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O Bastardo: entre a PIDE e o desejo



João de Andrade estreia-se na ficção com O Bastardo, um romance sobre poder, identidade, sexo, amor e a coragem de fugir à vida que nos foi destinada.

“Dedico este livro a todos os que tiveram medo e, ainda assim, lançaram-se.” A frase é uma boa chave para O Bastardo: um romance sobre o risco de abandonar o lugar que nos foi atribuído para tentar descobrir quem queremos ser.

Nascido em Lisboa em 1993, João de Andrade chega à ficção depois de várias vidas: estudou Sociologia, viveu no Rio de Janeiro, fez um mestrado em Gestão Hoteleira, foi nadador federado, bartender, bar manager, professor e nadador-salvador. Aos 32 anos, estreia-se na escrita. A sua biografia parece dialogar com uma das perguntas do romance: quantas vidas cabem numa só?

Rafael nasce no Porto no contexto de uma relação considerada escandalosa. Quando a sua filiação é assumida e se revela a ligação a um homem poderoso, antigo funcionário da PIDE, passa a carregar uma herança que não escolheu: uma família, uma posição social e uma história política que parecem querer decidir por ele quem deverá ser.

É contra esse destino que se lança. A viagem ao Rio de Janeiro é mais do que uma deslocação: é uma ruptura. Longe das expectativas que o acompanham, Rafael procura liberdade e descobre que ser livre implica também enfrentar aquilo que somos e desejamos.

O Bastardo é uma história de corpos, desejo e paixão, mas também de pessoas que querem ser vistas. A intimidade surge como uma forma profunda de reconhecimento: ser amado antes de se ter conquistado um lugar no mundo, antes de se ser “alguém”. O amor, aqui, é também uma forma de dizer: eu vejo-te.

O desejo começa no olhar. João de Andrade demora-se nos corpos, nos rostos, nas mãos, nos cabelos, nos olhos. Uma das personagens surge diante de uma tela, entre quem pinta e quem é transformado em imagem pelo olhar de quem narra. Olhar alguém é também tentar descobrir quem essa pessoa é. E ser olhado pode ser uma forma de existir.

A dimensão erótica cruza-se assim com a identidade e a liberdade. Rafael não procura apenas fugir da família e do passado; procura descobrir quem pode ser quando deixa de viver segundo as expectativas dos outros.

É aqui que “bastardo” ganha outra espessura. A palavra define alguém pela origem e coloca-o fora da norma antes mesmo de poder escolher quem quer ser. No romance, transforma-se numa pergunta: quem tem o direito de definir quem somos?

A ligação do protagonista a um homem associado à PIDE acrescenta uma dimensão política à procura. Rafael herda também a sombra de um país onde poder, reputação e conformidade pesavam sobre a vida privada. O Rio surge, então, como território de ruptura e reinvenção. E não deixa de ser curiosa a coincidência de João de Andrade ter vivido naquela cidade entre 2013 e 2014.

A escrita é romântica e sensorial, demorando-se nos corpos e nas emoções. Por vezes, deixa-se levar pelo excesso, mas esse excesso é coerente com uma escrita que não tem medo de assumir o sentimento. O Bastardo não esconde o desejo atrás do cinismo: fala de paixão, sexo, entrega e da vontade de encontrar alguém perante quem seja possível baixar as defesas.

Num tempo em que a ironia funciona tantas vezes como escudo, João de Andrade escolhe correr o risco do romantismo. E talvez seja esse o verdadeiro sentido da dedicatória: ter medo não é o contrário de ter coragem. Às vezes, é a sua condição.

Rafael lança-se para descobrir outra vida. João de Andrade lança-se agora na ficção. E o leitor fica com uma pergunta: quem seríamos se deixássemos de ter medo de descobrir quem realmente somos?

Chancela: Bookmundo
Autor: João de Andrade
ISBN: 9789403882208
Data de publicação: Março de 2026
Páginas: 409

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