opinião

Mais empatia



(Crónicas dum homem queer a caminho dos 50 anos)

Texto com conteúdo sensível.

Durante este percurso, a que chamam vida, sempre aprendi, muitas vezes não da forma mais fácil possível, que devemos, se não compreender os outros, pelo menos empatizar e tentar não fazer julgamentos precipitados. Cada ser humano é um mundo, cada qual tem as suas particularidades, quem sou eu para fazer juízos de valor?

Vivemos num mundo em constante mudança. Vivemos a correr. Tenho por hábito dizer que, e apesar de os nossos pais nos terem proporcionado a possibilidade de um curso superior, somos os novos escravos do século XXI. Vejo e falo por mim, não preciso de procurar exemplos alheios. Quantos dias não passo 13 e 14 horas em frente a um computador, porque há sempre mais alguma coisa para fazer. Por vezes tenho saudades do meu primeiro emprego. Tinha 15 anos e nas férias ia para uma fábrica de tintas carregar latas de 50 kg… O corpo chegava ao final do dia moído, mas nada se compara ao cansaço mental a que sou sujeito nos dias de hoje. Falo de mim, no entanto, acredito que acontece o mesmo a alguns que me lêem desse lado do ecrã.

Vejo com alguma alegria que, aos poucos, começamos a derrubar barreiras no que diz respeito à saúde mental – poucos ou nenhuns são aqueles que durante a vida não têm um ou vários episódios –, mas ainda há tanto a fazer. Sobretudo, e por aquilo que vejo ao meu redor, na população masculina. Muitos se identificarão comigo. Fui educado a que os homens não choram, não podem demonstrar sentimentos, têm de ser sempre fortes. Este tipo de afirmações repetidos à náusea, normalmente, vão ganhando espaço na nossa mente e tornando-se verdades absolutas.

Quando me vi confrontado com uma orientação sexual diferente da norma, eu, que já tinha histórico de depressão na família, entrei em depressão e fui diagnosticado com Transtorno Depressivo. O mesmo aconteceu aquando do diagnóstico de VIH. E foram precisos muitos anos de psicoterapia para perceber que não estava sempre deprimido, como me haviam vendido. Tinha momentos bons e maus, como toda a gente. A psicoterapia apenas me deu ferramentas para lidar com esses momentos.

E todo este histórico de “Transtorno Depressivo” – com muitas aspas, pois veio a verificar-se não ser um diagnóstico acertado – faz-me recordar, com pena, dois episódios familiares de pessoas que nunca tiveram coragem de pedir ajuda ou, então, sentiam-se apenas desajustados e, por isso, sucumbiram ao suicídio. 

Um tio, de quem gostava muito, isto, à vontade, há mais de 20 anos, não aguentou os maus tratos da esposa e dos filhos. Para piorar a situação, nascido e criado numa pequena aldeia no Alentejo profundo, a região de Portugal com maior taxa de suicídio. Numa véspera de ano novo, cansou-se de sofrer e ingeriu substâncias. Mais recentemente, um primo pouco mais novo que eu, que cresceu comigo, meteu na cabeça que este mundo não era para ele e decidiu pôr termo aos seus pensamentos e à vida.

Ouço muitas vezes: – Ah, não sei como uma pessoa é capaz de se matar? As coisas não são pretas e brancas. Entre uma cor e outra há um sem número de cores, de nuances. E nestes quase 50 anos de vida uma coisa posso afirmar: até a pessoa mais forte é fraca nalgum momento. Eu, enquanto ser humano, tenho um enorme respeito pelas pessoas. Até podem parecer felizes, com uma vida fantástica e invejável, mas o que se passará no seu mundo interior?

No delas não sei. Sei o que se passou no meu há umas semanas. Sei que tento ter sempre um tom bem disposto quando escrevo, mas nem sempre a vida é o que parece ou o que eu quero mostrar. Entre lutos, fins e recomeços, faz agora mais ou menos um ano que a vida não me tem dado tréguas. Faço psicoterapia, escrevo, rodeio-me de amigos, tomo conta de mim, ainda assim, tudo isso não me impediu de ter uma recaída grave… achei que não aguentava mais, que as coisas não faziam já sentido. Estou feliz de estar aqui a escrever, porque foi uma tentativa falhada, mas podia ter corrido mal, muito mal.

Reitero: procuremos ser empáticos e perceber o motivo pelo qual alguém continua, apesar de tudo, a persistir.

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Foto: https://depositphotos.com/pt/

António S.um homem queer a caminho dos 50 anos

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Se estás a contemplar o suicídio, lembra-te que o que sentes é real, mas não permanente. Muitos já passaram por aí e descobriram, com apoio, que a vida pode voltar a ter significado. Não estás sozinho: pedir ajuda não é fraqueza – é coragem. Dá-te o benefício de mais um passo – liga a alguém da tua confiança ou envia uma mensagem curta: “Não estou bem, preciso de ti”. Se não te for possível falares com alguém próximo, procura um serviço de apoio:

. Emergências (ambulâncias, bombeiros, polícia): 112;

Linha de prevenção do suicídio: 1411

. Linha de Apoio LGBTI+: 218 873 922, 969 239 229 – anónimo e confidencial, quintas e sextas, das 20h às 23h, também em WhatsApp.

. SOS Voz Amiga: 213 544 545, 912 802 669 ou 963 524 660 – diário, das 16h às 24h;

. Apoio Psicológico (SNS24): 808 24 24 24 – linha de aconselhamento, disponível diariamente.

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