Portugal recebe Liniker em dose dupla: no dia 5 de Junho de 2026, às 22h00, no Coliseu dos Recreios, em Lisboa, e no dia seguinte, 6 de Junho, no North Festival, na Cidade Desportiva da Maia. Não se trata de uma simples passagem por Portugal. São duas apresentações do espectáculo de CAJU na íntegra, num momento em que a artista brasileira encerra uma das eras mais fortes, belas e politicamente luminosas da música brasileira recente.
CAJU é mais do que um disco. É corpo, voz, pele, desejo, memória, comunidade e futuro. É música brasileira feita com sofisticação, mas sem perder o chão. Liniker canta a partir de si, mas nunca apenas para si. A sua poética atravessa o soul, a MPB, o samba, o pop, o amor e a ferida. E, ao fazê-lo, constrói um espaço onde o afecto também é uma forma de resistência.
Depois de se afirmar internacionalmente, com passagens por palcos como o Roskilde Festival e o Montreux Jazz Festival, Liniker chega a Portugal numa fase de consagração. Foi a artista brasileira mais nomeada aos Latin Grammy Awards 2025, com sete nomeações, incluindo Álbum do Ano por CAJU, e venceu três categorias. Mas a força de Liniker não cabe apenas nos prémios. Está na presença. Está no modo como transforma o palco num território de existência.

Quando lhe perguntei como olhava para os retrocessos nos direitos de género em Portugal, Liniker respondeu sem ceder ao desalento:
“A grande dificuldade tem sido seguir em frente, adiante. Mas, ao mesmo tempo, vejo pessoas na cultura e na política, vozes activas que proclamam não só a nossa protecção, mas o nosso direito de viver enquanto seres que merecem respeito e dignidade.”
A frase é central. Liniker não ignora o avanço das forças conservadoras, nem a violência simbólica que tenta empurrar corpos dissidentes para a margem. Mas também não lhes concede a vitória. Há, na sua resposta, uma ética da continuidade: seguir, cantar, aparecer, existir.
A política de Liniker não precisa de se anunciar como panfleto. Está no corpo que chega, na voz que ocupa, na artista que atravessa fronteiras, públicos e línguas. Como afirmou:
“Dá-me vontade de ser uma artista que roda o Brasil falando sobre afecto e que vai a outros lugares do mundo também falando sobre política, sem falar necessariamente de partidos, mas sendo um corpo político que existe nesta conjuntura.”
É talvez aqui que Liniker se torna incontornável. Porque sabe que, antes de qualquer discurso, o seu corpo já diz. A sua presença já interpela. A sua música já desloca o olhar.
“A partir do momento em que você olha para o meu corpo, os meus recortes e as minhas lutas já estão mais do que nítidos.”
CAJU nasce desse lugar: da vida que se escreve para não ser apagada. Quando lhe perguntei de que forma a sua poesia podia ajudar a construir novas narrativas, novos imaginários e espaços seguros, Liniker respondeu com uma clareza desarmante:
“O que eu escrevo fala sobre o que eu vivo. É a melhor forma de provar a minha existência no mundo e para quem tenta diminuir essa possibilidade.”
Esta é uma das grandes forças do seu trabalho. Liniker não pede autorização para existir. Canta. E, ao cantar, prova que a existência pode ser luminosa mesmo quando nasce sob ameaça. A sua obra é íntima, mas não fechada; autobiográfica, mas profundamente colectiva. Fala de uma vida concreta e, por isso mesmo, abre caminho para muitas outras vidas.
“Por mais que tentem apagar o tempo inteiro o que a gente é, vocês não podem negar que o que eu escrevo e o que eu faço não faça com que se sintam atravessados positivamente.”
A palavra “atravessados” diz quase tudo. Liniker atravessa. Atravessa bolhas, públicos, países, preconceitos, expectativas. O último disco furou fronteiras dentro e fora da sua comunidade, levando a sua música a lugares onde talvez antes não chegasse com a mesma intensidade. E Portugal faz parte dessa história.
Depois de adiamentos e complicações burocráticas que impediram alguns concertos, este regresso ganha também o sentido de reencontro e reparação. Lisboa e Maia recebem agora o mesmo gesto de despedida: CAJU por inteiro, cantado como celebração de um ciclo que se fecha sem desaparecer.
“Não tinha como não passar por Portugal, que já foi um lugar que me deu tantas alegrias artisticamente, e agradecer por essa vitória e encerrar de forma linda o disco.”
O reconhecimento internacional não lhe retirou a surpresa. Liniker fala dos Grammys, dos prémios, da notoriedade pública e do carinho dos fãs com gratidão, mas também com espanto:
“Fico muito realizada por conseguir falar para essas pessoas nestes anos de uma forma tão honesta e, ao mesmo tempo, ser do Brasil e ter esse reconhecimento no mundo.”
E acrescenta:
“Os Grammys, os outros prémios que ganhei, a notoriedade pública, o carinho dos fãs deixam-me muito grata. Muito grata e, ao mesmo tempo, beliscando-me para saber se é realidade.”
Há ainda uma dimensão popular, profundamente brasileira, no modo como Liniker fala da sua música. Veludo Marrom integra a banda sonora das personagens Joélly e Raul na novela Três Graças, da Globo, e a artista assume sem pudor esse lugar na cultura televisiva.
“Sou noveleira, além de tudo. Ter esse reconhecimento de Veludo Marrom fazer parte dessa novela, assim como Baby 95 fez parte de outra, é isso que um artista espera.”
Para Liniker, entrar numa novela é entrar na casa das pessoas. É habitar a memória afectiva de um país. E, também por isso, Portugal compreende esse gesto: as novelas brasileiras fazem parte da nossa própria educação sentimental.
“Virar trilha de novela no Brasil é muito atravessado pela televisão. E sei que em Portugal vocês recebem muito bem as novelas e também são muito atravessados por isso.”
O próximo sonho já está dito:
“O meu próximo sonho é ter uma música de abertura de novela. Não só para personagens. Esse é um sonho que quero realizar um dia.”
Para quem estiver no Coliseu dos Recreios, no dia 5 de Junho, ou no North Festival, no dia 6, Liniker deixa uma promessa simples e poderosa:
“Tudo o que é feito de peito aberto é feito com muita honestidade. Vou com muita vontade, com muito amor.”
E conclui:
“Quero cantar para todo o mundo de um jeito que eu não cantei antes.”
Talvez seja essa a melhor definição de Liniker neste momento: uma artista que canta de peito aberto, mas sem ingenuidade; que faz do afecto uma força política; que transforma a vulnerabilidade em presença; que sabe que existir, para certos corpos, continua a ser um acto de coragem. Em Portugal, CAJU despede-se em duas noites. Mas aquilo que Liniker abriu com este disco dificilmente se encerra.
Imagens Larrisa Krieli


