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“Quando as Mulheres Despertam” de Shefali Tsabary



Em Quando as Mulheres Despertam (A Radical Awakening), a psicóloga clínica Shefali Tsabary convida as leitoras a se emanciparem de papéis de género rígidos através da consciência individual. O livro de auto-ajuda é construído a partir de episódios autobiográficos, observações clínicas e reflexões. 

Ao longo do livro, a autora denuncia a cultura de auto-aniquilação feminina, os padrões de beleza impossíveis de atingir e o poder opressivo da culpa. Estas críticas são apresentadas como resultado de processos de socialização prolongados, transmitidos tanto pela família como por instituições sociais mais amplas. 

Veja-se este excerto, em que a posição impossível da mulher está bem captada:

“Não podes ser apenas boa, tens de ser notável

Não apenas notável, melhor que isso

Melhor não chega, tens de ser excelente

Excelente não, mas perfeita

Perfeita não, tens de estar em guerra contigo.” (p. 35)

Apesar de reconhecer a legitimidade de diferentes identidades de género e orientações sexuais, o livro é marcado por uma perspectiva sobretudo heteronormativa, centrada na experiência da mulher cisgénero heterossexual, o que limita a sua abrangência num contexto feminista mais plural. 

Há, igualmente, ao longo do livro, tons mais ou menos explícitos de uma leitura bio-essencialista do que significa ser mulher, por exemplo ao atribuir à biologia feminina predisposição para cuidar, nutrir ou harmonizar relações. Como afirma, “O corpo de uma mulher foi desenhado para dar. Através deste cuidado natural, entram, sem esforço, em sintonia com os outros. Somos as construtoras de comunidades e as colectoras da tribo levadas à quinta-essência. É assim que funciona o tao feminino. Devido à sua biologia e a como a natureza desenhou o seu corpo, uma mulher contém dentro de si o poder de nutrir” (p. 147).

O despertar proposto centra-se na capacidade de as mulheres, individualmente, rejeitarem as expectativas a que tentam corresponder. No fundo, privilegia-se a transformação interior. Como afirma, “Protestar contra a sociedade ou contra o patriarcado pode parecer um alívio, de certa forma, mas fazê-lo também nos aprisiona. Sempre que a nossa cura esteja dependente de outra pessoa, mesmo que se justifique, permanecemos escravas dela. A verdadeira liberdade não tem nada a ver com os outros. Quando nos damos conta disto, começamos a percorrer o nosso caminho sozinhas.” (p. 49). Trata-se, no fim, de um despertar ou despolitizar? No conjunto, Quando as Mulheres Despertam articula uma crítica eficaz à cultura de auto-aniquilação feminina e oferece momentos de reconhecimento e alívio emocional. A obra dirige-se sobretudo a um público interessado em desenvolvimento pessoal e espiritualidade aplicada às relações de género. Ao mesmo tempo, a sua abordagem individualizante e o recurso a visões essencialistas da feminilidade colocam limites claros ao seu alcance político e teórico, convidando a uma leitura simultaneamente aberta e crítica.

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ISBN: 9789895703920
Editor: Alma dos Livros
Data de Lançamento: Abril de 2025
Páginas: 352

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Cláudia Almeida

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