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Heartstopper: também merecemos histórias com finais felizes

Heartstopper

Dois rapazes sentam-se lado a lado na sala de aula. Não podem ser mais diferentes. Nick é super popular e o melhor jogador da equipa de rugby da escola. Para Charlie, desde o seu coming out, a vida é um tormento de que ele procura refúgio fechando-se aos outros.

Começam a conversar e descobrem que se sentem bem quando estão juntos. De colegas a amigos, tornam-se inseparáveis, e logo, apaixonam-se. Mas como explicar aquela paixão a Nick, que nunca se sentira assim por outro rapaz, ou a Charlie, que não se acha dela merecedor? 

É uma breve sinopse de “Heartstopper”, série da Netflix estreada há algumas semanas. Nos episódios de 30 minutos em que acompanhamos a construção daquela relação não há grandes artifícios dramáticos nem aparato narrativo de telenovela. O fecho de cada episódio (salvo uma excepção, talvez) é mais promissor do que o anterior e a temporada encerra com um encantador final feliz. Essa inclinação para o happy ending, que não é tão comum como desejaríamos em filmes e séries LGBTI+, talvez explique a enorme popularidade da série.

Durante décadas, personagens queer eram enquadradas em obras de cinema ou televisão sob os signos da perversão, da violência ou da doença. Quase no início, no cinema da primeira metade do século XX, eram meros bonecos risíveis e sem identidade, que não acrescentavam a qualquer tipo de visibilidade. Depois, tinham já nome e biografia mas eram apresentados como anomalias, seres incapazes de convivência em sociedade e a quem estava sempre reservado um final destrutivo, frequentemente o suicídio. Depois de Stonewall, quando se começou a aceitar uma identidade gay, lésbica, trans, ainda assim o foco estava no sofrimento físico e psicológico, na solidão, na privação afectiva a que as personagens estavam condenadas e aos excessos a que recorriam para suportar a sua condição. 

Durante décadas, personagens queer eram enquadradas em obras de cinema ou televisão sob os signos da perversão, da violência ou da doença. ... Depois, tinham já nome e biografia mas eram apresentados como anomalias, seres incapazes de convivência em sociedade e a quem estava sempre reservado um final destrutivo, frequentemente o suicídio.

A fechar o século, a SIDA, em contramão com a esperança por dias melhores possibilitada pelos activismos, pela visibilidade, pelo Orgulho, inunda de morte as histórias e assombra-as com uma doença inexplicável que se assemelha a um castigo divino. Em décadas mais próximas de nós, as histórias de sofrimento têm sido hasteadas como bandeiras de protesto contra as injustiças de que a comunidade é alvo. São disso exemplo duas das melhores mini-séries que estrearam em streaming no ano passado: “It’s a Sin”, sobre os dias iniciais da pandemia em Inglaterra, e “Veneno”, um ícone trans da Espanha dos anos 1990. São testemunhos necessários e actuais, num presente ainda longe do ideal, que permitem o nosso “ajuste de contas” com o passado pela sua revelação e reflexão. Nunca serão demasiados.

As personagens reflectem o tempo e o espaço em que são criadas, como é natural. O seu preenchimento psicológico e social vem de fora dos ecrãs para dentro, e só se compreende nesse contexto. Um filme dos anos 1950 que mostrasse uma personagem LGBTI+ afectivamente completa e realizada seria algo tão extraordinário como inverosímil para o público. A série “Hollywood”, também da Netflix, é um notável exercício de intencional anacronismo que envereda por esse caminho e que só poderia ter sido criada por alguém do nosso tempo, um tempo em que esse tipo de desenlaces são não apenas concebíveis como realmente possíveis. Apesar disso, raramente os vemos em séries e filmes.

A segurança física e mental, o fim da discriminação, a igualdade de direitos, todas as vitórias e reivindicações dos activismos são condições colectivas essenciais para as nossas próprias conquistas individuais. Mas essas vitórias particulares, de alegria e realização pessoal, estão ainda pouco presentes na ficção audiovisual, e isso talvez contribua para fazer perdurar, entre nós, o sentimento de vidas inevitavelmente marcadas pela dor e pela tristeza. Histórias que revelam que é possível romper com essa sina são uma enorme fonte de inspiração e de força transformadora, que não podemos descartar.

Histórias que revelam que é possível romper com essa sina são uma enorme fonte de inspiração e de força transformadora, que não podemos descartar.

Numa série aparentemente ligeira como este “Heartstopper” surge aquilo que até há tão pouco tempo nos era vedado, na ficção e fora dela: a possibilidade de uma vida feliz enquanto pessoas LGBTI+. Tão simples como radical. Em verdade, não é essa a razão última de todas as marchas e manifestos em que nos temos envolvido desde há tantos anos? O recurso ao happy ending será um gesto subversivo enquanto nos convencermos de que dele não somos merecedores, ou não tanto como as pessoas de fora da comunidade.

 

Pedro Leitão