opinião

Gayminários e a masculinidade tóxica do e no escutismo: o in nomine dei cisheteronormativo



In nomine dei…

Utilizar ( e recomendar) o livro de Brendo Silva,  A Vida Secreta dos Padres Gays: sexualidade e poder no coração da Igreja, como início do artigo, constitui um GPS extremamente importante para compreendermos o que Saramago chama do in nomine dei, utilizado pela ICAR para justificar, normalizar, e exequibilizar o injustificável….

In nomine dei, ou o em nome de deus, seja qual deles for, 4815 foram as vítimas de pedofilia contabilizadas em Portugal, no período entre 1950 e 2022, pelo relatório da Comissão Independente (CI) para o Estudo dos Abusos Sexuais de Crianças na Igreja Católica em Portugal, aquando das “sacratíssimas” Jornadas Mundiais da Juventude em 2023.

Os casos relatados ocorreram em “seminários, colégios internos e instituições de acolhimento, confessionários, sacristia e casas dos padres”, segundo coordenador da CI, Pedro Strecht, com particular predominância em Lisboa, Porto, Braga, Santarém e Leiria. Ou seja, 23 % dos casos ocorreram em seminários, 18,8% em igrejas, 14,3% em confessionários, 12,9% em casas paroquiais e 6,9% em escolas católicas, segundo Strecht. 

Ou seja, a Igreja Católica, hipocritamente, demite a pessoa se a orientação da mesma for a LGBTQIA+, como aconteceu com Krzysztof Charamsa, em 2015, mas transfere ou omite o agressor se o mesmo for abusador de crianças. 

Frédéric Martel, em No Armário do Vaticano (2019) e Emiliano Fittipaldi, em Luxúria (2017) sinalizam esta hipocrisia astronómica praticada por aqueles que eu chamo os “as ovelhas escolhidas dos adoradores da pomba comedora de virgens de 12 anos”. 

Brendo Silva, que vivenciou a pedofilia na primeira pessoa, mapeia também este paradoxo identitário da organização ICAR, na minha opinião, a maior instituição pedófila do planeta e a que domina a arma mais mortal já inventada pela Humanidade: a Bíblia. O autor supracitado afirma mesmo que “gayminários” é o apelido que os internos dão a estas instituições de ratazanas da Eucaristia (expressão minha). 

Quero com isto dizer que hastear o in nomine dei é, na minha opinião, a hipocrisia mais extremada para a normalização do injustificável e para associações infirmadas cientificadamente (homossexualidade e pedofilia). Foi verificado desde 2001 que mais de 60% dos padres abusadores de crianças são heterossexuais. É engraçado e um waking up, quando a realidade nos dá uma bofetada de luva branca….Inclusive, na Universidade onde estudei, amigos meus seminaristas relatavam inter pares situações idênticas às supramencionadas.

E onde ficam os Escuteiros no meio disto tudo? Falamos de uma instituição da ICAR que, in nomine dei, sob a insígnia do nome de deus, tem registado, só nos Estados Unidos, desde 1965, o que leva a falar-se numa “epidemia de pedofilia” dentro da instituição da Igreja. Em Portugal, temos casos documentados desde 1961 pelo Corpo Nacional de Escutas (CNE) e pela Comissão Independente (CI) para o Estudo dos Abusos Sexuais contra Crianças na Igreja Católica.

Ou seja, in nomine dei, vale tudo…

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Jorge Silva Pereira

3 Comentários

  • Ulisses

    Concordo totalmente contigo e com a forma como enquadras o tema. A referência ao in nomine dei é mesmo certeira para mostrar como, ao longo do tempo, a Igreja foi normalizando o injustificável para proteger o poder e não as vítimas.

    Obrigado por partilhares o texto e por abordares o assunto sem rodeios. É importante que estas coisas sejam ditas assim, de forma clara, para que não caiam no esquecimento nem no silêncio.
    Abraço ☺️

  • Junior

    Parabéns pelo texto!
    Muito importante trazeres esta reflexão a público. É fundamental questionarmos estas estruturas e abrirmos espaço para o diálogo.
    Precisamos de mais vozes a falar sobre isto com esta clareza. Continua o excelente trabalho!

  • Sónia

    Um texto forte, bem fundamentado e que não foge a temas difíceis. A forma como articula dados, referências bibliográficas e experiências relatadas ajuda a desmontar estigmas antigos e associações erradas que ainda persistem no discurso público. Concorde-se ou não com todas as posições, é inegável a importância de trazer este debate para o espaço público, sobretudo quando envolve instituições com enorme peso social e histórico. Textos assim obrigam à reflexão, ao questionamento e, acima de tudo, à responsabilidade coletiva perante realidades que durante demasiado tempo foram silenciadas.

    Bom trabalho!

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