Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]

Dezanove
A Saber

As notícias de Portugal e do Mundo

A Fazer

Boas ideias para dentro e fora de casa

A Cuidar

As melhores dicas para uma vida ‘cool’ e saudável

A Ver

As imagens e os vídeos do momento

Praia 19

Nem na mata se encontram histórias assim

"Hoje, infelizmente, o sucessor de Pedro manteve uma porta fechada"

Carlos Reis.png

As palavras do Papa Francisco mudaram efectivamente o tom da Igreja em relação às pessoas homossexuais. A sua abertura retórica às uniões de pessoas do mesmo sexo em termos civis, apelando até a que os estados que legislassem no sentido de garantir direitos civis aos homossexuais (questões sucessórias, e outras) e que não houvesse discriminação bem como o facto de, enquanto Pastor Universal, se recusar proclamar julgamentos sobre a natureza destas pessoas (“quem somos nós para julgar”) foram uma porta de esperança que se entreabriu para milhões de católicos excomungados, marginalizados, e reprimidos, em todo o mundo.

Mas todas estas palavras foram objectivamente muito pouco. Dolorosamente pouco para muitos.

E a verdade é que embora se tenha moderado um tanto ou quanto o tom homofóbico no seio da hierarquia, o facto é que nada de real mudou nas leis da Igreja Católica.

Não muda sobretudo a relação traumática e doentia que a Igreja tem acerca do prazer e do corpo. Uma Igreja que vê na carne a expressão do mal.

Assim, e apesar de todas as declarações de abertura do Papa a verdade é imóvel. Pétrea.

Não mudou o número 2357 do Catecismo da Igreja Católica que decreta que as relações entre homens ou mulheres, que experimentam uma atracção sexual exclusiva ou predominante para pessoas do mesmo sexo são “actos intrinsecamente desordenados” e “são contrários à lei natural, fecham o acto sexual ao dom da vida, não procedem duma verdadeira complementaridade afectiva sexual, não podem, em caso algum, ser aprovados”.

Não muda o facto de a Igreja se continuar a justificar na sua própria Tradição como fonte de Direito Canónico para decretar que tantas e tantas relações de amor são contrárias à “lei natural” e para estabelecer para milhões de pessoas um estatuto de inferioridade perene. Isto apesar de não se encontrar a este respeito uma única palavra saída da boca de Jesus nos Evangelhos.

E hoje a Santa Sé mantém o ferrolho bem fechado na porta. Ainda hoje fechou a porta da Esperança na cara de milhões.

Ainda hoje, num Responsum ad dubium (resposta a uma questão formal colocada à Igreja) aprovado pelo Papa, a Igreja volta a declarar:

“Não é lícito conceder uma bênção a relações, ou mesmo a parcerias estáveis, que implicam uma prática sexual fora do matrimónio (ou seja, fora da união indissolúvel de um homem e uma mulher, aberta por si à transmissão da vida), como é o caso das uniões entre pessoas do mesmo sexo.”

É certo que esta declaração é depois adocicada com a consolação de dizer que “em tais caminhos, a escuta da Palavra de Deus, a oração, a participação nas acções litúrgicas eclesiais e o exercício da caridade podem desempenhar um papel importante em vista de sustentar o empenho de ler a própria história e de aderir com liberdade e responsabilidade ao próprio chamado baptismal, porque ‘Deus ama cada pessoa e o mesmo faz a Igreja’ ”.

No fundo é o mesmo bordão de apoio: a Igreja não abençoa nem pode abençoar o pecado mas abençoa o ser humano pecador.

E é isto que simplesmente não aceito e me recuso a aceitar.

Para o mal. e para o bem, foi na Igreja, e numa família católica, e numa comunidade católica, que nasci, que fui criado, que fui ensinado e formado. E também onde me empenhei muito na adolescência e no início da minha juventude. A Igreja foi para mim "mater et magistra". Mãe e Professora. E isto marca, marcará sempre. Serei sempre católico, e parte essencial da minha visão do mundo radica na minha fé e na forma como me foi transmitida.

Mas entretanto cresci, tornei-me homem e hoje entendo ser absolutamente inaceitável a ideia de ter de ser infeliz para poder comungar.

Se eu recuso fazer mal aos outros, e se eu tenho o mandamento moral de praticar o bem, então essa obrigação não me pode excluir a mim próprio. Se não faço mal a ninguém então não me irei fazer mal a mim. Se eu quero que os outros sejam felizes por maioria de razão não me irei privar também da minha própria felicidade, ou pelo menos, da esperança de a ter.

Por isso a minha relação com a Igreja está resolvida: vou à missa, escolhendo no entanto um safe space onde sei que eu não serei humilhado nem atacado (nem os meus irmãos) pela homilia do celebrante. Na missa continuo a rezar, a pedir a Deus, ofereço a esmola, e saúdo os meus irmãos se eles me saudarem. Mas sei que estou fora da comunhão. Sou pródigo. Por isso, na missa, sento-me sempre discretamente nas filas de trás ou opto por ficar em pé. Tal como um convidado na casa dos outros.

Estou fora da comunhão: não comungo, porque não me confesso. Não me confesso porque não me arrependo.

E não me arrependo daquilo que entendo, na minha consciência, não ser pecado nem violar os ensinamentos de Jesus.

Estou acomodado assim.

Custou-me durante muitos anos, e houve momentos maus na minha adolescência e juventude, mas já acabou: Jesus nunca saiu do meu coração, e continuo a acreditar no mistério da Santíssima Trindade e a pedir a protecção de Nossa Senhora e dos Santos.

Respeito e admiro o Papa, que para mim é o sucessor de Pedro. Mas não vou mutilar a minha personalidade.

E se sou um filho enjeitado da Igreja, pelo contrário o meu coração diz-me que sou um filho amado por Deus.

Mas nem todos os católicos são como eu. Nem todos resolveram sem dor a sua relação com a Igreja: é horrível e não tenho palavras para descrever o sofrimento psicológico e emocional de alguns meus amigos que têm de levar vidas duplas, ou que se viram afastados da sua família e da sua rede de segurança.

Por isso observo sempre com tristeza o falhanço da Igreja em abrir as portas a todos os seus filhos. Não há maior dor para um católico do que ser-lhe negada a comunhão. O catecismo moral da Igreja é a antítese do que Jesus praticou: é uma arma dos fariseus contra os desvalidos, contra os carentes de amor e de conforto. É próprio de uma instituição patriarcal, tridentina e tomista.

É pecado uma mulher tomar a pílula? Tem a Igreja de fechar definitivamente as suas portas às mulheres que já passaram pela dor de interromperem uma vida potencial independentemente das circunstâncias que ditaram esse acto? Vai a Igreja continuar a insistir na violência horrível de negar a comunhão a mulheres e homens que se casaram de novo, refazendo a sua vida? Vai a Igreja continuar a negar o baptismo a crianças nascidas no seio de uniões de facto ou que vivem em famílias com dois pais ou duas mães? Vai a Igreja continuar a rebaixar os homossexuais qualificando as suas relações de vida como "intrinsecamente desordenadas"? Vai a Igreja negar os últimos sacramentos a quem sempre fez o bem, só como forma de punir quem amou?

Irá a Igreja insistir nesta visão fria, rigorista, sádica, com as pessoas?

No primeiro dos Concílios, em Jerusalém, Jesus tinha partido para o céu cerca de 20 anos antes. De um lado estava São Paulo, e do outro estava São Tiago, o Justo. Com a decisão firme de São Pedro, o debate pendeu para o lado de São Paulo: a Igreja abriu-se ao mundo. Seriam aceites os gentios que não eram judeus, e deixaria de ser exigida a circuncisão aos novos conversos.

Mas hoje, infelizmente, o sucessor de Pedro manteve uma porta fechada.

Perdoa-lhes Pai, porque eles não sabem o que fazem.

 

Carlos Reis

3 comentários

Comentar