Quando falamos de sexualidade, tendemos a simplificar em categorias: o “sexo normal”, o “sexo diferente”, o “sexo tabu”. Mas a verdade é que o universo da intimidade é muito mais vasto, criativo e diverso do que as gavetas onde tentamos arrumá-lo.
O termo “sexo baunilha” é usado, muitas vezes de forma carinhosa (ou até um pouco irónica), para descrever práticas sexuais consideradas mais convencionais — beijos, carícias, penetração, masturbação a dois. Baunilha, porque é o sabor clássico, o que agrada à maioria, sem surpresas. Não há nada de errado em gostar da doçura da baunilha; pelo contrário, ela é confortável, previsível, segura.
Do outro lado, encontramos o BDSM e as práticas kinky. Aqui entram as algemas, os vendavais de poder e entrega, os jogos de “dor” e prazer, as fantasias que dão cor a lençóis e imaginários. BDSM é a sigla para Bondage, Disciplina, Dominação, Submissão, Sadismo e Masoquismo. Palavras que, à primeira vista, podem assustar, mas que, na prática, significam sobretudo jogo, comunicação e consentimento.
Muitas vezes, quando falamos de práticas como BDSM, imaginamos imediatamente cenários extremos ou até violentos. Mas isso é fruto de estereótipos. A verdade é que, dentro desta comunidade, existe uma regra de ouro: SSC – são, seguro e consensual. Ou seja, qualquer prática só deve acontecer quando as pessoas envolvidas estão plenamente conscientes, em segurança e de acordo. Esta ética torna o BDSM, paradoxalmente, um dos territórios mais responsáveis no campo da sexualidade.
Outro aspecto fascinante é que o BDSM não se resume a chicotes e algemas. Pode incluir desde uma simples venda nos olhos, até jogos de poder subtilmente encenados. Muitas pessoas já viveram experiências kinky sem sequer lhes dar esse nome — um puxão de cabelo, um “deixa-me guiar-te”, ou até aquela adrenalina de explorar algo novo. O kinky não é sempre sobre intensidade; muitas vezes, é sobre detalhe.
Já o sexo baunilha, por ser o mais “clássico”, é frequentemente subestimado. Mas aqui cabe um lembrete importante: não existe nada mais erótico do que duas (ou mais) pessoas presentes, conectadas, entregues ao momento. O prazer não está no quão criativo é o repertório, mas sim na qualidade da ligação. A baunilha pode ser profunda, excitante e transformadora — desde que seja vivida com atenção e entrega.
E é aqui que quero fazer uma ponte importante: não existe uma hierarquia entre “baunilha” e “kinky”. O sexo baunilha não é menos excitante ou menos válido; o BDSM não é algo “anormal” ou reservado a minorias obscuras. Ambos são linguagens do prazer, com dialetos distintos. O que define a qualidade da experiência não é a prática em si, mas sim o respeito, o desejo e o consentimento entre as pessoas envolvidas.
Como psicóloga, observo frequentemente que a grande questão não é o tipo de prática escolhida, mas sim a forma como falamos (ou não falamos) sobre ela. O silêncio ainda pesa. Muitas pessoas sentem vergonha de admitir que gostam de um sexo mais “simples”, enquanto outras escondem o facto de se excitarem com dinâmicas de dominação ou fetiches específicos. Essa vergonha nasce de uma sociedade que insiste em classificar e normativizar o prazer.
E aqui entra um ponto essencial: a comunidade LGBTQIA+ tem historicamente mostrado maior abertura à experimentação sexual. Ao desafiar normas sociais rígidas sobre identidade e orientação, também abriu caminho para reinventar formas de prazer. Do movimento leather dos anos 70, às casas ballroom ou às práticas queer contemporâneas, o BDSM e o kinky foram sempre parte da resistência e da celebração. Isso não significa que todas as pessoas LGBTQIA+ explorem BDSM, mas sim que existe um terreno fértil para a liberdade erótica, onde o sexo baunilha e o kinky podem conviver sem estigmas.
A saúde sexual passa, sobretudo, por liberdade e auto-conhecimento. É reconhecer que tanto o toque suave como o nó da corda podem ser igualmente eróticos. É compreender que não precisamos escolher uma caixa, porque a sexualidade é fluida e pode dançar entre sabores e texturas.
O ponto de encontro entre estes universos é a curiosidade. Quando nos permitimos sair do automático — seja para experimentar um novo fetiche, seja para reinventar o sexo baunilha com mais presença — damos espaço ao prazer para florescer. A sexualidade humana não é estática; ela evolui connosco, com as fases da vida, com os nossos corpos e com as nossas relações.
O convite é simples: conversemos mais sobre o que gostamos. Quebrar o tabu, rir dos equívocos, explorar fantasias em segurança. O diálogo é a verdadeira chave do prazer — e aqui, baunilha e BDSM encontram-se sem qualquer oposição. Afinal, cada corpo tem a sua gramática do desejo, e cada relação pode escrever o seu próprio dicionário erótico.
Por isso, mais do que dividir o mundo entre algemas e lençóis de algodão, talvez possamos celebrar a diversidade das nossas práticas sexuais como parte de quem somos. O importante não é rotular, mas sim viver de forma consciente, honesta e segura. Afinal, entre a suavidade da baunilha e a intensidade do BDSM, cabe um arco-íris inteiro de experiências — e esse arco-íris é, justamente, o espaço da liberdade.
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Letícia David, Psicóloga


