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O Tempo é uma coisa curiosa

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A crónica desta semana vai ser num registo um pouco diferente do habitual. Apercebi-me que um dos fios condutores destes últimos três meses é o Tempo e, por isso, esta semana decidi reflectir um bocado acerca daquilo que ele significa para mim.

O Tempo enquanto idade dá título às crónicas, o Tempo enquanto educador e informador é um motivo comum, nem que seja na sua forma mais básica de ‘se eu soubesse o que sei hoje…’. Finalmente, o Tempo também aparece enquanto agente erosivo das arestas mais cortantes que o simples acto de sair todos os dias da cama e ‘viver’ vai criando e afiando.

Parte desta reflexão tem a haver com o facto de ultimamente me ter apercebido que finalmente percebo melhor tantas e tantas obras da Literatura ou da Música que falam acerca da passagem do Tempo. Uma em particular, e que dá título a esta crónica, foi escrita por Hugo von Hofmannsthal em 1910: “O Tempo é uma coisa curiosa. Quando estamos absorvidos pela agitação diária das nossas vidas, ele parece ser algo insignificante; mas depois, e de repente, é a única coisa que conseguimos sentir’.

É impossível não ler algumas das minhas crónicas passadas e notar que normalmente, o que mais me causa algum género de angústia ou sofrimento, é a noção de ter desperdiçado Tempo em situações que não acrescentaram nada à minha vida além de alguma maturidade emocional, muitas vezes paga na moeda extremamente valiosa que é o meu bem-estar emocional e mental.

Acho que todos chegamos a esta fase da nossa vida em que a passagem do Tempo deixa de ser como o barulho de um avião que se ouve à distância e passa a ser como se vivêssemos à beira de uma linha de comboio de serviço regular em que somos relembrados a cada 5 minutos que já estamos 5 minutos mais velhos e que já temos 5 minutos a menos na ampulheta das nossas vidas (e não… não estou a falar de ser virado ao contrário tipo a ‘Ampulheta’ da Ana Malhoa). Surge aí, ou pelo menos para mim surge, o dilema entre abraçar uma filosofia quase juvenil de “Carpe Diem” e de viver cada dia como se fosse o último, ou de reconhecer o Tempo como um bem essencial e escasso que não deve ser desperdiçado de qualquer maneira.

Para mim, é extremamente difícil encontrar um meio termo equilibrado entre estas duas filosofias porque ambas podem conduzir àquele sentimento terrível de que falei atrás de ‘Tempo perdido’: um “Carpe Diem” desenfreado pode resultar em Tempo desperdiçado em algo que não é mais que gratificação instantânea a qualquer nível; ou então o Tempo tratado como metal precioso que não se desperdiça em banalidades, mas depois acaba também por ser Tempo perdido em coisa nenhuma.

É verdade que se olharmos para o Tempo enquanto algo que cura sempre as feridas do Passado, ele acaba por nunca ser verdadeiramente perdido. No entanto, quantos de nós escolheriam passar outra vez pelas situações dolorosas pelas quais todos passamos, se depois de as superarmos e termos feito o balanço de tudo, nos fosse dada essa escolha sob a forma de um contrato? Algo deste género: “Aceita passar pela situação X? O custo será este e os benefícios serão estes.”

 

"quantos de nós escolheriam passar outra vez pelas situações dolorosas pelas quais todos passamos, se depois de as superarmos e termos feito o balanço de tudo, nos fosse dada essa escolha sob a forma de um contrato?"

 

Eu sou um realista. Nunca fui o género de pessoa que tenta sempre ver o lado positivo das coisas à força toda: a vida muitas vezes é uma merda e muito frequentemente é uma merda não porque nós façamos a escolha consciente de sofrer (acho que pouca gente será masoquista a esse ponto), mas porque para o melhor e para o pior, vivemos em sociedade e temos que arcar com as consequências não só das nossas escolhas mas também das escolhas dos outros. Acho que é quando somos obrigados a desperdiçar tempo a resolver problemas que não são inteiramente criados por nós mesmos que o barulho da areia a descer na ampulheta dos nossos dias se torna dolorosamente ensurdecedor.

É nessas alturas que, tal como Hoffmansthal diz na mesma obra, quase damos por nós a “acordar a meio da noite e a tentar parar todos os relógios em casa” numa tentativa de calar a passagem barulhenta de cada segundo.

Contrariamente ao personagem para quem Hoffmansthal escreveu estas palavras, eu não me vou resignar de forma teísta e aceitar que também o Tempo é uma criação divina e que, como o senhor de barbas lá em cima é infinitamente bom (ignoremos o Antigo Testamento), não devemos ter receio da sua passagem. 

Acho que ainda preciso de mais uns meses de ioga para atingir um estado zen/generoso o suficiente para não ressentir todas as situações que me fazem perder tempo.

 

R. J. Ripley