Da homonormatividade à libertação radical: confrontos internos e externos na luta pelos direitos cuir – Fraturas na unidade LGBTQIA+ pós-Stonewall e conquistas e exclusões
Ao longo desta série, percorremos os caminhos sinuosos da resistência LGBTQIA+- Começámos com o grito de libertação de Stonewall e prosseguimos com apagamento político e mediático que se seguiu. Analisamos, agora, o campo das tensões internas: as disputas entre estratégias de assimilação e visibilidade radical, os confrontos entre a busca pela respeitabilidade e a necessidade de romper com a norma heterossexual. É o início de um debate ainda hoje vivo: quem cabe no orgulho e quem continua a ser deixado de fora?
Neste último artigo sobre Stonewall, prosseguimos pelos caminhos sinuosos da resistência queer / cuir. Partindo da efervescência social dos anos 70 e das fraturas internas no seio do movimento LGBTQIA+, abordamos o impacto da homofobia institucional e social que se prolonga até hoje. Revisitamos o surgimento dos primeiros colectivos em Portugal, a resistência à homonormatividade e a contínua luta contra as violências quotidianas e os crimes de ódio. Se nas partes anteriores a noite fundadora de Stonewall, a manipulação mediática e as tensões internas, aqui confrontamos a ilusão da chegada, reafirmando que os direitos não são um ponto de chegada, mas um campo em permanente disputa.
O Peso da Respeitabilidade: A Mattachine Society e a Homonormatividade Inicial
As estratégias de assimilação não nasceram por acaso: emergiram de um contexto de perseguição feroz, mas depressa começaram a excluir as vozes dissidentes.
As tentativas de apropriação das lutas LGBTQIA+ por parte de setores homonormativos da comunidade gay sempre estiveram presentes — e continuam a manifestar-se. Desde as primeiras fases do activismo institucionalizado, surgiram dentro do próprio coletivo associações que promoviam, com firmeza, a assimilação. O objetivo era alinhar-se com os padrões heterossexuais e corresponder às expectativas da heteronormatividade; apresentar a população LGBTQIA+ como uma extensão aceitável da sociedade dominante, procurando demonstrar que podíamos — e devíamos — ser tão respeitáveis quanto os heterossexuais. Esta estratégia procurava conquistar direitos através da imitação da norma, muitas vezes em detrimento das experiências mais dissidentes e marginalizadas dentro da comunidade.
Um dos grupos mais emblemáticos dessa postura foi a Mattachine Society, que criticou abertamente os motins de Stonewall, considerando que a resistência física e o confronto directo com a polícia prejudicavam a imagem da comunidade gay e era uma expressão de desordem protagonizada por lésbicas, travestis e outros elementos marginais. Os seu líderes estavam particularmente preocupados com a forma como a imprensa e a sociedade poderiam interpretar os motins. Temiam que os protestos pusessem em risco os tímidos avanços que tinham conseguido através da negociação e do ativismo “bem-comportado”.

Dick Leitsvh, presidente da Mattachine Society nas instalações desta sociedade. Nova Iorque, 30 de dezembro de 1965. Foto por Louis Liotta/New York Post
Fundada em Los Angeles, em 1950, por Harry Hay e outros activistas LGBTQIA+, a Mattachine Society foi a primeira organização homófila dos E.U.A. Focava-se sobretudo em criar solidariedade, consciência e identidade coletiva entre homens gays, num período de forte repressão social e legal. A sociedade organizou grupos de discussão para criar espaço de partilha segura e reflexão sobre a condição de ser homossexual. Tinha um cariz inicial mais radical, influenciado pelas ideias marxistas de Harry Hay, que via as pessoas gay como um grupo oprimido com potencial revolucionário. A partir de 1953, com a saída de Harry Hay e dos fundadores originais, a Mattachine Society tornou-se progressivamente mais conservadora, assimilacionista e homonormativa, procurando a aceitação social através da promoção de uma imagem respeitável dos gays e enfatizando o seu desejo de integração na sociedade heteronormativa.
