(Crónica de um homem queer a caminho dos 50 anos)
Lembrar-se-á o leitor das minhas fortes convicções. Tenho várias. Algumas considero inabaláveis. Tal como a minha forte crença ou convicção de que não fui feito para amar. Não tenho jeito ou, pelo menos, convenci-me disso.
Mas a vida consegue trocar-nos as voltas e fazer cair, como um castelo de cartas, as certezas absolutas. E, de um momento para o outro, dei por mim aberto a poder amar. Curiosa a vida…
Ainda assim, com grandes mudanças vêm grandes surpresas. Sim, este homem queer a caminho dos 50 anos, conheceu alguém e, não querendo mentir, talvez me tenha apaixonado ou, pelo menos, deixado encantar. É maravilhoso e, como quase tudo na vida de um homem gay, é um enorme desafio. Pois, à medida que se faz caminho, há que ter atenção ao processo de cura em curso, tentar não repetir erros do passado.
Talvez já tenha dito nalguma das minhas crónicas, mas estou separado há muitos anos. Mais do que aqueles que o pudor me permite revelar. Foi uma relação conturbada. Atirei-me de cabeça – tendo já 30 anos , mas completamente impreparado – e, tendo tudo para correr mal, correu. Não há guias ou manuais que ensinem um homem a amar outro homem. Como tal, cometi todos os erros que podia ter cometido. Quando um dia, num acto de desespero ou sobrevivência, decidi acabar tudo, pois não aguentava mais, o meu mundo não ficou melhor. Para agravar, ao fim de pouco tempo do término, descobri ser seropositivo – mais uma lição, mais uma situação que a vida me obrigou a desconstruir e integrar na minha vivência. Foi uma relação que, aos poucos, dia a dia e silenciosamente, me foi matando. Costumo dizer que me destruiu e quebrou, por dentro e por fora. O que guardo de tudo isto? Não serão, certamente, saudades. Também já não guardo zanga ou revolta. Morri e ressuscitei um sem número de vezes. A única coisa que guardo de bom foi que do sofrimento nasceu um homem forte, resiliente e desconstruído.
Não há guias ou manuais que ensinem um homem a amar outro homem. Como tal, cometi todos os erros que podia ter cometido.
Mais revenons à nos moutons, que é como quem diz, voltemos à vaca fria. Uma paixão (ou uma abertura a) na meia idade é uma coisa maravilhosa e uma constante batalha – não no sentido bélico, nem me estou a queixar – mas vejo-me já numa fase da vida em que, como dizia o poeta “eu quero a sorte de um amor tranquilo, com sabor de fruta mordida” (Cazuza). Eu quero viver, quero ser feliz, sem a pressa da juventude, mas com a consciência de que o tempo escasseia. Após tantos anos de solidão auto imposta, procuro a magia do amor, mas sempre alerta, com medo de reproduzir erros ou padrões antigos. É uma luta – ainda que doce – em aproveitar quem está comigo no caminho e não focado na pressa da chegada.
Ainda que corra o erro de me repetir, afirmo que muitos dos que, como eu, cresceram nos anos 1980 e 1990, estamos quebrados. Somos da geração que lutou – e luta ainda hoje – para podermos amar sem medos. Mas, ninguém nos ensinou a amar. E por vezes, tudo isto, assusta. Que nunca nos tire, ainda assim, a capacidade de lutar. Sempre. E neste caso refiro-me concretamente a essa coisa que chamam de amor.
Esse fogo que arde sem sem ver é, estando eu a caminhar para os 50 anos, uma coisa maravilhosa. Até pode vir a não correr bem, mas isso é o que menos importa. Apenas peço a Deus – substitua-se aqui por outra entidade mais adequada, de acordo com as crenças de cada um – que sempre me dê a sorte duma mente crítica, que questiona, que se coloca em questão e que, acima de tudo, me permita mudar sempre que acho que o devo fazer.
Foto: https://depositphotos.com/pt
António S., um homem queer a caminho dos 50 anos


