Júlia Mendes Pereira é a primeira mulher transgénero a candidatar-se a umas eleições autárquicas em Portugal. A activista e dirigente do Bloco de Esquerda lidera a candidatura deste partido à Câmara Municipal do Entroncamento, numa corrida que representa não só uma disputa política, mas também um marco de visibilidade e representatividade.
Uma candidatura de coragem contra a extrema-direita
Aos 35 anos, com raízes em Lisboa mas a residir no Entroncamento, Júlia Pereira afirma que está “a caminhar sem medo” numa conjuntura marcada pelo crescimento da extrema-direita. “É um combate com visibilidade, mas também com risco”, referiu, alertando para a importância de travar discursos discriminatórios que têm ganho espaço em vários municípios e no plano nacional.
A candidatura pretende resgatar a presença autárquica do Bloco de Esquerda no Entroncamento, onde o partido manteve um vereador entre 2001 e 2021. Júlia destaca o simbolismo de voltar a eleger representantes bloquistas locais para “servir quem mais precisa” e lutar contra desigualdades profundas.
Foi precisamente no Entroncamento que nas últimas eleições autárquicas o Chega elegeu Luís Forinho, que publicamente assumiu ser homofóbico. O dirigente entretanto desfiliou-se do partido de André Ventura, mas mantêm-se como independente e tem usado indumentárias do movimento nacionalista grupo 1143. O caso foi denunciado pelo autarca do PS, Jorge Faria, e encontra-se no Ministério Público.
Representatividade trans na política local e nacional
Ao ser a primeira mulher transgénero a concorrer a uma câmara municipal, Júlia Pereira assume uma responsabilidade histórica. “É preciso quebrar barreiras, e ocupar este espaço é uma forma de dizer às pessoas trans que também pertencem à política e ao poder local”, afirmou.
A candidatura é composta por nomes ligados à cultura e ao activismo LGBTQIA+: Gonçalo Serras (músico), Rita Marçal (estudante) e Santiago Mbanda Lima (activista intersexo e antirracista), que lidera a lista à Assembleia Municipal.
Mas esta não é a primeira vez que Júlia Mendes Pereira é pioneira na visibilidade e na política. Em 2015, a activista concorreu a deputada.
Percurso político e activista
Licenciada em Estudos Portugueses e Brasileiros pela Universidade de Lisboa e actualmente mestranda, Júlia Pereira tem um histórico consistente de ativismo:
- Coordenou o GRIT – Grupo de Reflexão e Intervenção sobre Transexualidade da ILGA Portugal em 2009;
- Interveio na primeira audição parlamentar sobre identidade de género em 2011;
- Tornou-se em 2014 a primeira dirigente trans de um partido político em Portugal, eleita para a Mesa Nacional do Bloco de Esquerda;
- Em 2015 foi a primeira mulher trans a candidatar-se à Assembleia da República; no mesmo ano foi distinguida pelo site dezanove.pt como Activista do Ano;
- Participou activamente na campanha pela autodeterminação de género (2016) e na revisão da Lei da Identidade de Género (2018).
- É uma destacada activista e dirigente da API – Ação Pela Identidade, associação que ajudou a fundar.
“As pessoas trans não estão a ser respeitadas”
No seu percurso Júlia Pereira destacou por múltiplas vezes os obstáculos enfrentados pela população trans em Portugal, como nesta entrevista concedida ao portal dezanove.pt:
Uma candidatura transformadora
A presença de Júlia Pereira nas autárquicas de 2025 é mais do que um acto político: é uma afirmação de identidade, um desafio às normas estabelecidas e uma oportunidade para tornar as autarquias mais inclusivas e representativas.
“A política é um lugar que também nos pertence. E estamos aqui para provar isso.”
As Eleições Autárquicas realizam-se a 12 de Outubro.
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Fontes: SIC Notícias, esQrever, dezanove.pt, O Mirante, Wikipédia e Diário de Notícias


