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Perturbações do Comportamento Alimentar na comunidade LGBTQIA+ 



Quando se fala em perturbações do comportamento alimentar (PCA), provavelmente a primeira  coisa que te vem à cabeça são pessoas extremamente magras que, tipicamente, representam os  casos de anorexia nervosa. Mas a verdade é que as PCA não têm só uma cara, nem um só  corpo; não escolhem etnia, sexo, género, classe social ou orientação sexual. Vivem, muitas  vezes, mascaradas atrás de um “peso normal”, seja lá o que isso for; de um sorriso tímido de quem diz “está tudo bem”, mesmo que esteja à beira do abismo; da vergonha, da culpa e da solidão, de quem pensa que está sozinho e que ninguém compreende. Manifestam-se através da comida, mas pouco ou nada tem que ver com comida.

Por isso, são de difícil diagnóstico, prolongando o solitário sofrimento de quem delas padece. E, muitas vezes, quando as pessoas  ganham a coragem de pedir ajuda, vêm os seus sintomas desvalorizados pelos profissionais de  saúde. Se falarmos de pessoas queer, maior a desconsideração dada à pessoa e ao tema! É também essencial reforçar que não é necessário haver um diagnóstico de PCA para que haja muito sofrimento instalado. Um diagnóstico implica o cumprimento de vários critérios em simultâneo, com uma determinada frequência, durante um determinado período de tempo. Não sendo cumpridos, podemos falar de comportamento alimentar perturbado (CAP) ou, do ponto de  vista técnico, perturbação da alimentação e ingestão com outra especificação ou não especificada. Mas este não cumprimento de critérios não torna o sofrimento das pessoas menor! Esta ressalva torna-se importante porque, cada vez mais, as PCA têm sido vista como um continuum na vida da pessoa. Podem começar por comportamentos mais restritivos como uma “dieta para o verão”, passando para a compulsão para tentar tapar o buraco emocional que se sente, terminando com fases purgativas (vómito, uso de laxantes e diuréticos, jejuns prolongados) para “compensar os estragos”. É este continuum que também encontro na minha prática clínica. 

Quando falamos em PCA, é essencial distinguir dois grandes grupos: as que estão associadas à  `imagem corporal e ao peso, como a anorexia nervosa (AN), bulimia nervosa (BN) e a perturbação da ingestão alimentar compulsiva (PIAC), vulgarmente conhecida como compulsão; e as que normalmente não estão associadas a outras questões, como a Perturbação de ingestão alimentar evitante/restritiva (PIAER), a Pica ou a perturbação de ruminação. Se tivesses que apostar, quais achas que estão altamente associadas à comunidade queer? Se  pensaste no primeiro grupo, acertaste!  

Embora a investigação seja parca quando falamos de pessoas queer, há uma coisa sobre a qual  a comunidade científica se mostra bastante consensual: pessoas LGBTQIA+ apresentam mais factores de risco para o desenvolvimento de PCA, quando comparadas com os seus pares cisgénero e heterossexuais sendo, por isso, um grupo mais vulnerável. 

De entre os factores de risco para desenvolvimento de PCA ou CAP, temos a preocupação e insatisfação com o peso e a imagem corporal, o querer ter um “corpo perfeito”, a comparação social, a baixa auto-estima, traumas, contextos familiares disfuncionais, isolamento, traços de personalidade mais rígidos, entre outros. Em pessoas queer, acresce os factores de risco associados à orientação sexual, à identidade de género e à falta de suporte social: a discriminação, o estigma internalizado, a rejeição familiar, a vergonha, pressão dos pares, entre muitos outros!  

Em pessoas queer, acresce os factores de risco associados à orientação sexual, à identidade de género e à falta de suporte social: a discriminação, o estigma internalizado, a rejeição familiar, a vergonha, pressão dos pares, entre muitos outros!  

Existem vários modelos teóricos que procuram explicar esta relação, como o Modelo do Stress  Minoritário. Este postula que pessoas minorizadas em função da sua orientação sexual ou identidade de género enfrentam níveis de stress adicionais ao habitual, devido à discriminação,  estigma, preconceito e marginalização, aumentando assim os riscos para a sua saúde mental. À luz da literatura mais recente, parece haver fatores de risco e comportamentos específicos de  cada grupo da comunidade queer.  

Em homens gay vemos uma preocupação excessiva com a magreza e formas corporais (vigorexia), que resultam em longas sessões de treino e/ou uso de esteróides anabolizantes sem supervisão médica; a crença de que tem de se ter um corpo de determinada forma/aparência  para se ser atraente também é um factor de preocupação, bem como o uso de dating apps e o recurso a pornografia, por aumentar a comparação e consequente mal estar com a sua forma  corporal – um dos maiores factores de risco para o desenvolvimento de PCA. Quando falamos em mulheres lésbicas, parece haver alguma ambivalência: por um lado há uma  maior aceitação corporal e menor internalização dos ideais de magreza; por outro, a insatisfação  corporal está presente, bem como a pressão da comunidade lésbica para se ser magra  conduzindo, assim, a uma maior insatisfação corporal, baixa auto-estima e isolamento. Pessoas bissexuais parecem ser alvo de dupla discriminação: por parte de pessoas hetero e de  pessoas homossexuais – com certeza já ouviste por aí um “mas não te decides?”. Esta dupla discriminação aumenta o stress psicológico, levando a maiores comportamentos de purgação, binge ou até fumar com intenção de perder peso.  

Em homens gay vemos uma preocupação excessiva com a magreza e formas corporais (vigorexia), que resultam em longas sessões de treino e/ou uso de esteróides anabolizantes sem supervisão médica; a crença de que tem de se ter um corpo de determinada forma/aparência  para se ser atraente também é um factor de preocupação.

Em pessoas trans, verifica-se uma ainda maior insatisfação corporal devido a dismorfia corporal, com adopção de comportamentos alimentares muito específicos como estratégia para diminuir a  incongruência entre a identidade de género e o sexo atribuído à nascença. Eis alguns exemplos: restrição alimentar com o objectivo de suprimir características sexuais secundárias (peito, ancas); uso de laxantes ou recurso ao vómito na tentativa de reduzir a massa muscular e o volume  corporal; prática de musculação excessiva para desenvolver os ombros; uso de roupa larga para esconder determinadas partes do corpo.  

Em pessoas trans, verifica-se uma ainda maior insatisfação corporal devido a dismorfia corporal, com adopção de comportamentos alimentares muito específicos como estratégia para diminuir a  incongruência entre a identidade de género e o sexo atribuído à nascença.

A falta de suporte social, a pressão para se manter “escondidos” e os baixos rendimentos são factores de risco comum a todas as pessoas queer minorizadas. Por oposição, estar em  relacionamentos estáveis, perceber a escola como lugar seguro e encontrar na família um lugar  de respeito e aceitação são factores protectores contra o desenvolvimento de doença mental, inclusive PCA e CAP. 

Há um longo caminho a percorrer no sentido de dar resposta a este grupo de doenças que, à  semelhança das pessoas queer, está muito invisibilizado. É essencial que todas as pessoas estejam alerta para os comportamentos dos seus, e sejam um veículo de auxílio e não de  julgamento. Porque julgamento, solidão e sentimento de desadequação é o que estas pessoas mais carregam dentro de si.  

Continuar a criar espaços seguros e de educação para as famílias parece ser um dos caminhos possíveis. Porque famílias seguras, respeitosas e acolhedoras, são o porto de partida para a  preservação da saúde mental.  

Fotos: https://depositphotos.com/pt

Daniela Marques, Nutricionista, @nutri.and.co.dmarques

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