Nos tempos de hoje, devido à Internet, às redes sociais, e à comunicação social, tem-se cada vez menos privacidade. No caso dos homossexuais, por exemplo, é importante a saída do armário, mas nem toda a gente está, nem deve estar obrigada a isso. Por vezes ouve-se criticar a reivindicação do direito à privacidade, com base no argumento do “não ter nada a esconder”. Criou-se a ideia de que quem defende o direito à privacidade é porque tem algo de negativo a esconder. Em primeiro lugar o indivíduo tem o direito de não querer revelar aquilo que é seu, desde que isso que não quer revelar não seja proibido, ou em situações em que algumas coisas são proibidas mas injustamente, como por exemplo a perseguição de uma pessoa devido às suas convicções políticas, religiosas, ou outras (ser comunista, ser muçulmano, ser homossexual, etc.). Em segundo lugar nem sempre a privacidade tem a ver com algo que é mal visto socialmente, antes pelo contrário. Por exemplo, ter ganho uma soma de dinheiro muito elevada numa lotaria, não é nenhum mal, mas o indivíduo pode, numa atitude de modéstia, não querer revelar que a ganhou. Um indivíduo pode ser de origem nobiliárquica, do ponto de vista genealógico, mas também, numa atitude de modéstia, pode não querer revelar as suas origens nobres. Há coisas muito sagradas para o indivíduo, que não as quer banalizar e vulgarizar com a sua divulgação, apesar de elas não serem nenhum mal, e de serem até bem vistas pela sociedade. Nem toda a gente tem que saber o que para nós é muito importante, nem o que temos em nós e que é também importante para a sociedade. Alguns indivíduos sentem a necessidade de cultivar uma espécie de jardim interior, e não vêem isso como algo que lhe imponham de fora, mas como algo que eles próprios criam em torno de si mesmos. Há determinadas coisas que mesmo sendo mesmo bem vistas pela sociedade, faz parte dos ideais mais elevados de determinados indivíduos, que consideram que nem toda a gente merece a revelação dos seus ideais mais elevados, e por isso não os revelam facilmente.
Mas não são apenas os ideais elevados que se pretende manter sob discrição, e não os revelar facilmente. Por exemplo, morar onde se mora não é nenhum ideal elevado, e não é nenhum mal morar onde se mora, mas um indivíduo pode muito bem não querer dizer a sua morada, e, portanto, sentir também desta forma que tem o seu espaço próprio, e que este é mais próprio pelo facto de essa informação não ser pública. A não revelação do local onde se mora significa não querer ser incomodado (por exemplo pelos fãs de um cantor famoso), significa querer ser deixado em paz, o que também faz parte da privacidade. Do ponto de vista profissional, por exemplo uma pessoa que se dedica à fabricação de um determinado licor, pode muito bem não querer revelar o segredo da sua fabricação, isso não é propriamente um ideal forte e elevado, e não é nenhum mal fabricar licores e ser o descobridor da sua fabricação, mas a pessoa pode preferir não o revelar.
Por vezes há também que ter cuidado com a tendência de alguns indivíduos para discriminarem outros indivíduos, devido à sua situação clínica (cancro, VIH, etc.) Mas também em situações banais da vida quotidiana há que respeitar o direito à privacidade, Por exemplo, há indivíduos que ressonam ou que têm uma “cara feia” quando estão a dormir, e alguns indivíduos poderiam fotografar esse indivíduo nessa situação e porem a circular nas redes sociais fotos ou vídeos desse indivíduo quando está a dormir, para o ridicularizar. Além de o porem a ridículo publicamente, estão a violar o seu direito à imagem, com a publicitação do seu rosto sem a sua autorização.
Há muitos indivíduos que gostam de ter poder sobre outros indivíduos, não apenas sobre a sua sexualidade, mas também nos pormenores mais banais da vida quotidiana, tudo bisbilhotando, vulgarizando, ridicularizando, e deturpando. Quem invade a privacidade de um indivíduo, e procura saber coisas sobre a sua vida, mesmo tratando-se de uma vida banal, esse comportamento é uma falta de respeito. A bisbilhotice é uma falta de educação, cria um clima de suspeita entre as pessoas, atentando contra a sua dignidade enquanto seres humanos, e não é apenas moralmente injustificável, como psicologicamente violenta, como por exemplo escutar conversas atrás das portas, espreitar pelo buraco de uma fechadura, abrir e ler as cartas que são dirigidas a uma pessoa, ler os seus e-mails, etc. Mesmo que essa pessoa não tenha feito ou não esteja a fazer nada de mal, mesmo que essa pessoa não seja suspeita de nada, isso é uma falta de respeito. A pessoa que é alvo desses comportamentos deixa de ter o seu espaço, a sua vida própria, e ao ver-se violentada na sua privacidade passa a não conseguir agir livremente, espontaneamente, e naturalmente, sente-se perseguida, e por vezes até se sente culpada, sem saber em relação a quê. A invasão da privacidade é uma violação da personalidade, é uma violação de uma propriedade privada (as convicções políticas, as crenças religiosas, a sexualidade, etc.), ou até mesmo do facto de se estar ou de se querer estar sozinho. O facto de se interditar a entrada de outras pessoas na nossa própria casa (mesmo que as pessoas a quem interditamos a entrada não sejam ladrões), não significa que tenhamos algo a esconder, pois a casa é algo de muito privado, que pertence à própria pessoa, e para muitos é como algo de sagrado. A preservação da privacidade da casa não significa que essa pessoa esteja a fazer ou a dizer algo de mal dentro da sua casa, mas certamente nenhuma pessoa gostaria de ter câmaras de vigilância dentro da sua própria casa, tendo que se render ao argumento de que se não tem nada a esconder, ou de que se “quem não deve não teme”, deveria mostrar facilmente o interior da sua casa. Ser-se espionado, vigiado, controlado, mesmo nas mais banais situações da vida, e não apenas em casos como os das convicções religiosas, político-partidárias, etc., dos sentimentos afectivos e sexuais, exerce uma pressão sobre os indivíduos, e estes, devido ao olhar curioso, inquiridor e abusivo dos outros, passam a sentir que os outros indivíduos são donos deles, e por vezes passam mesmo a sentir-se como culpados, apesar de não terem feito nada de mal. Por conseguinte, perante as muitas violações da privacidade no mundo de hoje (câmaras de vigilância exageradas, interrogatórios abusivos na candidatura a um emprego, publicitação dos nossos dados pessoais e familiares sem a nossa autorização, divulgação fotográfica da nossa imagem sem a nossa autorização, etc.), há que lutar e reivindicar para se respeitar o direito à privacidade.
Victor Correia


