Há variadas formas de expressar descontentamento relativamente ao contexto político em que se vive. Maria Teresa Horta, escritora, jornalista, activista e poetisa, foi uma mulher que, em meio ao Estado Novo, se expressou através da escrita.
Maria Teresa, nascida a 20 de Maio de 1937, em Lisboa, viveu na mesma cidade até o fim da sua vida. Em 1937, Portugal encontrava-se sob ditadura, e os ideais de “Deus, pátria e família” eram estritamente exigidos.
Quando tinha 9 anos, seus pais — Jorge Augusto Silva Horta (médico e professor da Faculdade de Medicina) e Carlota Maria Mascarenhas, uma mulher que, apesar de ter algumas ideias conservadoras, nutria pensamentos que punham em causa a igualdade de género — já estavam divorciados. Carlota trabalhava e usava calças, o que não era bem aceite na época. O facto de haver um divórcio em 1946 era algo que confrontava os ideais da família tradicional.
Até aos 9 anos, Maria Teresa passava muito tempo com a sua avó materna: sufragista, republicana e com ideias progressistas. É notável que Maria esteve em contacto com pensamentos que a faziam questionar o sistema político no qual estava inserida desde muito jovem. Além de sufragista, a sua avó paterna havia sido uma das primeiras mulheres a frequentar o liceu em Portugal, o que foi um grande exemplo para a neta, que aprendeu a ler e escrever muito cedo com a sua ajuda.
Com 5 anos, o seu pai contratou uma professora particular para acompanhá-la, com o objectivo não só de ensinar os conteúdos escolares, mas também de transmitir comportamentos condizentes com o que a sociedade esperava. Mais tarde, começou a frequentar a escola, sendo a primeira localizada em Benfica: o Colégio Sagrado Coração de Maria. Após a separação dos pais, mudou-se com as irmãs e com o pai para a casa do avô materno, passando a estudar num colégio em Pinheiro de Loures, onde era a única aluna da turma.
No início da adolescência, estudou no Liceu Filipa de Lencastre. Apesar de a escola ter regras muito restritas, foi uma fase em que esteve em contacto com literaturas feministas. Naquela mesma altura, começou a participar mais activamente na política: foi convidada a distribuir folhetos de resistência pela cidade.
Com 18 anos, iniciou o curso de Histórico-Filosóficas na Faculdade de Letras de Lisboa, mas acabou por desistir e focar-se no jornalismo. Aos 19 anos, teve o seu primeiro contacto com a área ao publicar poemas no jornal República.
Aos 27 anos, casou-se com Luís de Barros. Ambos ligados ao jornalismo, foram alguns dos fundadores do jornal A Capital. Naquela época, escreveu alguns textos sobre o seu amado, mas com uma perspectiva diferente: o amor como algo livre, cheio de companheirismo e sem hierarquias. Quando teve o seu único filho, Luís Jorge de Barros, também questionou o papel de mãe, reconhecendo que a maternidade não excluía a sua individualidade.
Em 1971, lançou um livro polémico para a época: Senhora de Mim. O livro tinha como objectivo falar sobre a liberdade sexual e a individualidade feminina. Foi mal recebido pelas pessoas mais conservadoras, mas Maria Teresa não desistiu. No ano seguinte, conheceu as escritoras Maria Isabel Barreno e Maria Velho da Costa e, juntas, escreveram “Novas Cartas Portuguesas”. O livro teve como objectivo questionar o patriarcado e a masculinidade tóxica. Foi duramente atacado: o governo fascista quis processá-las por incentivo à pornografia e atentado à moral. As Três Marias foram a julgamento e receberam apoio do Movimento de Libertação das Mulheres. O livro foi censurado até ao fim da ditadura.
Maria Teresa Horta teve alguma participação em associações, mas declarava que escrevia não com o intuito de ser militante de um movimento, mas como criadora independente.
Após a Revolução de 25 de Abril de 1974, Teresa Horta escreveu outros livros, como “Mulheres de Abril” e “Educação Sentimental”. Com essas obras, pretendia mostrar que a união de todos — incluindo mulheres e outras comunidades minoritárias — era essencial para que a democracia perdurasse.
Depois dessas produções, lançou mais alguns livros entre 2009 e 2012. Nunca deixou de lado as suas criações poéticas.
Em 2025, com 87 anos, Maria Teresa Horta faleceu em sua casa, em Lisboa. Poetisa reconhecida, jornalista e feminista que transmitia os seus ideais de igualdade de género e liberdade sexual, foi considerada pela BBC como uma das 100 mulheres mais influentes e inspiradoras de todo o mundo.
Não houve participação declarada de Maria Teresa Horta em comunidades ou movimentos LGBTQIA+, mas o facto de os seus estudos abordarem o corpo feminino e a liberdade sexual serviu como base para investigações e leituras relacionadas à temática sáfica.
Referências:
Maria Teresa Horta jornalista: percurso, memória e circunstâncias
Morreu a escritora Maria Teresa Horta – SIC Notícias
https://repositorio.ipl.pt/bitstream/10400.21/3227/6/TESE.FINAL.MJF.pdf
Carolina do Nascimento Bueno, Mestre em História de Género
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