opinião

Nota para nós próprios: um homem é um homem, uma mulher é uma mulher!



(Crónicas de um homem queer a caminho dos 50 anos)

Já algumas vezes abordei nas minhas crónicas o quanto me custa ver a forma como as/os nossas/nossos irmãs/irmãos transexuais são tratados, quer fora, quer dentro da comunidade LGBTQIA+.

Há muito que não percebo, nem me cabe a mim, pois os meus conhecimentos de biologia são extremamente reduzidos. Mas duma coisa tenho a certeza: a empatia é um dos melhores sentimentos que podemos ter em quanto seres humanos. E quantas vezes nos esquecemos deste? 

Se gosto e quero ser respeitado, tenho de respeitar e aceitar e abraçar a diversidade. Reitero que há muito que não percebo, todavia, é para mim claro como água que o sexo biológico não define o género ou a orientação duma pessoa. E pouco importa se passou ou não por uma cirurgia de redesignação sexual. O importante é como a pessoa se identifica e respeitá-la como tal.

Há tempos – há muito tempo, vá – tive uma altercação com uma amiga lésbica. Esta defendia que ser transexual é uma moda, sobretudo entre os homens que transacionam para mulheres. E mais, que se valiam disto para se prostituirem com ambos os sexos. Alto e pára o baile. Será que em 2025 ainda temos uma visão tão das coisas? Parece que sim.

E voltando um pouco atrás. À parte da prostituição. Ainda que homens e mulheres transexuais “possam” recorrer à prostituição – e não são os/as únicos/únicas. Dê-se o leitor ao trabalho de abrir um site de engate. – quem somos nós para julgar? Ou então, já que somos tão versados na arte do julgamento, quantos de nós referenciamos nos nossos locais de trabalho pessoas transexuais? Tenho a sorte de trabalhar num local inclusivo, onde tenho homens e mulheres trans a trabalhar comigo. Deve ser um local em mil…

Vivemos numa época em que todos têm uma opinião – e bem, uma das coisas boas que a democracia nos trouxe – mas, perguntou-me se vale a pena vomitar opiniões que generalizam e discriminam. Assim como há casos de transexuais que se prostituem e se aproveitam da sua condição, igualmente há homens e mulheres cisgénero que o fazem.

Portugal ainda é uma aldeia. Carregamos ainda muito provincianismo de 50 anos de ditadura. E, até mesmo dentro da comunidade, ainda está muito enraizada a ideia de que transexuais e travestis só podem e só trabalham na prostituição. Ridículo. E ainda que assim fosse? O que é que cada um de nós tem a ver com a vida de cada qual? Mal comparada, esta situação é como o casamento gay. A única pessoa que tem de concordar ou discordar é a pessoa que é pedida em casamento.

Ainda assim, e com toda esta transfobia sistémica, conseguimos ser duma hipocrisia sem precedentes. Lembrar-se-á o estimado leitor do assassinato mortal de Gisberta Salce, em 2006, no Porto e de como a comunidade LGBTQIA+ fez deste infeliz acontecimento uma bandeira e da nossa querida Gisberta uma mártir. E bem, muito bem. Não esqueçamos, todavia, as dezenas – centenas ? – de Gisbertas que vivem nas nossas cidades, cruzam as nossas vidas e sejamos bons, empáticos e consigamos estender a mão quando nos pedem ajuda, para que não sejam mais empurrados(as) para as franjas da sociedade, mas possam ser respeitados(as) e aceites como os seres maravilhosos e perfeitos que são. Para os que acreditam em Deus, Este não erra, logo todos/as/es nós somos perfeitos. Acolhamos, pois, a comunidade transexual de coração e sem falsos moralismos.

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Foto: https://depositphotos.com/pt/

António S.um homem queer a caminho dos 50 anos

Um Comentário

  • Tiago Mendes

    “Há tempos – há muito tempo, vá – tive uma altercação com uma amiga lésbica. Esta defendia que ser transexual é uma moda, sobretudo entre os homens que transacionam para mulheres. E mais, que se valiam disto para se prostituirem com ambos os sexos.”

    Senti uma revolta tão grande dentro de mim ao ler esta frase. Questiono-me sempre como pode haver tanta maldade neste mundo. Qual a razão para haver tanto ódio e inveja? Porque é que o ser humano é tão mesquinho e só consegue pensar no seu umbigo? Quando a sociologia me diz que o ser humano é um ser social que não consegue viver sozinho, questiono-me sempre se é mesmo verdade, com cada vez mais pessoas com falta de empatia pelo outro e com aquilo que chamamos de falta de humanismo mas que se calhar não o é. Porque parece que cada vez mais que o humanismo é ser-se mesquinho, perverso, egoísta etc. É essa a verdeira natureza humana e é por isso que temos um mundo cheio de guerras, cheio de ódio e discriminação. E já não sei se me devo sentir com tristeza ou com alegria por me sentir um excluído deste mundo odioso.

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