Annual Reminders: O Último Protesto da Respeitabilidade
Entre o desejo de aceitação e a necessidade de visibilidade, o último Annual Reminder expôs um racha irreparável dentro do movimento.
Apesar das resistências externas e internas, Stonewall viria a ser o ponto de viragem na luta LGBTQIA+ nos E.U.A. Pouco a pouco, esse impacto espalhou-se pelo mundo ocidental e pelo resto do planeta. A 4 de julho de 1969, em Filadélfia, em frente ao Independence Hall, decorreu o 4th (e último) Annual Reminder. Os Annual Reminders foram manifestações organizadas entre 1965 e 1969 pelas primeiras organizações homófilas dos EUA. Entre estas contavam-se a Mattachine Society de Washington, a Daughters of Bilitis e a Janus Society. O objetivo era lembrar o governo e a sociedade de que as pessoas homossexuais eram cidadãs americanas que não gozavam de direitos iguais.

Annual Remider de 1969, realizado no dia 4 de Junho, em Filadélfia. Fonte: New York Public Library Digital Collections
Os Annual Reminders exigiam dos seus participantes um dress code rigoroso e um comportamento disciplinado. Os homens deviam usar fato e gravata e as mulheres, vestidos ou saias. Em relação ao comportamento, exigia-se discrição; nada de expressões públicas de afecto, gritos ou símbolos extravagantes. O foco era parecerem bons americanos que apenas pediam igualdade de direitos. Era uma estratégia consciente para mostrar respeitabilidade e tentar combater estereótipos negativos. Nesse ano, um casal gay decidiu dar as mãos durante o protesto. O organizador Frank Kameny, uma figura proeminente da Mattachine Society, terá inicialmente repreendido o casal, insistindo na manutenção da imagem respeitável. Mas Craig Rodwell, activista mais jovem e menos conformista, reagiu incentivando todos os presentes a darem as mãos, promovendo um gesto de visibilidade que desafiava a postura de contenção dos protestos anteriores. Este momento é frequentemente interpretado como um ponto de transição entre o ativismo conservador e homonormativo, e o movimento de libertação gay que emergiu com força após os motins de Stonewall, que tinham ocorrido apenas alguns dias antes, a 28 de junho de 1969. Este foi o último Annual Reminder. No ano seguinte, o evento foi substituído pela primeira Marcha do Orgulho Gay, organizada em Nova Iorque, para assinalar o primeiro aniversário de Stonewall.
Da Libertação ao Confronto: O Nascimento da Gay Liberation Front e da Gay Activist Alliance
A energia de Stonewall rapidamente se canalizou para novas formas de resistência: mais radicais, mais interseccionais, mais visíveis.
Estas tensões evidenciaram a necessidade de rutura com o comportamento domesticado e a imagem de respeitabilidade heteronormativa. Foi assim que nasceu a Gay Liberation Front, o primeiro grupo de defesa dos direitos homossexuais a utilizar a palavra gay na sua designação. A sua formação deu-se em Julho de 1969, cerca de um mês depois dos protestos de Stonewall, por um grupo de dissidentes da Mattachine Society. Reivindicava liberdade não apenas para gays, mas para todas as pessoas oprimidas, alinhando-se com movimentos contracultura como os Black Panthers Negras, movimentos feminista e contra a guerra no Vietnam. Organizaram marchas e piquetes e publicaram a revista Come Out!, que circulou entre 1969 e 1972.
Em Dezembro do mesmo ano, dinamizada por dissidentes da GLF, surgia a Gay Activist Alliance, que procurou uma abordagem mais focada e institucional, actuando dentro do sistema político e com o enfoque mais direcionado para a comunidade gay. Sempre que um político realizava um evento, surgiam activistas para confrontá-lo com as questões da discriminação, incluindo o presidente da câmara de Nova Iorque.
