opinião

Pagar por um pouco de amor



(Crónicas de um homem queer a caminho dos 50 anos)

Antes de desconstruir toda a i(lógica) heteronormativa com a qual fui programado, sempre tive uma opinião forte, vincada e nada abonatória em relação aos trabalhadores do sexo. Acrescentando a tudo isto a educação cristã recebida, para mim, do alto da minha torre de marfim, achava inconcebível que uma pessoa desse uso ao corpo em troca de dinheiro. E tão recriminável achava quem se prostituía, como repulsivo quem recorria a tais serviços por não poder fazer, com o respectivo cônjuge, coisas que estavam guardadas apenas para fora do santo matrimónio (Receber um broche da mãe dos meus filhos? Impensável e pecaminoso).

O tempo, felizmente, tal como as estações e as águas da chuva, passa. Assim como passaram as minhas acirradas convicções em relação aos trabalhadores do sexo – mas, não, continuo sem perceber a lógica de quem procura fora, por não poder fazer em casa (se eu não for compatível sexualmente com o homem com quem estou, e vice-versa, ele não serve para mim e eu não sirvo para ele). Mas, adiante…

Voltemos, no entanto, ao que me fez escrever. Curiosamente, e como verão noutros pensamentos soltos por aqui, quase todas – senão todas – as verdades que tinha como absolutas noutra vida, caíram-me em cima como uma praga bíblica nestes quases 50 anos de vivência queer.  Os trabalhadores do sexo não foram excepção.

Passo, então, a explicar. A vida deu-me a oportunidade de trabalhar e conhecer muitas destas pessoas que fizeram do sexo o seu meio de vida e de sustento. Tanto aqueles que o são e o fazem porque querem – e viva a democracia do corpo – ; tanto os que, ao contrário de mim, não nasceram privilegiados e, portanto, se viram empurrados para a prostituição, pois, se assim não fosse, não teriam forma de sobreviver.

Em ambos os casos, salvo raras excepções, tod@s aqueles que conheci/conheço são pessoas fantásticas e muito mais dignas de respeito que certos moralistas que conheço… Não sejamos hipócritas e coloquemos na cabeça de uma vez por todas: a conduta sexual de cada um não o define como pessoa. Se dúvidas houver, para os mais puritanos, vejam o comportamento de Jesus para com Maria Madalena.


E eu também sou digno de respeito pelas minhas escolhas

Estou separado há vários anos – 14 ou 15, pouco interessa, ninguém os conta. Nos últimos tempos tenho reflectido bastante acerca da minha condição de solteiro: bênção ou maldição? Estarei tão quebrado ao ponto de não conseguir ter uma relação? Questões como estas surgem amiúde, sobretudo quando olho à minha volta, vejo os amigos em casal, com filhos e a sociedade sempre a cobrar.

A verdade é que após muita reflexão – e é mesmo assim, não vou para novo – me habituei em demasia à minha liberdade. Seja porque da última vez correu mal, seja porque nem todos somos feitos para seguir as normas sociais, a verdade é que não há nada de errado comigo por ter decidido, conscientemente, estar sozinho. Pela tardia, mas brilhante, conclusão de que não preciso de um homem para ser feliz. Ou bem que vem acrescentar ou pode seguir caminho.

Neste momento, e imitando um pouco os escritores do saudoso século XIX:

– Recomendo à reflexão dos estimados leitores, que se questionem – diz este gay solteirão, a caminho dos 50 – acerca do porquê de eu falar de trabalhadores do sexo e logo após da minha – dirão alguns – desastrosa vida amorosa?

Dirijo-me a vós em jeito de conclusão. É um facto: sou feliz sozinho. Todavia, e acredito piamente nisto, o ser humano é criado para o amor (nem que seja só às vezes). E por terra caíram todas as verdades que aprendi. Porque sou humano. Porque, às vezes, preciso de um pouco de amor. Porque não há mal algum em procurar aqueles que o vendem… E eu faço-o. Porque sim. Porque quero. Porque aqueles que o vendem – os tais trabalhadores do sexo, que tanto questionava noutra vida – dão-me aquilo de que necessito em momentos mais solitários, com carinho, com respeito.

Dirão as más línguas, ah e tal, só querem dinheiro… E eu? Não busco tão e somente um momento de ilusão? 

Foto: https://depositphotos.com/pt

António S.

Um Comentário

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *