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Identidades: Drag e não binarismo

mary poppers

O meu nome é João Caldas, conhecido por ser um defensor dos direitos das pessoas que usam drogas e experiência na área de redução de danos. Mas também sou, e provavelmente muito mais conhecido, como o meu alter ego, Mary Poppers. Uma drag de barba, tanto divertida como agressiva, sex and body positive, com uma postura política fincada na existência como resistência. E hoje falo convosco sobre tudo isto, mas trago para a mesa um assunto que me tem inundado a cabeça, sobre o qual ainda estou a criar pensamentos e diálogos, criados muitas vezes pelo João e pela Mary; o não binarismo como identidade de género. 

Encheu-me a cabeça esta ideia das identidades. O João enquanto indivíduo, o João como activista, o João como performer drag e o João enquanto pessoa que se identifica como pessoa não binárie, tendo este último assunto ainda não ter tido muita relevância pública, nem sequer entre amigos e pessoas mais próximas da minha pessoa. 

É interessante pensar que, sendo tão gritante enquanto activista e artista, estou constantemente a dialogar e a usar estas identidades como bandeiras hasteadas a todo o vapor. Incluindo, já com uma intersecção de identidades, falei na última Marcha do orgulho LGBTQIA+ sobre chemsex e direitos de pessoas que usam drogas, em drag. Um momento bastante importante para cimentar e, usando novamente o termo, dialogar sobre estes temas. 

Tudo bem resolvido, identidades fixas e determinadas. Mas há partes de nós que não estão tão bem delineadas, até mesmo pensadas e trabalhadas. E aqui cai-me um assunto cujo qual mal falo, e sobre o qual me senti muito atormentado até agora. Género. Qual é o meu género? 

Bem, até aos 20 e poucos anos, houve sempre uma identificação com o género masculino. Depois disso, digo que me identificava com o género “trapalhão”. Uma negação de um questionamento latente, mas que é quase um tabu interno. Mas existe esta questão. Será que não sou um homem? Mas também não sou mulher. Mas também não sou… não sou. Resolvido. 

Mas aos 26 anos, surge a Mary. Uma identidade mais próxima do feminino, embora nunca o queira ser por completo. Há uma barba. Há um peito peludo, onde muitas vezes literalmente se agrafam objectos e se usa a dor como veículo de comunicação e de criação de emoções. Uma lufada de ar fresco. Finalmente, existe uma maneira de explorar o género em que está tudo mais certo. Uma quase mulher, feminina e livremente extravagante, e um quase homem, barbudo e agressivo.

E aqui surge novamente a pergunta. Homem, ou mulher? Porque temos sempre a tentativa de nos encaixar em qualquer coisa, e quanto mais simples isso for, mais fácil é para os outros nos identificarem com algo. Mas levantando-se a questão, a resposta não existe. Surge o não binarismo, a sussurrar na parte de trás da cabeça. Isto faz algum sentido.

O primeiro momento em que me digo não binárie, falo sobre isso com um amigo. Pontaria. Primeiro discurso, oiço uma resposta parecida com: não estás preparado para sequer abrir a boca sobre ser não binárie. Portanto fica pela calada. Na calada fiquei. Com novamente uma trapalhada de géneros. E passam-se anos, sem pensar nesta trapalhada. 

Mas nos últimos tempos, há algo que me magoa e que incomoda, que é ser chamado de homem. Em muitas situações me dizem “és tão masculino!”, reagindo eu com alergia a esta identificação e percepção dos outros numa imagem que não quero que seja a minha. Aqui cimenta-se esta questão: realmente, ser não binárie faz me todo o sentido. Encaixa. Traz me conforto. 

Mas, como o meu amigo me disse, pensa bem sobre o assunto e pensa que não é de um dia para o outro que uma pessoa sai do armário como não binárie. Especialmente uma pessoa como eu que tem, o que eu penso ser, o maior privilégio de género que alguém pode dizer que isto existe. Eu passo por homem. Eu não baralho as pessoas, não as faço questionar nada na minha aparência do dia a dia. Mas… não sou um homem. 

E hoje, outros amigos, noutros momentos do meu questionamento, me dizem: mas tu não estás super bem resolvido enquanto pessoa não binárie? E eu respondo qual quê! 

Porquê falar disto tudo, e porquê querer fazê-lo de uma maneira pública e documentada? Porque acho que estou, novamente, a sair de mais um armário. Acho que hoje posso dizer, com mais certeza e com esse pensamento por trás, que me identifico como pessoa não binárie. E este momento serve para continuar a pensar sobre esta ponte entre géneros, pensar sobre identidades e pensar que, seja lá o que for que os outros percebem sobre mim, o que me importa agora é aceitar que este termo se adequa e que alinha com a minha identidade. 

Sai do armário? Talvez. Há armário? Talvez. Sou um homem, sou uma mulher. Talvez. Talvez seja um trapalhão na mesma. Mas que o seja.

 

João Caldas / Mary Poppers