opinião

Eu fui à marcha de Viseu



Caminhar na rua e gritar que estou ali e que existo, poderia tratar-se um acto narcisista, qual figura que se afoga no seu próprio reflexo. Poderia ainda ser diagnosticado como um acto de loucura, que carece de internamento ou pelos medicação e acompanhamento. Contudo é apenas um acto ainda necessário, uma vez que existir não é um direito adquirido para todos. Vivemos tempos muito perigosos. Ao chegar ao Rossio, na minha mente desenhou-se matemática. Eramos poucos. Mas o que são muitos? Comparado com que medida? Da marcha de Lisboa onde desci a avenida de mão dada com o meu namorado? Com as primeiras marchas? Ou com o medo de sair à rua, receando as represálias do dia seguinte?

À medida que rasgávamos as ruas de um Viseu histórico, deparei-me com passeios vazios. “Sai do passeio e vem para o nosso meio”. Ecoava na voz de todos. Para quem? Descemos ruas vazias. Ruas paralelas às ruas das pessoas. Porquê? Podíamos marchar, mas sem atrapalhar, sem dar muito nas vistas, porque não damos jeito? Perguntei à Ana, que estava comigo, porquê? A Camara Municipal de Viseu permite a marcha e a que a nossa existência seja reconhecida apenas onde os passeios são pintados de vazio e falta de eco?

Junto da Sé algumas pessoas olhavam o enorme arco íris que erguíamos com orgulho nas mãos. Reconheci sorrisos. Ouvi na voz de uma senhora “vocês é que mudam o mundo”. Aquela frase ficou desenhada em mim. Apesar de sermos vistos por poucos, a vontade e a necessidade de mudar, de facto o mundo, vestia-nos a pele, sem nunca pormos em causa a nossa missão nesta tarde de 4 de Outubro de 2025.

Quando perguntei aos pés, que marchavam junto de irmãos da comunidade de todas as idades e cores, responderam-me que estávamos novamente no Rossio. Tínhamos regressado ao local de partida. Talvez de onde talvez, na verdade nunca tivéssemos saído, pois a sensação de casa habitava os nossos corpos. Mas a missão ainda não estava cumprida. Era ainda necessário cumprir as vozes.

Enquanto tentava concentrar-me nos discursos, outros momentos distraíram a minha mente. A poucos metros de mim, uma mão bate contra a própria cabeça, de uma cara chocada e reprovadora de um homem que já teria completado certamente os seus mais de 60 anos. Olhou. Virou as costas. E muito zangado, abandonou o recinto. Mas existem os mais atrevidos. Existem os que não vestem valores, nem princípios morais. Ou  pelo menos se recordem da palavra de respeito pelo outro, que outrora fez muito parte da sua geração, nascida nos anos 50. Ele atravessa as bandeiras. Ela, nervosa contínua a ler o manifesto. Ele passa rente ao microfone e profere um insulto. Pisa uma nova bandeira e desaparece calmamente na sua vida não atarefada, para se dar ao trabalho de tal atitude condenável. Porquê?

Percebi que, se mesmo durante uma marcha ou um manifesto, somos alvo de insulto ou discriminação, numa cidade do interior, quer na capital, ou seja onde for, ainda temos de ir gritar muitas vezes para a rua, que existimos e que estamos ali.

Nós não éramos poucos. Eramos unidos. Estávamos juntos. Reconhecíamos no rosto de cada um, a igualdade e a necessidade de dizermos: estamos aqui.

Peter Pina

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