Snake Pit: Quando a Violência Policial Volta a Bater à Porta
Stonewall não foi o fim da repressão: novos episódios brutais reacenderam a urgência da mobilização nas ruas.
Porém, a repressão policial não cessou. No dia 8 de Março de 1970, uma rusga ao bar Snake-Pit, em Greenwich Village, terminou com 167 pessoas detidas. Um jovem argentino, Diego Viñales, ao tentar fugir pela janela com medo de ser deportado, caiu sobre uma barra de ferro e ficou empalado. Sobreviveu, mas o caso causou indignação e mais de 500 manifestantes dirigiram-se à esquadra para exigir justiça. O comportamento dos polícias presentes foi desumano — chegaram a referir-se à vítima com insultos como faggot, num tom desprezível e impiedoso.

Capa do Daily News no dia 9 de Março de 1990
Este trágico incidente teve uma enorme visibilidade pública. No dia a seguir ao incidente, a edição do Daily News tinha uma foto de Viñales empalado na barra de ferro, na primeira página do jornal. A tragédia gerou uma grande onda de solidariedade dentro da comunidade LGBTQIA+.
Christopher Street Liberation Day: O Orgulho Ocupa as Ruas
Da dor e da resistência nasceu um gesto colectivo que viria a marcar para sempre o calendário e a história LGBTQIA+: a primeira Marcha do Orgulho.
A Gay Liberation Front e a Gay Activist Alliance, em colaboração com outras organizações LGBTQIA+ e feministas nova-iorquinas bem como com vários militantes independentes, formaram o Christopher Street Liberation Day Committee. Este comité organizou a Christopher Street Liberation Day March, no dia 28 de Junho de 1970, para celebrar o 1.º aniversário dos motins de Stonewall.
A marcha partiu da 6th Avenue em Nova Iorque e seguiu até ao Central Park. Sendo considerada a primeira Marcha do Orgulho LGBTQIA+ da história, e contribuiu para a promoção da visibilidade, do orgulho e da luta contra a opressão social e policial. Este evento deu origem ao modelo das marchas do orgulho que rapidamente se espalhou por outras cidades dos EUA e do mundo.

Christopher Street Liberation Day March. 29 de Junho de 1970. Foto de Fred W. McDarrah.
Além de Nova Iorque, no mesmo dia realizaram-se marchas semelhantes em Los Angeles, Chicago e São Francisco, marcando o início do movimento global de celebração e luta LGBTQIA+.
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O pós-Stonewall não foi uma caminhada linear rumo à liberdade. Foi — e continua a ser — um campo de disputa entre quem procura ser aceite e quem exige ser livre, entre quem negocia espaço dentro da norma e quem a quer desmantelar. Este legado é plural, atravessado por tensões que ainda hoje moldam os contornos do orgulho e os limites da inclusão.
A noite de 28 de Junho de 1969 desencadeou uma energia transformadora, mas não apagou os conflitos internos nem as exclusões dentro do próprio movimento. As tensões entre respeitabilidade e revolução, visibilidade e assimilação, continuaram a desenhar fronteiras — ora explícitas, ora disfarçadas — que delimitavam quem era visto, quem era ouvido e quem permanecia na margem. À medida que o movimento se expandia, também cresciam as suas contradições. As lutas pela libertação queer, trans e cuir não cessaram com o direito à marcha, nem com os gestos públicos de orgulho.
O que veio depois? Quem ficou pelo caminho e quem continuou a resistir? É isso que exploramos na próxima parte, onde seguimos os ecos desta revolta — das alianças e fraturas nos Estados Unidos às primeiras faíscas do ativismo em Portugal, num percurso que nos traz até ao presente. Porque a luta nunca foi apenas contra a opressão externa: também se trava nas fissuras internas e nas batalhas quotidianas por dignidade plena.
