Albert Camus escreveu que “o suicídio é o único problema filosófico verdadeiramente sério. Julgar se a vida merece ou não ser vivida, é responder a uma questão fundamental”. A questão ganha urgência quando pensamos na comunidade LGBTQIA+, onde demasiadas pessoas vêem a sua existência ameaçada apenas por serem quem são. Entre a rejeição familiar, a discriminação social e institucional, a violência e a falta de apoio em saúde mental e física, viver com autenticidade transforma-se muitas vezes num acto de resistência. Num contexto em que discursos de ódio e preconceitos são legitimados, a vida pode deixar de ser percebida como um direito e passar a ser sentida como uma batalha incessante ao invés de um espaço de possibilidades livres.
O suicídio é uma das principais causas de morte externa em Portugal, com cerca de três vítimas por dia, e jovens LGBTQIA+ têm até três vezes mais probabilidade de tentar suicídio do que os seus pares heterossexuais. Apesar de a legislação portuguesa ser das mais avançadas da Europa, a mudança cultural é lenta e a maioria dos incidentes de ódio, motivados por atitudes homofóbicas, bifóbicas, transfóbicas e interfóbicas, permanece invisível, agravando a vulnerabilidade da comunidade. As dificuldades intensificam-se em contextos de exclusão múltipla – como a origem étnica, vivência em meios rurais, a condição de migrante ou a presença de deficiência – e, embora medidas como a Linha Nacional de Prevenção do Suicídio (2024), projectos da sociedade civil, como a ILGA Portugal e, em 2025, a reactivação de um Plano Nacional ainda em debate, representem avanços, continuam a faltar respostas específicas e inclusivas que garantam a cada pessoa LGBTQIA+ o direito a viver com segurança, dignidade e acesso a apoio efetivo.
Falar sobre o suicídio é falar de dor humana, muitas vezes invisível, mas real: por trás de cada estatística há uma vida interrompida que poderia ter continuado se tivesse encontrado apoio, compreensão e esperança. O suicídio não é só um drama individual, mas também reflexo de uma sociedade que valoriza o desempenho e a aparência, mas desvaloriza a vulnerabilidade, transformando o pedir ajuda em fraqueza e o sofrimento em tabu. Uma sociedade emocionalmente iletrada não sabe ouvir nem ensinar a pedir, não sabe validar a dor antes que ela se torne insuportável. Mais vezes do que menos, insiste-se em bordões como “aguenta”, “estás a dramatizar” ou “há quem tenha problemas maiores”, perpetuando a ideia de que o sofrimento deve ser escondido ou desvalorizado, o que cria terreno fértil para o isolamento e o desespero.
Também a comunicação social tem aqui um papel central, devendo abandonar abordagens sensacionalistas e adoptar práticas responsáveis: contextualizar o sofrimento, evitar romantização, divulgar linhas de apoio, dar visibilidade a histórias de recuperação e usar uma linguagem inclusiva que valide identidades e experiências diversas.
A prevenção do suicídio exige respostas colectivas e multidimensionais que ultrapassem o espaço clínico: educação inclusiva com programas anti-bullying e representação positiva nas escolas, apoio familiar que valorize a aceitação parental, profissionais de saúde e educação capacitados em questões LGBTQIA+, políticas públicas e redes comunitárias robustas que reconheçam esta vulnerabilidade. Acima disto, é necessária uma revolução na educação emocional. Enquanto não olharmos para as emoções com a mesma naturalidade com que olhamos para uma ferida física, continuaremos a perder vidas para um mal invisível.
Cuidar sem Fronteiras: Como psicólogo clínico e activista, tenho dedicado o meu trabalho a educar e empoderar pessoas, validando identidades e expressões únicas, promovendo autovalorização e liberdade para que vivam de forma plena e sem vergonha. Esse percurso começou em Braga, expandiu-se para a Catalunha através da colaboração com o Colors Sitges Link, e levou-me a criar um projecto simbólico que une Portugal e Espanha na prevenção do suicídio, com parcerias locais, materiais de sensibilização e espaços de expressão comunitária, a ser lançado no meu Instagram, hoje, 10 de Setembro, Dia Mundial da Prevenção do Suicídio. A 3 de Setembro, entrevistei no Centre LGTBI de Barcelona dois sobreviventes de tentativas de suicídio – Fran (uma rapariga trans) e Derek (homossexual) [nomes alterados para proteger a identidade], cujos testemunhos, distintos nas experiências, partilham uma mesma urgência: a necessidade de estruturas de apoio dignas, de cuidado efectivo e de uma escuta que nunca abandone.
