Um drama político e ambiental inteligente, tenso e sinuoso sobre os desequilíbrios globais que confrontam uma nação do terceiro mundo em estado de fluxo. É dirigido e escrito pelo cineasta português Pedro Pinho (“A Fábrica do Nada”/”Cidades e as Trocas”), com outros 10 argumentistas. O filme, de ritmo lento, está repleto de ideias, opiniões controversas e aborda as verdades delicadas sobre a relação entre o neocolonialismo e as ONG’s internacionais.
Sergio (Sérgio Coragem) é um homem branco emocionalmente instável, profundamente imperfeito, mas bem-intencionado, um engenheiro ambiental português. Ele é enviado por uma ONG não identificada para avaliar o impacto ambiental de um projecto rodoviário que atravessa o país entre o deserto e a cidade da Guiné-Bissau, uma antiga colónia portuguesa na África Ocidental. O projecto está a ser patrocinado por um rico empresário português e é bem visto por alguns cidadãos progressistas como um impulso para a economia, mas é contestado por alguns tradicionalistas que dizem que não precisam da estrada. Sérgio está a substituir o seu antecessor, que desapareceu misteriosamente antes de poder apresentar o seu relatório.
Numa discoteca da capital, Sérgio conhece e desenvolve uma relação complexa com o extrovertido proprietário do bar, um loiro que usa peruca, e com a sua paixão, Diara (Cleo Diára), e com o ambicioso Gui (Jonathan Guilherme), um brasileiro mestiço e homossexual. Ele também conhece outras pessoas da comunidade de expatriados que o informam sobre o que está a acontecer na cidade empobrecida, enquanto expressam as suas preocupações sobre a água potável, os serviços locais, como a remoção de lixo, e a dependência do seu país dos investimentos estrangeiros.
Os personagens falam corajosamente sobre as decepções com a hipocrisia da cidade, ao mesmo tempo em que ela promove programas progressistas. O filme assemelha-se a um documentário dramático, pois revela as questões preocupantes em curso no período pós-colonial de corrupção e crise de identidade da cidade.
Com mais de três horas de duração, um ritmo lento, uma narrativa inflada e um tema que interessa apenas a um público politicamente consciente, o filme, mesmo sendo reflexivo, estético, provocativo e queer despertará o interesse de estudiosos do período pós-colonial e da comunidade LGBTQIA+.
Ricardo Falcato