Revoluções: Conquistas e Fraturas no Pós-Stonewall
O pós-Stonewall trouxe vitórias visíveis, mas também divisões internas que expuseram exclusões e tensões que continuam a atravessar a comunidade LGBTQIA+.
Como os artigos anteriores atestam, o activismo LGBTI não surgiu do nada. Inseriu-se num contexto de efervescência social nos Estados Unidos, influenciado por movimentos pacifistas contra a guerra do Vietname, pelo Black Panther Party for Self-Defense, por movimentos feministas, pelo movimento hippie e pelas mobilizações estudantis. Todas essas correntes convergiram num movimento progressista de grande amplitude.
A resistência, contudo, não tardou a manifestar-se, tanto por parte do poder instituído como de figuras publicamente homofóbicas, como Anita Bryant — uma cristã fundamentalista que defendia abertamente a exclusão de conteúdos sobre homossexualidade das escolas. Trata-se, aliás, de uma antecessora ideológica de algumas figuras políticas atuais que promovem políticas de censura e apagamento da diversidade, como o Moms for Liberty, Movimento de base nos EUA, composto maioritariamente por mães conservadoras, que advoga contra a inclusão LGBTQIA+ nas escolas, especialmente no currículo, frequentemente sob o pretexto de proteger as crianças — uma tática diretamente herdada da campanha Save Our Children de Bryant.
À medida que o movimento crescia, começaram a surgir divisões internas. Em 1973, na Marcha do Orgulho de Nova Iorque, a activista feminista Jean O’Leary acusou o coletivo trans* e drag de comportamentos hostis para com as lésbicas. Sylvia Rivera, uma das líderes trans* da revolta de Stonewall, respondeu energicamente, recordando que foram as drag queens que arriscaram as suas vidas naquela fatídica noite. A tensão entre sectores do próprio movimento revelou uma crescente transfobia e exclusão de identidades não normativas. Sylvia Rivera e Marsha P. Johnson, fundadoras da organização STAR — Street Transvestite Action Revolutionaries —, continuaram a luta em prol das pessoas trans* e sem-abrigo. Anos mais tarde, Jean O’Leary reconheceria que a sua atitude havia sido errada, descrevendo-a como horrível e questionando como pôde excluir as pessoas trans* enquanto, ao mesmo tempo, criticava as feministas que excluíam as lésbicas.

Marsha P. Johnson e Sylvia Rivera durante o Christopher Street Liberation Day de 1973, em Nova York
Entretanto, os homens gays concentraram os seus esforços na luta contra a patologização da homossexualidade. Em 1973, a Associação Psiquiátrica Americana votou favoravelmente para retirar a homossexualidade da lista oficial de distúrbios mentais.
A comunidade uniu-se também para combater iniciativas como o movimento conservador Save Our Children, liderado por Anita Bryant, que visava proibir pessoas LGBTI de exercerem funções docentes. Mesmo após o brutal assassinato de Harvey Milk, a 27 de Novembro de 1978, aos 48 anos — figura maior da resistência queer / cuir — as forças conservadoras não conseguiram silenciar o avanço das lutas pela liberdade.
Portugal: Entre a Revolução dos Cravos e a Emergência dos Movimentos Queer / Cuir
Enquanto nos Estados Unidos o movimento avançava, em Portugal a Revolução dos Cravos abriu lentamente espaço para as primeiras expressões públicas de dissidência sexual.
No Portugal fascista, não se vislumbravam sinais de lutas ou reivindicações pelos direitos LGBTQIA+. Só com a Revolução dos Cravos, em 1974, se abriu caminho para a liberdade política. Ainda assim, foi necessário esperar até 1982 para que as relações entre pessoas do mesmo sexo deixassem de ser consideradas crime — uma marca discriminatória que permanecia no Código Penal desde 1886.
