Estamos em 2016, isto deveria significar que progressos civilizacionais aconteceram. Li e reli notícias, escrevi uma, vi vídeos, li crónicas e comentários, mas ainda não sei bem o que penso do que aconteceu em Orlando, do que está a acontecer no mundo, connosco. Desta coisa de matar porque alguém é, age, pensa e sente diferente de nós. Não sei porque não percebo. Já tentei fazer o exercício de me colocar nos pés de um agressor, não fez sentido.
Hoje não me cruzei com ninguém igual a mim na rua, no autocarro nem no trabalho. Ouso arriscar que tínhamos todos pensamentos, tons de pele, roupas e, quem sabe, impressões digitais diferentes. Não senti que tinha de violar o espaço de ninguém, apontar um dedo, e dizer “essa cor de pele não serve, fica-te melhor o tom acima”. Não me diz respeito. Não tive nada que ver com o facto ter olhos castanhos, quanto mais com os olhos do vizinho. A maior parte das nossas caraterísticas transcendem-nos. Sim, tomamos decisões aqui e ali, mas para nós, não temos de o fazer pelos outros. Quanto mais apontar uma arma! Puxar o gatilho! Tirar uma vida que não é nossa!
De tudo para o que olhei, há algo que me persegue continuamente, ver os SMS que alguém no clube Pulse trocou com a mãe, depois de lhe dizer que a amava, para lhe dizer que ia morrer. Nem teve a oportunidade de se despedir. A imagem que me vem à cabeça é poderosa, mais forte do que o miúdo que apareceu morto na costa de Kos. Arrepia-me. Neste lugar consigo colocar-me. Ver-me obrigado a abandonar a vida, o que amo e quem amo porque alguém prefere odiar, sem dizer adeus. Dos medos que me restam, esse é um.
Disse que era Charlie, mas não era, era apenas pela liberdade de expressão. Hoje escrevo que, para além de “ser” olhos castanhos, sou gay – sou mesmo. Ser gay, para alguns é algo de aberrante, mas é só gostar de pessoas mais parecidas comigo. Também demorei a aceitar a simplicidade disto. Para além do que prefiro, sou tantas mais coisas e quero sê-las todas, sem volta e meia sentir necessidade de dizer que as sou porque mataram alguém por ser. Não quero amanhã dizer que sou Lisboa. Quero que sejam e deixem ser tudo, desde que isso não interfira com o bem estar e a Vida de outros.
Não têm de dizer que são gays, não têm de ser nada para além do que são, mas a verdade é que, hoje, manter uma hashtag nos trending topics é manter um assunto a ser discutido. Já que o massacre não foi mais importante do que futebol nas capas dos jornais que, pelo menos, seja debatido.
Leonardo Rodrigues, autor do blog “Leonismos“.



3 Comentários
Francisco
Sou um homem desencantado e sem grande fé na Humanidade. Assumo. Aprendi a reconhecer a animalidade instintiva do bicho Homem. Mas há momentos de desespero em que, como diz Christopher Hitchens em “deus não é grande” (recomendo vivamente a leitura), chego a pensar se, a partir dos padrões de comportamento humano observáveis, não será legítimo inferir um desígnio que fez deste planeta, sem que o saibamos, uma colónia prisional e para doentes mentais, uma espécie de caixote de lixo usado por civilizações longínquas e superiores. É também no seu livro que Hitchens lembra que é um facto da natureza que a espécie humana é, em termos biológicos, apenas parcialmente racional; que “a evolução mostrou que os nossos lobos pré-frontais são demasiado pequenos, as nossas glândulas suprarrenais são demasiado grandes e os nossos órgãos reprodutores foram, aparentemente, concebidos por uma comissão; uma receita que, sozinha ou combinada, dá origem, muito provavelmente, a alguma infelicidade e distúrbio.”
Anónimo
Vamos simplificar. O inergumeno que cometeu este acto era um prostituto que foi chutado. Simples sem histórias sem manias de persiguicão
Anónimo
Olha o straightsplaining fresquinho.