Há livros que lemos e há livros que nos obrigam a reconhecer lugares de onde julgávamos ter saído. Mudar: método, de Édouard Louis, pertence, para mim, à segunda categoria. Talvez porque a história que Louis conta, sem ser a minha, ressoa de forma desconfortavelmente próxima com o meu próprio percurso: sair de um lugar marcado pela pobreza, pela miséria, pela violência verbal e física e descobrir, através da escola pública e depois da universidade, que havia outros mundos possíveis.
Édouard Louis regressa aqui aos velhos dramas do seu percurso, mas fá-lo desmontando a própria ideia de transformação. Mudar de nome, de corpo, de voz, de gestos, de cidade, de amigos, de referências culturais. Aprender a comer, a falar, a vestir-se, a desejar de outra maneira. Mudar como método. Mas também mudar como violência exercida sobre si próprio.
Há uma passagem particularmente brutal: quando lhe perguntam o que fazem os pais, Édouard sente vergonha de dizer que o pai foi operário fabril até um acidente lhe destruir as costas e que a mãe limpava o corpo de idosos moribundos. Mais tarde, em Paris, mentirá: dirá que o pai é advogado ou professor universitário. Não porque tenha simplesmente deixado de amar os seus, mas porque percebeu que, no novo mundo em que procura entrar, a origem social também se lê no corpo. E aprende depressa que é preciso apagá-la.
Conheço esse mecanismo, embora não tenha recorrido aos mesmos estratagemas. Muitos gays que vêm destes lugares de muita pobreza aprendem cedo a representar personagens. Primeiro, para sobreviver à homofobia. Depois, para atravessar as fronteiras de classe. Inventam famílias, escondem pais, corrigem sotaques (no meu caso do norte do país), omitem casas, bairros e profissões. Representamos até a personagem parecer natural. A certa altura, já nem sabemos exatamente onde acaba a sobrevivência e começa aquilo a que os outros chamam “arrivismo” estratégico.
Louis escreve uma frase extraordinária: «mesmo no silêncio, não há igualdade». É talvez uma das chaves do livro. Há quem possa permanecer em silêncio porque nada tem de esconder. E há quem permaneça em silêncio porque falar denunciaria imediatamente de onde veio.
Louis escreve uma frase extraordinária: «mesmo no silêncio, não há igualdade». É talvez uma das chaves do livro. Há quem possa permanecer em silêncio porque nada tem de esconder. E há quem permaneça em silêncio porque falar denunciaria imediatamente de onde veio.

Edouard Louis esteve no passado mês de Junho à conversa com Leonor Rosas no Teatro São Luiz, em Lisboa.
Para um rapaz gay, essa transformação pode começar muito cedo. Louis recorda os recreios em que ninguém queria brincar com aquele que era visto como «maricas», a mochila vasculhada vezes sem conta apenas para fingir que estava ocupado, a biblioteca como esconderijo para que ninguém percebesse a sua exclusão. É uma imagem devastadora porque mostra que a fabricação de outra pessoa começa antes de qualquer ascensão social. Começa na necessidade elementar de sobreviver.
Depois chegam Elena, Amiens, Didier Eribon, Ludovic, Paris. Chegam os livros, o teatro, a filosofia, Sartre, Foucault e todo um universo intelectual que parecia pertencer a outros. Édouard percebe que a distância entre duas classes sociais pode ser muito maior do que os quilómetros que separam uma aldeia de uma cidade. Elena representa uma primeira aprendizagem dos códigos burgueses; Didier Eribon, uma possibilidade de fuga e, simultaneamente, uma nova rutura. Ao ouvi-lo, Édouard percebe que também pode escrever, tornar-se conhecido, fazer-se visível. A vingança contra a criança humilhada transforma-se num projeto intelectual.
E é precisamente aqui que Mudar: método se torna mais incómodo. A morte simbólica do passado nunca é definitiva. O passado regressa. Regressa no sotaque, na memória, na vergonha, no corpo, na relação com os pais e até na culpa de se ter conseguido sair quando tantos ficaram. A mobilidade social produz emancipação, mas também pode produzir violência. Quem muda de classe fica frequentemente suspenso entre dois mundos: demasiado diferente para regressar inteiramente ao primeiro e nunca completamente legítimo no segundo.
Há aqui também cedências que Louis não procura embelezar. Há sexo, prostituição, desejo, utilização do corpo, encontros e estratégias para entrar em espaços aos quais a sua origem parecia negar-lhe acesso. Mudar: método não é uma narrativa edificante sobre meritocracia. É precisamente o contrário. Mostra quanto pode custar aquilo que depois, visto de fora, se apresenta simplesmente como «sucesso».
Talvez seja também por isso que uma certa esquerda social-democrata tenha tanta dificuldade em compreender estes percursos. Fala de igualdade, mas nem sempre percebe a humilhação da classe. Celebra a educação como instrumento de mobilidade social, mas raramente pergunta o que acontece subjetivamente a quem atravessa essa fronteira. E, por vezes, olha com suspeita para quem aprendeu os códigos culturais das elites, como se a transformação intelectual fosse necessariamente traição às origens.
Há uma passagem de Alice Walker convocada por Édouard que ajuda a compreender tudo isto: a pobreza não separa apenas ricos de pobres; pode acabar por separar pais e filhos. A escola e a universidade dão-nos instrumentos para interpretar o mundo, mas esses mesmos instrumentos podem criar uma linguagem que aqueles que amamos já não reconhecem. A emancipação contém, por isso, uma contradição dolorosa: aquilo que nos permite sair pode ser exatamente aquilo que nos afasta dos que ficaram.
E depois há França. A França republicana, universalista, intelectual, convencida da sua própria sofisticação. Uma França que, no arauto da sua snobeira, continua muitas vezes a excluir aqueles e aquelas que não correspondem aos desígnios imaginados da República: os pobres, os provincianos, os racializados, os corpos queer, aqueles que falam com o sotaque errado ou não dominam os códigos certos. Louis entra nesse mundo, aprende-o e apropria-se dele, mas nunca deixa de revelar a violência escondida por detrás da sua aparente elegância.
Foi também sobre estas questões que o autor falou em Lisboa, no Teatro São Luiz, numa conversa moderada por Leonor Rosas. Ouvir Édouard depois de o ler acrescenta outra camada ao livro: percebemos ainda melhor que a sua literatura é uma tentativa persistente de transformar a experiência individual numa questão política. A família nunca é apenas a família. A vergonha nunca é apenas vergonha. O corpo nunca é apenas corpo. Por detrás de cada gesto há classe, sexualidade, violência, poder e possibilidade de fuga.
É talvez por isso que este livro me toca tanto. A escola pública e a universidade permitiram-me dar a volta ao lugar de onde vim. Não apagaram esse lugar. Também não quero que o apaguem. Hoje sei que aquilo que durante muito tempo poderia ter sido contado como vergonha é também matéria de pensamento.
Édouard Louis escreve com uma precisão extraordinária, cheia de pequenos detalhes, gestos, hesitações e memórias que aparentemente nada significam até percebermos que significam tudo. Mudar: método é um livro sobre tornar-se outro sem alguma vez conseguir matar completamente aquele que fomos.
E ainda bem.
Um livro para ler. E reler.
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ISBN: 9789895895502
Editor: Elsinore
Data de Lançamento: Maio de 2026
Páginas: 256