Ainda em 1974, começaram a surgir em Portugal alguns movimentos activistas de pessoas homossexuais e bissexuais. Entre eles destaca-se o MHAR – Movimento Homossexual de Acção Revolucionária, fundado por António Serzedelo. No dia 13 de Maio de 1974 o MHAR publicou o Manifesto pelas Liberdades Sexuais. A reação foi imediata e hostil: o general Galvão de Melo, um dos mais reaccionários membros da Junta de Salvação Nacional, numa intervenção televisiva, afirmou que o 25 de Abril não tinha sido feito para prostitutas e homossexuais reivindicarem direitos.

Manifesto MAHR, publicado no Diário de Lisboa no dia 13 de Maio de 1974
Mais tarde, em 1980, surgiu o CHOR — Colectivo de Homossexuais Revolucionários, e, em 1982, realizaram-se os Encontros Ser (Homo)sexual, promovidos pelo Centro Nacional de Cultura. Apesar da sua relevância pioneira, estes movimentos e iniciativas foram de curta duração e com impacto social limitado, num país ainda profundamente conservador e queerfóbico / cuirfóbico.
Foi apenas a 28 de Junho de 2000 que Lisboa acolheu a sua primeira Marcha do Orgulho LGBTQIA+, organizada pela ILGA-Portugal, Safo, Opus Gay e GTH — Grupo de Trabalho Homossexual, no âmbito da Primeira Semana do Orgulho Gay, Lésbico, Bi e Transgender. O percurso começou no Jardim do Príncipe Real, atravessou a Baixa lisboeta, incluindo o Largo de Camões e a Rua do Alecrim, e terminou junto à Ribeira das Naus. Entre 500 a 1000 pessoas participaram, muitas das quais usaram máscaras triangulares para proteger a identidade — máscaras que, ao longo da marcha, foram sendo gradualmente retiradas, num gesto simbólico de afirmação e visibilidade.

Fotografia da 1ª Marcha do Orgulho Gay, Lésbico, Bi & Transgender em Lisboa no ano 2000. Centro Documentação Gonçalo Diniz, ILGA – Portugal — Disponível em https://www.museudoaljube.pt/evento/antes-de-ser-orgulho-foi-revolta/?utm_source=chatgpt.com
Apesar dos avanços significativos tanto em Portugal como na Europa e no mundo, a luta está longe de estar concluída. Persistem discursos que insinuam que já conseguimos tudo, já temos o que queremos: podemos casar, dar as mãos em público, sair do armário — como se estes gestos encerrassem a luta. Mas os direitos não são troféus — são processos contínuos que exigem vigilância e participação. Casar não pode ser apresentado como o ponto final de um percurso de libertação.
Os Limites da Respeitabilidade: Da Tolerância à Dignidade Plena
Portugal conquistou direitos fundamentais, mas permanece preso a uma lógica de tolerância que limita o reconhecimento pleno e a dignidade das vidas queer / cuir.
Portugal tem sido destacado internacionalmente como um país tolerante, mas a tolerância é um conceito insuficiente. Tolerar é admitir algo que se desaprova. Ninguém diz a uma pessoa heterossexual que será tolerada — porque essa ideia, nesse contexto, seria absurda. Não queremos ser tolerados. Queremos existir com dignidade plena, sem necessidade de legitimação.
A chamada respeitabilidade não se constrói pela reprodução de modelos heteronormativos, pela exploração do outro ou pela exclusão e silenciamento das vozes mais dissidentes dentro da própria comunidade. A legitimidade das nossas vivências não precisa de se encaixar nos moldes sociais dominantes, não precisa ser homonormativa. Todos, em maior ou menor grau, fomos e somos cúmplices da homofobia e da queerfobia / cuirfobia estrutural que atravessa as instituições e o quotidiano.
A Violência que Persiste: Crimes de Ódio e Resistência no Presente
As conquistas legais não eliminaram a violência: crimes de ódio, agressões e ameaças continuam a marcar o quotidiano das pessoas LGBTQIA+ em Portugal.
