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Nem na mata se encontram histórias assim

"Pode um Desejo Imenso" de Frederico Lourenço reeditado pela Quetzal

pode um imenso desejo

Pode um desejo imenso
arder no peito tanto
que à branda e a viva alma o fogo intenso
lhe gaste as nódoas do terreno manto,
e purifique em tanta alteza o espírito
com olhos imortais
que faz que leia mais do que vê escrito.
  
excerto de "Pode um Desejo Imenso", ode de Luís Vaz de Camões
 

Vinte anos depois da sua primeira edição, “Pode um Desejo Imenso” regressa às  livrarias portuguesas numa nova tiragem. Dividido em 3 partes centrais: “Pode um Desejo  Imenso”; “O Curso das Estrelas” e “À Beira do Mundo”, esta nova edição permite ao  leitor uma renovada experiência do texto, sem com isso retirar a mágica em torno dos  seus temas principais, a aprendizagem do amor, a descoberta homoerótica, o  crescimento pessoal e humano quer dos personagens como do leitor. Vejamos como. 

O autor, Frederico Lourenço, poeta, ensaísta e ficcionista, especialista em línguas e  literaturas clássicas, oferece-nos através da personagem de Nuno Galvão, académico da  Universidade de Lisboa, a tese sobre os “ecos homoeróticos nas Rimas de Camões”.  Através da leitura crítica das várias Éclogas e sonetos que Camões dedica ao jovem  fidalgo D. António de Noronha, seu amigo e pupilo, encontramos uma nova inspiração  para a lírica do “aventureiro" e "mulherengo apaixonado”, poeta renascentista. 

Esta questão será ladeada com o desejo e paixão platónica que Nuno Galvão desenvolve  pelo seu aluno de Estudos Portugueses, Filipe Vaz. Entre a irónica coincidência destes  dois factos, da inclinação homossexual do poeta renascentista com a paixão platónica  entre Nuno e Filipe, é-nos oferecida toda a beleza poética e ensaística desta obra  ficcional. 

Num total de 504 páginas, somos guiados para uma viagem de descobertas em  diferentes tempos. Acompanhando as peripécias de Nuno, descobrimos também Helena,  Vicente e Rosália, o Grupo da Lírica, um grupo de jovens empenhado no desejo imenso  de partilhar Camões com uma audiência maior. Entre os bastidores da academia, as rixas  e confrontos dos diretores dos Departamentos de Estudos Portugueses e  Renascentistas, do tom jocoso da Dra. Eulália, uma personagem secundária que  apimenta o ambiente conservador, bafiento universitário, encontramos nesta trama o  caracter metafórico e autobiográfico de Frederico Lourenço, docente de línguas e  literaturas clássicas da Faculdade de Letras Universidade de Coimbra. 

Em Nuno Galvão, Frederico Lourenço diz encontrar o seu alter-ego. Percetível pela  paixão e dedicação mostrada pelos estudos camonianos; do “amor que nada pede em  troca” por Filipe, ou ainda do amadurecido romance com Vicente, são algumas  experiências narradas que mostram como o autor aprendeu a estar apaixonado, “sobre o  que é ser um homem que sente atração sexual e excessivo por outro homem”. 

Encontramos nesta obra, as diferentes formas de viver, de explorar e reencontrar o amor  e a sexualidade, com e sem tabus. Sobre a sede de transformação, de (re)descoberta, do  sentido performativo da vida e dos relacionamentos afetivos. Frederico Lourenço, numa  narrativa quer romanesca como ensaística, prende-nos a uma leitura compulsiva,  curiosa, desperta para o sentido da poesia portuguesa e da descoberta humana não  apenas heterossexual. Um livro que mostra a multiplicidade de formas de amar. Da  possibilidade, mais ou menos morosa, de nos construirmos, sermos quem somos, sem  medos.  

Ressalvar, ainda, que “Pode Um Desejo Imenso” dá nome, também, ao curioso projecto de divulgação literária de Carlos Marinho: “Pode Um Desejo Imenso: Momentos Literários com Carlos Marinho”, um espaço digital que se dedica ao gozo da literatura. 

 

Edição/Reimpressão: 04-2022

Editor: Quetzal Editores

Idioma: Português

Páginas: 512

Classificação Temática: Literatura > Romance

 
 
Daniel Santos Morais é mestre em Sociologia pela Universidade de Coimbra. Feminista, LGBTQIA+, activista pelos Direitos Humanos. Partilha a sua vida entre Coimbra e Viseu.