Aqui há dias ouvi em consulta algo como: “Cheguei à cozinha e o P. tinha comido o pão todo. Ralhei com ele por ter comido o pão todo. Até que ele me perguntou se eu tinha medo que a comida faltasse. Fiquei a pensar nisso… Sim, ainda hoje tenho medo que a comida falte”.
Até então, não sabia que esta pessoa já tinha passado fome. O medo de não saber quando se voltava a ter acesso a comida fazia com que tentasse poupar ao máximo os alimentos que tinha, para darem para o máximo de refeições possível. Não lhe cheguei a dizer, mas o seu transtorno alimentar pode ter começado aqui.
Nem sempre as perturbações do comportamento alimentar surgem de temas associados à imagem corporal ou auto-estima. Contextos economicamente vulneráveis, a falta de acesso a alimentos ou o viver na incerteza de quando será a próxima refeição são factores de risco sociais para o desenvolvimento destas doenças. Grupos minorizados estão ainda mais em risco, vamos perceber porquê.
De acordo com a FAO, a “insegurança alimentar ocorre quando pessoas não têm acesso físico, social e económico regular a alimentos seguros, nutritivos e em quantidade suficiente para satisfazer suas necessidades alimentares e preferências alimentares para uma vida ativa e saudável” – ou seja, a segurança alimentar vai muito além da qualidade dos alimentos.
Actualmente sabe-se que a falta de acesso a alimentos interfere com o comportamento alimentar em várias dimensões:
• a alimentação irregular ou insuficiente pode desencadear comportamentos restritivos por não se saber quando se volta a ter alimentos ou, por oposição, comportamentos compulsivos (binge eating), seguidos de culpa e posterior purga (vómito) como compensação;
• desregulação das hormonas da fome e da saciedade (grelina e leptina respectivamente) pela privação de alimentos;
• aumento do valor hedónico (comida como fonte de prazer, recompensa) dos alimentos, devido à sua escassez;
• comer rápido e sem horários pode dificultar a percepção de saciedade, aumentando os comportamentos automáticos associados à comida – a relação com a comida torna-se ansiosa e voraz;
• uso da comida como forma de anestesiar o sofrimento;
• restrição voluntária mesmo quando há acesso a alimentos;
• a ansiedade antecipatória sobre a comida pode levar ao hiperfoco no controlo alimentar, aumento da rigidez cognitiva e preocupação obsessiva com o peso e ingestão alimentar;
• sentimentos internalizados de fracasso associados à insegurança alimentar aumentam risco de PCA (perturbações do comportamento alimentar) como forma de punição ou regulação emocional;
• Entre outras.
A comunidade LGBTQIA+ é um grupo de especial risco para o desenvolvimento de PCA através da insegurança alimentar devido à interseção de opressões estruturais, exclusão social e sofrimento psíquico. Se acrescentarmos à equação pessoas negras ou de outras origens racializadas, temos a “combinação perfeita” para o fenómeno da interseccionalidade – os diversos níveis de opressão não se somam, entrelaçam-se e amplificam-se mutuamente.
Jovens queer são frequentemente expulsos de casa, ficando impossibilitados de estudar e, consequentemente, ter acesso ao elevador social facilitado pela educação. A falta de estudos dificulta o acesso ao mercado de trabalho e, a partir daí, é uma cascata de eventos sem fim: desemprego, incapacidade económica, instabilidade habitacional, pobreza, falta de alimentos. E pensar que tudo isto se resolveria se colocássemos o amor à frente do preconceito.
A experiência crónica de discriminação, estigma, violência e invalidação da sua identidade aumenta os níveis de ansiedade, depressão e dificuldades na regulação emocional. Aí, surge o transtorno alimentar como “amigo e fiel companheiro”, como forma de controlo, consolo ou punição.
Como cereja no topo do bolo, as pessoas queer têm tendência a evitar procurar apoios sociais ou de saúde com medo da discriminação, julgamento ou exposição, perpetuando o ciclo de pobreza em que se encontram e debilitando, cada vez mais, a sua saúde.
A insegurança alimentar na comunidade queer não é apenas uma questão de acesso a comida, mas um reflexo de exclusões sistémicas que fragilizam a saúde, a todos os níveis: mental, físico e social. As perturbações do comportamento alimentar, neste contexto, surgem muitas vezes como estratégias de sobrevivência, controlo ou consolo perante a instabilidade e a rejeição. Intervir exige mais do que tratar sintomas individuais — implica reconhecer os determinantes sociais que os sustentam. É urgente criar espaços de cuidado informados, afirmativos e livres de julgamento. Porque garantir comida suficiente não é apenas sobre nutrir corpos, é também afirmar que todas as existências merecem existir, com dignidade.
Nutricionista Daniela Marques


