opinião

É sobre nós, não sobre eles



(Crónicas de um homem queer a caminho dos 50 anos)

Destruí-me e reconstruí-me milhares de vezes. Na verdade, acho que a fase de cura e reconstrução é diária. Não pára jamais. Ainda assim, havia prometido. Havia dito a mim mesmo que nunca, mas nunca mais, homem algum me deixaria no estado em que estou agora… Mas, lá está a vida. Nunca digas nunca, porque a vida pega em ti e faz-te passar por tudo outra vez.

Os meus textos não são apenas sobre activismo, mas sobre o que vejo, observo e vivo dentro da comunidade que, de uma forma ou de outra, deveria ser a minha, dar-me colo e carinho quando estou mal e na merda.

Partilhei várias vezes com o estimado leitor, que queria “a sorte de um amor tranquilo“, mas acho que pessoas há que, como eu, nunca foram destinadas a isso a que chamamos de amor. Vivemos e sentimos e observamos demais. É o nosso mal. Fôssemos umas Marias vai com as outras e estaria sempre tudo bem, a cada dia com um parceiro diferente na cama. Mas, não passa por ter um parceiro diferente cada noite, bem pelo contrário.

Vivi uma relação abusiva durante um tempo. Era novo. Achava que não merecia melhor. E assim fui aguentando, mês após mês, uma relação aberta, mas só de um lado, atenção. Até isto me quebrar completamente por dentro. Quem gosta, quem se dá bem neste tipo de dinâmicas, por mim tudo bem. Quem sou eu para interferir nas liberdades alheias. No entanto, quando toca às minhas liberdades, acho que tenho algo a dizer.

Passei anos e anos sozinho. Sem confiar em ninguém. Mesmo em ninguém. Atafulhava os dias com trabalho e activismo e, quando me cheirava a algo mais sério, rapidamente boicotava a situação. Tal era o meu medo de repetir padrões, que é como quem diz voltar a sofrer.

Um dia houve, não há muito tempo, nem dois meses, em que deixei cair as muralhas e um novo António, qual fénix, ressurgiu das cinzas. Por causa de uns olhos bonitos, uma boa conversa, mas, sobretudo, por achar que devia dar-me uma oportunidade. Não sou assim tão diferente dos outros – talvez nos valores. 

Porque não permitir-me, pelo menos, tentar? O que foi um abanão do tipo: “Pessoas como tu (eu) impedem coisas bonitas de acontecer”, passou, em poucos dias, para um “Somos só amigos”, acabando, no fim num triste episódio, que só de recordar, me revolve os fígados. 

Como já afirmei anteriormente, faça cada qual o que quiser. Mas, comigo? Tenho mão podre para homens ou vivemos um “Amor líquido “? É que eu não pedi esta situação a ninguém. Mesmo. Mais a mais, e como soube da situação por portas e travessas, ainda doeu mais. F***-se, podemos ser amigos que só se estão a conhecer? Mas, não tens tesão comigo e tens tesão com outros??? Mal vai a banda.

Situações destas fazem com que gays do crl se sintam uma m…, por conta duma série de gays de m… que se acham do crl.. Os maiores, os mais bonitos, os melhores. E, com este tipo de situações, vemos cada vez mais, homens como eu, e não só, abandonados, com uma auto-estima de m…. Assim vai o mundo. Uma palavra a todos os que possam identificar: a dor passa, mas o nosso amor próprio nenhum homem nos dá.

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As minhas últimas crónicas aqui.

Foto: depositphotos.com/pt

António S.um homem queer a caminho dos 50 anos

Um Comentário

  • Ricardo

    Obrigado pelo depoimento. Entendo também sobre o que falas, tb eu passei por tantos momentos de questionamento, pq comigo nunca resulta?! o que há de errado em mim?! levei muita pancada, principalmente por desde sempre acreditar e sonhar com o amor bonito, queria somente alguém com quem partilhar a vida e sermos felizes. Nunca acontecia. ia de luta em luta, tentando não deixar que levassem de mim o que tinha de mais belo. E agora ja tb a caminho dos 50 encontrei alguém. Alguém que surgiu e estava tudo ali, tudo o que pensei que nunca iria encontrar. Só para dizer que é possível.

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