opinião

Porque é que eu não vou à Marcha?



A Marcha do Orgulho deve ser um momento de profunda ligação com a comunidade LGBTIQA+. Marchar pelas ruas, com bandeiras arco-íris e sorrisos partilhados, deve ser entendido não só como um acto de resistência, mas também como um acto de celebração. Há dias, numa conversa entre amigos, quando discutíamos as diversas formas de activismo e depois de ter explicado a forma como fiz activismo durante  10 anos enquanto dirigente associativo e atleta, fiquei a pensar no motivo de apenas ter marchado uma vez. A Marcha, que deveria ser um espaço de união e alegria, transformou-se, na minha opinião, num evento onde a politização excessiva e a exclusão de algumas vozes, eclipsam o seu propósito fundamental, que visava promover a inclusão e a diversidade, optando por se alinhar com uma agenda ideológica que, em vez de unir, divide a nossa comunidade.

A Marcha do Orgulho deve ter um cariz político – sempre teve, desde os tempos de Stonewall. Mas essa política deveria focar-se nos direitos LGBTIQA+: igualdade no acesso à saúde, adopção, proteção contra qualquer tipo de discriminação e no combate à violência homofóbica e transfóbica. Em vez disso, vemos frequentemente cartazes e discursos que priorizam causas como a defesa da Palestina ou o anticapitalismo, que embora sejam temas válidos e reivindicações justas, desviam a atenção da luta que nos une. Que pena: parece que nos esquecemos da lição sobre como manter a nossa causa no centro da festa. Noutros países, e em cidades como Amesterdão, São Francisco, São Paulo, Munique ou Sydney, as Pride Parades equilibram o activismo com a celebração, criando festivais vibrantes onde a comunidade e os aliados se juntam com música, dança e alegria. Em Portugal, o ambiente é muitas vezes tenso, marcado por divisões ideológicas que afastam quem não comunga da narrativa dominante. Um evento que celebra a diversidade parece ter pouco espaço para quem pensa diferente.

Em Portugal, o ambiente é muitas vezes tenso, marcado por divisões ideológicas que afastam quem não comunga da narrativa dominante. Um evento que celebra a diversidade parece ter pouco espaço para quem pensa diferente.

Casos como os conflitos com o BNP Paribas (por ser uma organização capitalista), a Associação Variações (por acusações de pinkwashing) ou a Iniciativa Liberal (por divergências políticas), mostram como a Marcha exclui vozes que poderiam enriquecer o diálogo. Como membro da comunidade LGBTIQA+, sinto que o evento não me representa.

Como membro da comunidade LGBTIQA+, sinto que o evento não me representa.

Admiro o activismo das Associações que dinamizam a Marcha, mas questiono por que motivo um espaço que deveria ser de todos se tornou um palco para ajustes de contas. A diversidade da nossa comunidade – de identidades, experiências e ideias – deveria ser a nossa força, não uma fonte de divisão. Se nós não nos aceitamos uns aos outros, como pretendemos que nos aceitem a nós?

Sonho com uma Marcha do Orgulho que acolha todos: activistas históricos, novos aliados, organizações comunitárias e pessoas com diferentes visões políticas. Um evento que seja tão festivo quanto militante, onde a política se centre nos nossos direitos e a celebração nos recorde que o amor, a liberdade e o respeito são os valores que nos unem. Quero participar numa Marcha que espelhe a riqueza da nossa pluralidade, onde possamos marchar juntos, com orgulho e alegria, sem excluir quem ganha dinheiro com a comunidade ou quem nem sempre concorda politicamente connosco. Como vimos em Budapeste no último fim de semana, onde mais de cem mil pessoas se uniram em festa e protesto perante a lei e a ameaça, a força da Marcha está na inclusão – todos são necessários, porque todos são poucos.

Quero participar numa Marcha que espelhe a riqueza da nossa pluralidade, onde possamos marchar juntos, com orgulho e alegria, sem excluir quem ganha dinheiro com a comunidade ou quem nem sempre concorda politicamente connosco. Como vimos em Budapeste no último fim de semana, onde mais de cem mil pessoas se uniram em festa e protesto perante a lei e a ameaça, a força da Marcha está na inclusão – todos são necessários, porque todos são poucos.

Este texto é um convite à reflexão. A Marcha do Orgulho é nossa – de todos nós. Que possamos resgatar o seu espírito inclusivo e transformá-la num momento de união, onde lutamos pelos nossos direitos e celebramos quem somos, sem medo e com entusiasmo.

G. B.

Um Comentário

  • Eduardo Afonso

    Há muito que um texto do dezanove não me representava tão bem. Concordo em absoluto com o que foi dito e com a pergunta que o autor deixa: se não nos aceitamos, como é que queremos ou esperamos ser aceites?

    Espero que este texto sirva de reflexão. Temo que seja ignorado

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