A luta não é apenas contra a extrema-direita, que vocaliza o ódio sem pudor, mas também contra as formas subtis e enraizadas de discriminação — aquelas que se escondem nos silêncios, nos olhares, nas microagressões, e até nas dinâmicas internas da própria comunidade LGBTQIA+. Apesar dos avanços consagrados na Lei n.º 38/2018, que reconhece o direito à autodeterminação da identidade e expressão de género, as pessoas trans* em Portugal continuam hoje a enfrentar obstáculos institucionais, resistências sociais e procedimentos que, na prática, persistem em exigir validações externas para o simples exercício do seu direito de existir plenamente.
A Organização para a Segurança e Cooperação na Europa (OSCE) define crime de ódio como qualquer infracção motivada pela pertença real ou presumida da vítima a um grupo social — seja por orientação sexual, identidade de género, etnia, religião ou outra característica. Mesmo que a vítima não pertença efetivamente a esse grupo, a percepção do agressor é suficiente para configurar o crime.
Nos últimos anos, têm-se multiplicado os ataques organizados por forças neonazis e neofascistas contra pessoas e eventos LGBTQIA+ em Portugal. Em Março de 2023, registaram-se agressões na Marcha Trans de Lisboa e tentativas de intimidação em iniciativas culturais e educativas promovidas por colectivos queer. Mais recentemente, estas forças intensificaram a sua actividade, protagonizando invasões de conferências LGBTQIA+, onde realizaram saudações nazis. Estiveram mesmo implicadas na preparação de crimes de ódio com potencial terrorista, desmantelados pela Polícia Judiciária em 2025. Têm também interrompido eventos do Orgulho em cidades como Évora e Lisboa, espalhado cartazes transfóbicos e difundido propaganda anti-género em espaços públicos e nas redes sociais. Casos como o assassinato brutal de Samuel Luiz, em julho de 2021, em La Coruña — espancado até à morte ao som de insultos homofóbicos — expõem de forma crua que o caminho para uma sociedade verdadeiramente segura e inclusiva está longe de estar concluído. Também em Portugal, o assassinato de Gisberta Salce Júnior, em Fevereiro de 2006, uma mulher trans* brutalmente torturada e assassinada no Porto, permanece como uma ferida aberta e um lembrete da violência extrema que atravessa as vidas das pessoas LGBTQIA+, especialmente das mais vulneráveis. Estes episódios revelam que, mesmo quando as violências não resultam em morte, continuam a ser sistematicamente desvalorizadas ou mal-enquadradas pelas autoridades, que frequentemente optam por classificá-las como meras desordens ou agressões comuns, apagando a sua motivação homofóbica ou transfóbica. O reconhecimento pleno dos crimes de ódio permanece um passo por cumprir na construção de uma sociedade verdadeiramente livre e segura para todas, todos e todes. Hoje, mais do que nunca, importa reforçar que os nossos direitos não dependem da concessão de terceiros, nem da necessidade de performance de respeitabilidade que nos é imposta. A luta continua — nas ruas, nas escolas, nos locais de trabalho e dentro de cada espaço onde a diferença ainda é vista como uma ameaça. A visibilidade é apenas o princípio. A dignidade, essa, ainda precisa de ser conquistada todos os dias.
A luta LGBTQIA+ nunca foi linear, nunca foi homogénea. O orgulho, as leis e as celebrações públicas não encerram o percurso. Continuam a existir silêncios, exclusões e violências que nos desafiam a permanecer ativamente vigilantes. Os nossos direitos não são concessões: são territórios conquistados, mantidos e ampliados diariamente. A dignidade não é um prémio – é uma condição que continuamos a exigir, até que todas as existências queer/ cuir possam respirar livremente.
Hiperligação para o Caderno Do pós-guerra a Stonewall em KuirCuir.pt
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Foto de capa: Marsha P. Johnson e Sylvia Rivera durante o Christopher Street Liberation Day de 1973, em Nova York
Publicado originalmente no kuircuir.pt
Orlando Figueiredo | kuircuir.pt


