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Quando o futuro já chegou: corpos, comida e morte no laboratório



Sobre “Robôs Sexuais e Carne Vegana”, de Jenny Kleeman (Zigurate, 2023, tradução de Sara
Veiga)
“Todos os nossos relacionamentos estão em causa.”


Jenny Kleeman não escreve sobre o futuro. Escreve sobre o presente que já ultrapassou os
nossos corpos. Escreve sobre a urgência de repensar o humano quando a carne já não precisa
de vir de um animal, o nascimento não precisa de um útero, o prazer não precisa de outra
pessoa — e a morte pode ser um botão que se prime a nosso bel prazer.
Primeira parte: O futuro do sexo
A viagem começa com robôs sexuais. E começa onde o humano termina, na fantasia de
companhia sem contradição, na promessa de uma intimidade sem reciprocidade, os corpos
moldados em silicone com quem mantemos relações. Kleeman visita fábricas, laboratórios e
construtores de robôs que dizem amar, gemer e obedecer. Mas por trás da pele de silicone há
outra coisa em jogo: o desejo masculino por uma mulher eternamente disponível, silenciosa,
moldável. Como ela escreve com ironia afiada: “Não vai sentir nada.” A pergunta que se impõe
é: o que revela sobre nós este impulso de substituir o outro por uma simulação perfeita?
Segunda parte: O futuro da alimentação
Se a primeira parte nos confronta com a solidão do prazer automatizado, a segunda mergulha
naquilo que comemos — e em quem deixaremos de comer. “Carne limpa” ou “vacauschwitz”?
Os capítulos sobre carne cultivada em laboratório e alternativas veganas revelam um mercado
em efervescência, onde empresas tentam reinventar o alimento como produto ético e
tecnologicamente puro. Mas há contradições: veganos que desejam carne, start-ups que
reproduzem desigualdades com verniz sustentável, e a ilusão de que mudar o sistema
alimentar não exige confrontar o capitalismo. Kleeman não moraliza — observa. Mas as
observações são cortantes: o futuro da comida não é vegano; é patenteado.
Terceira parte: O futuro do nascimento
Aqui o livro torna-se mais distópico — e mais feminista. A autora visita laboratórios onde se
desenvolvem úteros artificiais, empresas que pretendem libertar as mulheres da gravidez,
investidores que falam da gestação como “um negócio a otimizar”. O capítulo “Imaculada
gestação” é particularmente inquietante: e se a tecnologia que promete libertar as mulheres for,
afinal, o seu apagamento? Quando Kleeman escreve “Finalmente. As mulheres tornam-se
obsoletas”, não há sarcasmo, traz um relato do real, do que a biotecnologia pode significar num
mundo que nunca valorizou verdadeiramente o trabalho reprodutivo feminino. A autora liga o
ponto: o corpo da mulher continua a ser um campo de experimentação, mas agora com verniz
high-tech.
Quarta parte: O futuro da morte
Como é que se morre num mundo que não quer morrer? Kleeman vai à Suíça falar com
criadores de cápsulas de suicídio assistido, explora a tecnicização do fim da vida com a mesma lucidez inquieta com que começou o livro. No capítulo “O Elon Musk do suicídio”, encontramos
a imagem mais sombria: a morte como marca, como serviço premium. É aqui que o livro revela
toda a sua força: Kleeman escreve com empatia, mas também com uma frieza necessária para
nos confrontar com o absurdo de um mundo onde até a escolha de morrer pode ser um
privilégio.
Mais do que um alerta, um espelho dos dias que correm
“Robôs Sexuais e Carne Vegana” não é apenas um livro sobre tecnologia. É um livro sobre
poder, sobre os corpos que sempre estiveram disponíveis: para o prazer, para a produção,
para a exploração e que agora podem ser substituídos. Kleeman escreve com uma clareza rara
da reportagem jornalística, mas nunca superficial. Não há respostas fáceis aqui. Há perguntas
urgentes.
Como nos tornámos tão obcecados com a eficiência que aceitamos um mundo
onde já nem o toque, nem o parto, nem a comida, nem a morte precisam de
envolver outro ser humano?
Quando tudo pode ser automatizado, higienizado, mercantilizado — o que restará das nossas
vivências?

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Autora: Jenny Kleeman
Tradução: Sara Veiga
Editora: Zigurate
Data de publicação: 2023 (Portugal)
ISBN / EAN: 978-989-783-485-1
Número de páginas: 352

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André Castro Soares

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