Em tempos em que o discurso sobre o género se torna cada vez mais polarizado, a Companhia de Teatro de Sintra – Chão de Oliva estreia a peça de teatro documental Prefiro Não Dizer, em cena de 6 a 23 de Novembro, na Casa de Teatro de Sintra. Com direcção artística de Susana C. Gaspar, que assina também a dramaturgia e co-criação da peça, o espectáculo aborda temas como a identidade de género, preconceito, estereótipos e direitos humanos.
O espectáculo, de cariz documental, construiu-se a partir de improvisações, testemunhos reais, notícias e documentos, num processo coletivo com os intérpretes e criadores Miguel Moisés, Nisa Eliziário, Rafael Valentini e Sofia Pessoa Pádua. A peça insere-se no ciclo “Geografia de Género”, que o Chão de Oliva tem vindo a desenvolver ao longo deste ano, e propõe uma reflexão colectiva sobre a humanidade que partilhamos e sobre as liberdades que continuam sob ameaça, num contexto global em que os direitos das pessoas LGBTQIA+ permanecem em risco. Entre fragmentos de verdade e momentos de ironia, Prefiro Não Dizer explora as narrativas de quem vive fora das normas dominantes que definem o binómio mulher/homem, ou nenhum dos dois. Fomos falar com a directora artística Susana C. Gaspar.
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dezanove: Como surgiu a ideia de criar Prefiro Não Dizer?
Susana C. Gaspar: A sociedade actual tem vindo a ser marcada por vários discursos e atos de intolerância face às questões de género, e a realidade portuguesa tem sido também um espelho disso. Recentemente, Portugal caiu para o 11.º lugar no ranking de direitos das pessoas LGBTQIA+, tornando evidentes as ameaças aos ainda frágeis avanços nos direitos humanos desta comunidade. Face a este cenário, as questões de género e a não-discriminação devem, hoje mais do que nunca, ser recordadas e discutidas, de forma a alcançar uma verdadeira igualdade para todas as pessoas. A peça Prefiro Não Dizer surge, assim, como uma forma de refletir sobre esta realidade e de a confrontar. Esta é uma peça de teatro documental, que reúne testemunhos reais, em áudio e vídeo, e para a qual contámos com o apoio, por exemplo, da Associação ILGA Portugal, que tem estado a acompanhar o processo criativo. Este espetáculo insere-se no ciclo “Geografia do Género” que foi definido pelo Chão de Oliva para 2025 e sucede ao espetáculo “Teoria King Kong”, a partir da obra de Virginie Despentes, que teve encenação de Paula Pedregal.
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A peça fala de perdas de direitos LGBTQIA+ em Portugal e no mundo. Quais foram os aspectos ou episódios que mais a marcaram durante a investigação?
Houve vários aspetos que nos foram marcando e há algo em comum em cada um desses episódios: o discurso de ódio como base para esta amplitude de ameaças. Destaco uma notícia que integramos no nosso espetáculo… um episódio de homofobia que aconteceu no Brasil, de um abraço de um pai a um filho que foi confundido com um abraço de um casal homossexual e foram agredidos por isso.
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Qual é, para si, a responsabilidade do teatro — e da arte em geral — num momento em que direitos humanos básicos estão a ser postos em causa?
O teatro, tal como a arte, tem a responsabilidade de reflectir o seu tempo e de dar palco às realidades que muitas vezes são silenciadas ou ignoradas. Quando direitos humanos básicos estão a ser postos em causa, o teatro deve assumir o seu papel de espaço de questionamento e resistência. Através da arte, é possível sensibilizar o público e abrir caminhos para o entendimento do outro, nomeadamente num momento em que o ódio e a desinformação estão a ganhar terreno. Para mim, o teatro deve continuar a ser um lugar de liberdade, onde se afirmam diferentes vozes e se defendem valores de igualdade e dignidade humana.
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O teatro, tal como a arte, tem a responsabilidade de reflectir o seu tempo e de dar palco às realidades que muitas vezes são silenciadas ou ignoradas. Quando direitos humanos básicos estão a ser postos em causa, o teatro deve assumir o seu papel de espaço de questionamento e resistência.
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Que desafios enfrentou durante o processo de construção deste espectáculo, quer a nível artístico, quer emocional?
Foram desafios dentro de duas dimensões distintas – o desafio criativo, que é positivo, que nos faz mergulhar na criação artística, na criatividade, na nossa expressão como caminho para o encontro e a partilha – e o desafio dramatúrgico. A dramaturgia foi mais exigente por nos desafiar a mergulhar em notícias e relatórios com cenários pouco animadores. Houve momentos em que todos nós, creio que posso falar pelo colectivo, quebramos. As notícias eram demasiado assustadoras. Não queríamos acreditar que alguém poderia ter feito ou dito aquilo. E falo de artigos de opinião e de vídeos nas redes sociais. Houve uma manhã em que nos dedicamos à pesquisa sobre a “machoesfera” e ao discurso de ódio e misoginia online. Pessoalmente, estava muito desligada de tudo isso, talvez por auto protecção, e acabei por descobrir o que era, por exemplo, o significado do conceito “redpill”. Mas foi também nessa manhã que nasceu outra cena do espectáculo, a que apelidámos de “Reino Animal”. Do desespero e raiva, nasceu uma das cenas mais irónicas e divertidas da peça.
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Acredita que o teatro ainda tem um papel transformador na forma como a sociedade olha para temas como os direitos LGBTQIA+?
Sem dúvida, especialmente em Prefiro Não Dizer, onde histórias reais ganham expressão. Quando o público é confrontado com narrativas que revelam perspetivas diferentes das suas, cria-se uma oportunidade para desconstruir preconceitos e humanizar temas que tantas vezes são reduzidos a discursos políticos ou ideológicos. O objectivo desta peça é também que essas reflexões surjam de forma orgânica, quando alguém se revê numa história, se questiona ou é confrontado com uma realidade que nunca tinha considerado.
Que tipo de reação espera do público?
Esperamos que o público saia do teatro com perguntas e inquietações e a repensar a forma como os direitos da comunidade LGBTQIA+ são reconhecidos em Portugal e no mundo. Prefiro Não Dizer não pretende apontar culpados nem oferecer respostas fechadas; pretende abrir espaço para o diálogo. O teatro vive do encontro entre quem faz e quem vê, e é a partir dessa partilha que acreditamos que a transformação começa.
Que projectos tem a companhia para o futuro, particularmente no cruzamento entre arte e intervenção social?
Neste momento, o nosso foco está em Prefiro Não Dizer, que estará em cena de 6 a 23 de novembro. Este é mais um espetáculo inserido num ciclo de criação a quatro anos (2023-2026), apoiado pela Direcção-Geral das Artes no âmbito do Programa de Apoio Sustentado ao Chão de Oliva. No próximo ano, vamos estar dedicados ao tema da ecologia e alterações climáticas, também sob diferentes perspectivas. E, depois disso, temos já um novo projecto desenhado até 2030 que continua essa missão de cruzar a arte e a intervenção social e de nos fazer refletir através do teatro. Continuaremos comprometidos, pois, para nós, é essencial que o teatro continue a ser um espaço de pensamento crítico e de compromisso com o tempo presente. Queremos continuar a criar projectos que deem voz a temas urgentes, desde as questões de género e direitos humanos ou outros debates que também merecem visibilidade. Acreditamos que o teatro e a cultura são, e devem continuar a ser, formas de resistência, mas também de construção de empatia e de mudança.
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Entrevista de Daniel Santos Morais


