focar em tudo aquilo que não queremos que aconteça “desta vez” e acabamos por construir um quadro impossível de condições ideais que uma outra pessoa necessita de ter para as coisas darem certo. Enchemos uma caixa com toneladas de expectativas desprovidas de esperança e, inevitavelmente, despejamos essa caixa no colo da outra pessoa o que é extremamente injusto: quem temos à frente não tem obrigação de sarar feridas que não causou. Involuntariamente poderá fazê-lo, mas acho que estamos de acordo ao afirmar que expectar (e não esperar...) que isso seja uma condição a priori para um novo relacionamento, é extremamente injusto.
A outra coisa que o Medo normalmente faz, é fechar-nos em copas e colocar-nos num estado de evasão completa ao sentimento de vulnerabilidade do qual já tenho vindo a falar noutras crónicas. A meu ver, o motivo pelo qual nos fechamos é porque a pessoa que temos à nossa frente não corresponde a 100% às expectativas que o nosso Medo teceu.
Há uma frase de Voltaire (alerta de bicha convencida que é culta e que lê filósofos franceses, só que não… li numa revista e fixei) que, por acaso, se aplica perfeitamente a isto: Le mieux est l’ennemi du bien. “O melhor é inimigo do bom”.
Até sinto que podia terminar a crónica com isto, mas tenho a puta da mania e ainda tenho mais Voltaire para citar (e desta vez li mesmo o livro - Candide - que, aliás, recomendo vivamente), por isso aguentem lá mais um ou dois parágrafos.
No fundo, é o que todos fazemos e não é o facto de repentinamente ganharmos consciência de que o estamos a fazer que implica que larguemos o hábito completamente. É preciso haver uma vontade genuína em atravessar esse processo de crescimento que muitas vezes é extremamente desconfortável e doloroso. O ser humano é uma criatura de tal forma habituada aos seus hábitos (passe a redundância), que nem sempre nos apercebemos que os nossos medos nos cortam completamente a ligação com aquilo que é um genuíno sentimento de Esperança. Focamo-nos no “melhor” e rejeitamos o “bom” que temos à nossa frente. Isto remete-me para a minha primeira crónica e para o que falei na altura acerca da nossa relação com a palavra “imperfeição”.
O “Perfeito” não vai vir porque não existe. Andar à espera “do melhor que já não vem” (a mana hoje está citadiça… agora foi o Variações a definir Fear Of Missing Out antes de o séc. XXI ter inventado a expressão FOMO), é como viver sem visão frontal e desejar aquilo que não existe em detrimento daquilo que temos à nossa frente.
Olho novamente para o Tejo e tento encher-me de esperança que isto resulte. Tento encher-me de esperança que o outro lado perceba que il faut cultiver notre jardin (Voltaire outra vez): “é preciso cultivar o nosso jardim”.
E sim.
Este texto é a continuação da saga que começou na minha segunda crónica… o All By Myself ainda não chegou ao anymooooooooooooooooore e eu gostava mesmo que não chegasse.

 

R. J. Ripley

 

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