Num mundo onde já não faltam bandeiras coloridas e hashtags de orgulho, pode parecer redundante repetir que a homossexualidade não é uma anomalia. Mas, como psicólogo clínico e psicoterapeuta, sei que essa evidência científica ainda não se transformou em verdade emocional para muitos homens e mulheres LGBTQIA+.
Em cada sessão, oiço ecos de uma dor antiga: “Sei que não há nada de errado comigo, mas não consigo sentir-me livre.” Essa frase, dita com lágrimas ou silêncio, revela a distância entre o que sabemos e o que sentimos. É aí que vive a homofobia internalizada — não nas ideias, mas no corpo, na vergonha e na forma como o amor é vivido em segredo.
A ciência há muito respondeu à pergunta: a homossexualidade não é uma doença, nem uma falha biológica, nem um desvio moral. Desde Freud até às resoluções da American Psychological Association, desde Kinsey e Hooker até às abordagens afirmativas contemporâneas, o consenso é claro (!) — a diversidade sexual é uma expressão natural da vida. Mas a cultura, o olhar do outro, a política e a religião ainda insistem em tratar o diferente como defeito.
Nos últimos anos, o discurso público tem oscilado entre avanços simbólicos e regressos perigosos. A desinformação, o populismo moral e o medo voltam a infiltrar-se nas palavras, nas políticas e até nas terapias. E é por isso que precisamos continuar a escrever, a falar, a educar — não por militância, mas por responsabilidade humana. Porque a verdadeira evolução não é biológica, é ética. E ética significa reconhecer que o amor — seja entre quem for — é sempre uma forma de vida.
Foi com esse propósito que escrevi Do Desvio à Dignidade: Psicanálise e História da Homossexualidade.
Um livro que nasceu de muitas conversas em terapia, da escuta da dor silenciosa de quem aprendeu a viver dividido entre o que sente e o que o mundo espera. Porque uma coisa é compreender racionalmente que não há nada de errado connosco; outra é conseguir viver isso sem medo, sem culpa e sem vergonha. O livro é uma travessia entre a ciência e a experiência humana.
Reúne contributos da psicanálise, da biologia e da história social para mostrar como o “desvio” foi inventado pela cultura — e como pode ser desconstruído pela verdade afectiva. Foucault (1976) mostrou que a homossexualidade não foi descoberta, foi criada como categoria de desvio. Isay (1989) demonstrou que o sofrimento não nasce da orientação, mas da rejeição. E Coimbra de Matos (2002) explicou que o verdadeiro sofrimento nasce da clivagem entre desejo e afeto, da impossibilidade de ser inteiro. A “cura”, em qualquer destas perspectivas, nunca é a normalização — é a integração.
No fundo, o livro procura restituir ao sujeito o direito de existir inteiro. Exploro o modo como o olhar social se tornou um espelho punitivo, e como esse espelho, quando interiorizado, transforma o prazer em culpa e o amor em vigilância. E proponho uma psicologia que não apenas “compreenda”, mas que “liberte” — que ajude o sujeito a reconectar-se com o corpo, com o afecto e com a agressividade saudável, essa força vital que permite dizer “eu existo” sem precisar de pedir desculpa.
A homofobia internalizada é uma das formas mais silenciosas de sofrimento psicológico. Ela instala-se na mente de forma invisível, fazendo com que o sujeito duvide da legitimidade do seu próprio sentir. É por isso que muitos homens e mulheres gays vivem amores ternos mas sem erotismo, ou desejos intensos sem vínculo — como se amar e desejar não pudessem co-existir. A psicologia afirmativa convida-nos a outra possibilidade: viver o amor e o desejo como dimensões do mesmo gesto de autenticidade. Amar com corpo. Desejar com alma. Existir com dignidade.
Ser autêntico, neste contexto, não é ser perfeito — é deixar de pedir desculpa por existir. E esse é o coração do livro: a passagem da vergonha à dignidade.
Uma dignidade que não é orgulho vazio, mas consciência profunda — de que o amor, quando é verdadeiro, é sempre uma forma de coragem.
Escrevi Do Desvio à Dignidade porque continuo a encontrar, todos os dias, pessoas que compreendem racionalmente que não há nada de errado com elas, mas que emocionalmente ainda vivem aprisionadas.
Porque o preconceito já não se grita nas ruas — sussurra dentro das casas, das famílias, dos consultórios e, por vezes, das próprias terapias.
A informação, quando nasce da ciência e é transmitida com empatia, é um gesto de libertação. E informar, neste contexto, é um acto de amor.
O livro está disponível gratuitamente em acesso livre, porque acredito que o conhecimento sobre o amor humano não deve ser um privilégio.
Foi escrito para quem se interroga, para quem ainda sente culpa, para quem quer compreender — e também para quem já não tem dúvidas, mas quer “ajudar” outros a “curar” as suas. Enquanto houver quem viva o amor com medo, a psicologia não pode ser neutra — tem de ser presença, espelho e caminho.
E é isso que este livro procura ser: um convite à reconciliação entre o corpo e a alma, entre o amor e o desejo, entre o que fomos ensinados a temer e o que sempre fomos. Porque, no fim, a verdadeira revolução é esta: amar sem vergonha — e existir sem pedir perdão.
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Nuno Tomaz Santos, psicólogo clínico e psicoterapeuta
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Referências
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