Ao sentimento de perda com a partida de Ozzy Osbourne junta-se uma inevitável sacralização: a de um ícone que ocupará para sempre os anais da História como pedra angular do que hoje entendemos por rock pesado.
Mas não vai tudo com ele. Entre a exploração de limites e o cultivo dos lados mais soturnos da existência, o vocalista dos Black Sabbath foi também um fervoroso aliado da comunidade LGBTQIA+. Apoiou financeiramente causas queer, ergueu a voz em prol dos direitos dos corpos dissidentes e nunca se escondeu por detrás da máscara do socialmente aceitável.
Num género musical muitas vezes associado a um imaginário conservador, masculinizado e até tóxico, Ozzy ajudou a romper estigmas e padrões. Plantou sementes num terreno onde, hoje, se erguem os gritos de todas as pessoas que sempre se sentiram à margem.
O rock pesado autonomizou-se de uma leitura unívoca e hostil. Tornou-se um território aberto a quem afirma identidades e sexualidades não normativas.
Se outrora as capas de vinil exalavam berros de violência simbólica, talvez fosse o metal a gritar, afinal, que a norma não podia ser imposta sem reconhecimento da diversidade.
O metal nunca foi, no seu âmago, um movimento violento — mas sim uma afirmação da liberdade de existir em todas as direções possíveis. Uma forma de ultrapassar a parede espessa do dogma e uma resposta visceral a um conjunto de tensões sociais, económicas e culturais vividas no final dos anos 1960 e início dos anos 1970.
O rock pesado é, antes de tudo, um ato criativo de insubordinação — uma recusa em viver segundo uma única forma de ver o mundo. A realidade queer partilha desta mesma pulsão — a vontade de não silenciar, de não invisibilizar a verdade de cada indivíduo.
Graças a figuras como Ozzy, os limites ultra-masculinos do headbanging foram-se diluindo. As mulheres começaram a ocupar um espaço onde a testosterona já não era a pedra-de-toque. E o alargar das fronteiras do admissível no rock pesado levaria outros nomes a içarem a bandeira queer como estandarte da liberdade de existir na diferença.
Veja-se o caso de Rob Halford, vocalista dos Judas Priest, que ao afirmar publicamente a sua homossexualidade foi acolhido com aclamação pelos fãs. Mais recentemente, nomes como Otep Shamaya, Gaahl (ex-Gorgoroth) ou Mina Caputo (Life of Agony) têm desafiado o género, a binariedade e o preconceito com um só movimento brusco da cabeleira.
Bandas e artistas como G.L.O.S.S. (hardcore transfeminista), Backxwash (rap-metal com identidade trans), Vile Creature (doom queer) ou Ragana (black/doom queer antifascista) continuam a quebrar paradigmas musicais e sociais. O palco transmuta-se em manifesto. Cada riff é uma brecha de afirmação. Cada feedback distorcido, um ato catártico de pessoas marginalizadas pela diferença que incomoda.
Mas o grito queer não ecoa apenas nas guitarras distorcidas do metal underground. O rock pesado queer tem também marcado presença em palcos como o da Eurovisão, onde, apesar de o estilo ser menos frequente, já vimos artistas e bandas que desafiaram normas e trouxeram à luz identidades dissidentes. A pluralidade musical do festival é um reflexo da diversidade que pulsa também no metal, abrindo espaço para vozes que rompem com o tradicional.
Que se ergam, então, mindinho e apontador, com o fulgor com que Ozzy desejou pisar o palco por toda a eternidade. E que nasçam mais pessoas assim, fadadas para empurrar o mundo para diante.
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Foto: F darkbladeus, Public domain, via Wikimedia Commons
Bruno Kalil


