opinião

Porta Entreaberta: Partilhas anónimas do armário



O armário é um lugar inóspito, árido, apertado, escuro. Não entramos nele por vontade ou convicção – praticamente nascemos dentro dele. É difícil perceber onde começa o preconceito – se em nós, se nos outros –, mas ele torna o armário maciço e durável, moldando silenciosamente a nossa existência.

O armário é um lugar inóspito, árido, apertado, escuro. Não entramos nele por vontade ou convicção – praticamente nascemos dentro dele.

Quando damos conta, já cumprimos protocolos, representamos papéis, tentamos ser “gente de bem”. Desligamos os sentidos, activamos a razão como barómetro social e seguimos, forçando-nos, em vão, a acreditar que somos plenos e autênticos.

Pelo caminho, naturalmente, ligamo-nos a pessoas: ora dançando ao ritmo que nos ensinaram, ora escutando apenas o compasso dos sentidos.

O armário é também um espaço de silêncio denso – onde se penduram recusas de ser, onde se arrumam culpas persistentes, onde se ensaiam e engavetam vivências que não chegam a acontecer. Tudo o que nos pesa parece encontrar ali lugar.

Fechamo-nos lá dentro enquanto estudamos, casamos, trabalhamos, temos filhos – desempenhando o papel esperado, para que o cânone social nos aceite, nos respeite e nos premeie com a realização convencionada.

Mas, paradoxalmente, o armário é também um espaço de fragilidade permitida. Talvez o seu recanto mais íntimo e catártico. Ali, é possível desatar nós na garganta, sussurrar desejos, tocar no proibido, sonhar acordado, delirar em silêncio, acolher o êxtase reprimido.

Paradoxalmente, o armário é também um espaço de fragilidade permitida. Talvez o seu recanto mais íntimo e catártico.

Nem sempre é fácil dizer quem somos. Às vezes, o armário não é só um lugar de silêncio – é um espaço de sobrevivência, de protecção ou até de confusão.

Há quem nele resida por resignação, amor ou culpa; quem oscile entre ocultar-se e revelar-se, preso entre medo e desejo; quem nunca tenha sentido as suas portas fecharem e quem vagueie perdido, sem saber que esse espaço invisível tem nome.

A rotulagem – tantas vezes criticada – também nasce do desejo legítimo de pertença, de nos sentirmos incluídos em algo que faça sentido. Que nos dê sentido. Para quem (sobre)vive no armário e procura um nome que funcione como corda de saída, queer é um primeiro rótulo seguro: amplo, fluido, abrigo e bandeira. Nem sempre se trata de encaixar, mas de respirar pela primeira vez.

Chegámos a um tempo em que falar do armário se tornou um mantra libertador. Quanto mais o nomeamos, mais pessoas se aproximam da vontade de o escancarar. Mais se reconhecem no silêncio. Mais se permitem dizer: “É aqui que estou – e é daqui que quero sair.”

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Nova rubrica: onde o silêncio encontra voz
A rubrica Porta Entreaberta nasce como um gesto de escuta, um espaço de partilha sem julgamentos, onde vozes anónimas revelam vivências ligadas ao armário – social, emocional, sexual ou existencial. Não se prometem soluções fáceis, mas um ouvido atento para desabafos e perguntas. Nem todas as histórias vêm da dor – muitas nascem da vontade de inspirar, acolher e dizer: “Já passei por aí – e há um depois.”

Num tempo em que se insiste em normalizar o que é humanamente anormal, talvez devêssemos, antes, normalizar o armário. Porque ele é igual para tantos de nós. Sabemos que viver com portas fechadas pesa, mas também que abri-las pode ser um processo longo, difícil, porém libertador.

Se quiseres partilhar a tua história – ou apenas deixar uma palavra ou desabafo – envia-nos o teu testemunho para: dezanovept@gmail.com Podes permanecer invisível ou surgir com nome e rosto – a escolha é tua. Podes fazê-lo durante o mês de Agosto. A partir de meados de Setembro publicaremos os testemunhos seleccionados.

Este não é um espaço de aconselhamento psicológico. É apenas uma porta entreaberta.

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Bruno Kalil

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