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"It's a Sin": O pecado da vergonha

Manuel Rito

Neste mês tão especial para alguns e tão mal amado por outros, decidi não voltar a escrever o que aqui bem dentro da alma se fala, mas aproveitar para através da pesquisa e do conhecimento, ajudar a que todos possamos entender um pouco mais do mundo à nossa volta.

Poderia voltar a escrever 1000 palavras - como o fiz há exactamente um ano - mas as reacções não iriam ser diferentes: continuaríamos a ver os mesmo discursos estandardizados de que o Pride é uma ideologia vendida pela esquerda para destruir a família tradicional.
Que não é necessária e que serve apenas um propósito de chocar ou transpor as excentricidades de cada um, como se essas mesmas excentricidades fossem maléficas para um bem comum. A única malícia, penso eu, é aquela que existe nos olhos de quem a despreza e a odeia.

Por isso, decidi falar de uma série que me marcou, talvez porque nos faz voltar a anos atrás onde o mundo não era o que vivemos hoje.
Uma altura onde num crescimento de uma pandemia global, as vozes não se fizeram ouvir como a que ouvimos hoje em dia.
Uma pandemia que se deixou avançar num plano certeiro de alguns governos de deixar eliminar uma comunidade altamente desprezada e condenada até então.
Um retrato verídico da década de 80 que nos transpõe as feridas emocionais de um grupo de jovens que ao se deparar com a pandemia do VIH nos dá a visão clara de retratos familiares de quem, ao ver os seus filhos morrer, os deixou de mão solta.
Pais que escondem os seus filhos, deixando-os morrer sozinhos numa profunda angústia por uma doença que desconheciam e uma sexualidade que não era compreendida e bastante apontada pela comunidade em geral.

A angústia corre-nos o sangue quando vemos cada um daqueles seres humanos sozinhos nas camas dos hospitais, sem aquele último abraço de familiares que os acusavam de estarem a morrer por culpa própria, pela sexualidade que quiseram viver, enchendo-os de vergonha, quando estavam tão longe de entender que não se tratava de escolha.
Mas de uma condição.
Levaram-se anos até que a comunidade internacional começasse a olhar para o caso da pandemia do VIH, numa tentativa de deixar para trás uma comunidade negligenciada e visivelmente desprezada por todos.

Nos EUA, quando já existiam tratamentos disponíveis na Europa, a permissão da sua utilização em território americano demorou anos a ser legalizado.
Há quem diga ainda hoje que foi uma tentativa do governo americano de tentar aproveitar o vírus para acabar com uma comunidade até então escondida nas suas casas, nos seus bares e nos lugares onde tinha medo.
Que nunca esqueçamos que a homossexualidade já foi crime em Portugal e continua a ser em mais de 70 países.
Foi nesses mesmos anos, que os grandes movimentos se ergueram numa necessidade de justiça atroz.

O esforço por um mundo melhor não se faz só nas quatro paredes. Deve ser exposta.
A luta pela igualdade não se faz escondida em casa, mas na rua.
Se o mundo mudou hoje para uma espaço mais justo devemos a quem na rua nunca se cansou de marchar e lutar: Martin Luther King, Rosa Parks, Harvey Milk ou Marsha P. Johnson (pesquisem mais sobre os Stonewall Riots).

A luta pela igualdade não se faz escondida em casa, mas na rua.
Se o mundo mudou hoje para uma espaço mais justo devemos a quem na rua nunca se cansou de marchar e lutar: Martin Luther King, Rosa Parks, Harvey Milk ou Marsha P. Johnson (pesquisem mais sobre os Stonewall Riots).

 

A luta pela igualdade não se faz escondida em casa, mas na rua.


É da leitura, da descoberta, do querer saber mais que chegamos ao porquê das coisas.
E a empatia nasce subtilmente em nós.

"It's a Sin" pode ser o início dessa mesma descoberta.
Mais um pequeno passo para entendermos que as cores, que as excentricidades são a verdade de cada um e essa verdade é o melhor que temos de cada um de nós.
Sermos o que efectivamente somos, sem magoar ou ferir alguém, é o maior acto de coragem que existe e é o maior testemunho que deixamos ao mundo.
Deixo-vos com uma cena da série, que espalha muito esta luta: a de que na vergonha que sentimos que é determinada pelo que nos rodeia, vamos lentamente nos matando e aniquilando.

Em certa altura, uma das personagens principais diz a uma mãe que proibiu o seu filho de ver os seus amigos nas últimas horas da sua morte: "That 's what shame does. It makes him think he deserves it. The hospitals are full of men who think they deserve it. They are dying and a little bit of them thinks, yes, this is right. I brought this on myself, it's my fault, because the sex that i love is killing me. So that's what happened in your house. He died because of you. They all died because of you."
Não deixemos ninguém morrer numa tentativa de carregar nela uma vergonha que não deve ter.

Que a possamos encher de orgulho: das suas condições, limitações e das suas verdades.
Essa tem de ser a promessa.
Para este mês.
E para todos os dias.

 

Manuel Rito
Global Marketing Project Manager no Selina

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