Vivemos num tempo onde falar apenas de “LGBTQIA+” já não basta. As experiências dentro da nossa comunidade são profundamente diversas — e ignorar essa pluralidade é perpetuar silêncios. Ser uma pessoa queer negra, migrante, pobre, com deficiência ou atravessada por mais do que uma dessas identidades não é o mesmo que ser uma pessoa branca, portuguesa, de classe média e sem deficiência. As opressões cruzam-se, somam-se, pesam de forma diferente.
Como psicóloga e mulher, não posso deixar de observar — e escutar — as feridas abertas pelo racismo, classismo e capacitismo dentro da nossa própria comunidade. E como cidadã, preocupo-me com o país que estamos a construir.
Portugal 2023–2024: uma mudança de clima político e social
Nestes últimos dois anos, assistimos a uma viragem preocupante no discurso público. O crescimento da extrema-direita em Portugal, com mensagens abertamente anti-imigração, anti-direitos das mulheres e anti-LGBTQIA+, normalizou o ódio no espaço político. Ideias que há alguns anos seriam marginalizadas em debates de café agora ganham palcos institucionais e eco nas redes sociais.
O aumento dos crimes de ódio, tanto racistas como homofóbicos, tem sido denunciado por associações como a ILGA e a SOS Racismo. Pessoas negras e migrantes relatam não só microagressões diárias, mas também exclusão estrutural em áreas como habitação, acesso ao trabalho, saúde e justiça. A somar, testemunhámos retrocessos no acolhimento de refugiados e migrantes — particularmente aqueles que fogem de países onde ser LGBTQIA+ é crime.
E dentro da própria comunidade queer, persistem desigualdades gritantes. Quantas vezes os eventos ou espaços “LGBTQIA+” continuam a ser ocupados por corpos brancos, magros, cis e normativos? Quantas vozes negras, trans, com deficiência, de origens humildes, são ignoradas nas decisões e nos microfones?
A realidade interseccional: quando a exclusão vem de vários lados
A interseccionalidade, conceito introduzido por Kimberlé Crenshaw, ajuda-nos a compreender como diferentes formas de discriminação se entrelaçam. Não vivemos as opressões de forma separada. Uma mulher trans negra e migrante em Portugal, por exemplo, enfrenta simultaneamente transfobia, racismo, xenofobia e sexismo — muitas vezes inclusive dentro de espaços que deviam ser de acolhimento.
Estas experiências múltiplas impactam profundamente a saúde mental: ansiedade, stress pós-traumático, depressão, insónia, dificuldades de autoimagem e relações. E não, isto não é “fragilidade emocional” — é um cansaço de existir num mundo que nos diz repetidamente que não pertencemos.
Como psicóloga, escuto relatos (quer vindos de quem atendo, quer partilhados em grupos de colegas e redes de activistas) de jovens LGBTQIA+ negros que não se vêem representados nem nas terapias, nem nos movimentos activistas. Pessoas com deficiência que se sentem invisíveis mesmo dentro dos eventos do orgulho. Gays pobres que têm de esconder a orientação sexual no bairro por medo de agressões. Migrantes queer que enfrentam violência institucional — e ainda assim são julgados quando pedem apoio emocional.
O que precisamos de fazer — enquanto sociedade e comunidade
É urgente falar de justiça social dentro da comunidade LGBTQIA+. Não basta lutar pelo casamento ou pela adopção se continuarmos a excluir os nossos corpos mais vulneráveis.
Precisamos:
- De mais representatividade real — e não só performativa — nos movimentos e organizações queer.
- De acesso igualitário a cuidados de saúde física e mental que respeitem as nossas identidades, línguas, histórias.
- De espaços seguros verdadeiramente inclusivos — não só para quem está “na moda” ou “vende bem”.
- De políticas públicas que enfrentem as desigualdades estruturais, desde o racismo institucional ao desemprego entre migrantes.
- E de parar de olhar para a pobreza como um “problema dos outros”. O classismo também atravessa o activismo.
Falamos disto em Portugal? A urgência de tornar visível o invisível
Em Portugal, ainda existe um silêncio incómodo sobre a interseccionalidade dentro dos espaços de saúde mental. Embora a literatura académica e algumas associações LGBTQIA+ já tenham começado a abordar o tema, na prática clínica e nos debates públicos continuamos a ouvir falar sobretudo de homofobia ou transfobia isoladamente — quase nunca de como estas se cruzam com o racismo, o classismo ou o capacitismo.
Porquê quebrar este silêncio?
- Visibilidade gera pertença. Quando reconhecemos as múltiplas camadas de opressão, mostramos que todas as vivências importam.
- Diagnóstico completo, intervenção eficaz. Uma pessoa negra e queer não experimenta o stress pós-traumático da mesma forma que uma pessoa branca queer. Ignorar o racismo interno na comunidade é um erro que compromete o bem-estar.
- Políticas de saúde mental mais inclusivas. Sem dados e relatos interseccionais, continuaremos a desenhar programas e serviços que só servem parte de nós.
Para terminar: o futuro que queremos construir
Portugal não pode continuar a fingir que é um país sem racismo, sem homofobia, sem desigualdades gritantes. Não basta termos leis bonitas se a prática continua a ser excludente.
A interseccionalidade não é só um conceito bonito para usar em conferências — é uma lente para transformar a forma como olhamos, sentimos e lutamos por justiça. Precisamos de escutar mais quem está nas margens, não para os salvar, mas para aprender. Para reconstruir um movimento LGBTQIA+ mais justo, mais plural, mais verdadeiro.
Porque liberdade para uns não é liberdade para todos. E ninguém fica para trás — ou não devia ficar.
Letícia David, Psicóloga



Um Comentário
Jorge Silva Pereira Pereira
A expressão “é um cansaço de existir num mundo que nos diz repetidamente que não pertencemos” traduz a imperatividade da interseccionalidade trabalhada no corpus do texto.
Obrigado pelo waking up, Letícia.
Jorge