Para Fran, a partilha nasce de uma recusa firme: “Não estou disposta a aceitar que as infâncias e adolescências queer cheguem a este limite, que alguém tenha de passar por isto”. Denuncia uma “epidemia que não queremos escutar” e fala da dificuldade em pedir ajuda sem sobrecarregar quem a rodeia: “muitas vezes não ligo para dizer que estou mal (…) invento apenas uma desculpa, mas o simples facto de ouvir uma voz humana acalma-me imenso”. Sublinha um princípio ético do cuidado: “As pessoas que se suicidam têm um amor enorme à vida, o que acontece é que não aguentam o sofrimento que carregam”. Nesse momento “é a dor que fala”; por isso, acompanhar sem abandonar é vital. E afirma: “não tentem, não vale a pena tentar. Eu sei (…) a paz e a calma que se sente com a tentativa feita, mas o que espera depois é muito cansativo”. Reconhece que a terapia é central para reorganizar, entender e perdoar-se si própria. Defende ainda a criação de ‘centros de crise 24 horas’, sem medicalização automática, onde seja possível “abraçar quem lá esteja, seja de forma profissional ou não profissional, seja como trabalhador ou como utente”.
Derek, por sua vez, decidiu falar por responsabilidade comunitária e por um processo de transparência em terapia, depois de um dos pontos mais baixos da sua vida. Cresceu num ambiente onde pedir ajuda era visto como fraqueza, o que moldou anos de silêncio e auto-suficiência forçada: “Se querias exprimir-te a fazer algo, e não o fazias da forma certa, tiravam-te das mãos: não havia apoio. Até em algo tão simples como montar um móvel do IKEA”. Aprendeu mais tarde que pedir apoio é uma competência: “Se tenho colegas ou pessoas que lidero no trabalho a virem pedir-me ajuda, seja profissional ou pessoal, porque não hei-de eu pedir ajuda?”. Recorda o impacto da dissociação pós-crise, com lacunas de memória. Lembra pessoas e lugares, mas não consegue ordená-las, o que lhe abala a identidade e tem sido trabalhado em terapia: “raramente se fala sobre a perda de memória: pode ser à volta de um episódio específico, ou dias, semanas ou meses depois. Para mim, pessoalmente, apagou quase toda a infância e adolescência”. Fala ainda da falta de apoio adequado pós-tentativa, criticando respostas institucionais “básicas”: “Nas empresas, dão seguros de saúde, passes de ginásio, mas consultas de psicologia? Limitam a 15 sessões. Isso não é nada Eu dispensava o passe do ginásio para ter mais 15 sessões”, defendendo mais investimento e psicólogos permanentes em organizações. Como mensagem final, deixa um roteiro simples: “pega no telefone e fala com alguém: se uma porta não abre, bate a outra. Se surgem pensamentos como “para que estou aqui?” ou “qual é o meu propósito?”, é o momento de pedir ajuda já”.
Em comum, Fran e Derek mostram que sobreviver requer acesso imediato, redes de apoio e uma escuta informada e sem julgamento – lembrando-nos que prevenir é cuidar a tempo e garantir meios reais para que ninguém perca a esperança. A nossa presença pode fazer toda a diferença: escuta sem julgar, levar a sério cada sinal de alerta, falar abertamente sobre pensamentos suicidas, incentivar a procura de ajuda profissional, e manter contacto regular, mostrando que a vida dessa pessoa tem valor.
Em comum, Fran e Derek mostram que sobreviver requer acesso imediato, redes de apoio e uma escuta informada e sem julgamento – lembrando-nos que prevenir é cuidar a tempo e garantir meios reais para que ninguém perca a esperança. A nossa presença pode fazer toda a diferença: escuta sem julgar, levar a sério cada sinal de alerta, falar abertamente sobre pensamentos suicidas, incentivar a procura de ajuda profissional, e manter contacto regular, mostrando que a vida dessa pessoa tem valor.
Se estás a contemplar o suicídio, lembra-te que o que sentes é real, mas não permanente. Muitos já passaram por aí e descobriram, com apoio, que a vida pode voltar a ter significado. Não estás sozinho: pedir ajuda não é fraqueza – é coragem. Dá-te o benefício de mais um passo – liga a alguém da tua confiança ou envia uma mensagem curta: “Não estou bem, preciso de ti”. Se não te for possível falares com alguém próximo, procura um serviço de apoio:
. Emergências (ambulâncias, bombeiros, polícia): 112;
. Linha de prevenção do suicídio: 1411
. Linha de Apoio LGBTI+: 218 873 922, 969 239 229 – anónimo e confidencial, quintas e sextas, das 20h às 23h, também em WhatsAppM
. SOS Voz Amiga: 213 544 545, 912 802 669 ou 963 524 660 – diário, das 16h às 24h;
. Apoio Psicológico (SNS24): 808 24 24 24 – linha de aconselhamento, disponível diariamente.
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Carlos Marinho


