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Tenho quase a certeza que alguns de vocês leram este titulo e ficaram a pensar: “Pronto, lá vem mais um chorrilho de racionalizações para desculpar a ‘infidelidade’”.

Mesmo que seja esse o caso, eu peço-vos alguma paciência: fiquem por aqui, porque esta crónica não é um sermão ou propaganda. É a partilha honesta daquilo que foi a minha experiência numa relação aberta e de todas as maneiras em que isso me fez amadurecer.

Dando-vos um breve contexto, antes de me encontrar no estado que dá título a estas crónicas: solteiro e à deriva, estive numa relação durante mais de oito anos e fomos estritamente monógamos mais de metade do tempo que estivemos juntos. Matematicamente, o leitor mais céptico já deve ter começado a pensar “Lá está… abriram a relação e deu merda!”. Deixem-me refutar-vos a matemática porque não foi esse o caso. O motivo pelo qual a minha relação terminou - e terminou duma forma extremamente amigável que faria a Gwyneth Paltrow e o seu conscious uncoupling orgulhosos - foi porque as diferenças que nos separavam e entre as quais sempre conseguimos construir pontes, foram ampliadas por uma distância geográfica e um confinamento que, entretanto, se impuseram, e que fizeram que a nossa história enquanto casal chegasse ao fim. Sem dramas e sem palavras feias, mas com muito orgulho e muita gratidão pelo que construímos e fomos um para o outro durante anos.

Como diz o John Lennon, life is what happens to you while you’re busy making other plans.

Retomando, contudo, o tópico da abertura da relação, uma das coisas que as pessoas perguntavam (e ainda perguntam) mais frequentemente é como é que aconteceu. A resposta a isso é simples: com diálogo honesto. Ambos reconhecemos que apesar de tudo aquilo que tínhamos tanto a nível de companheirismo como a nível sexual ser óptimo, o facto de nos termos juntado muito novos, implicou que houvesse uma série de experiências, fantasias e curiosidades que ficaram por explorar.

A aceitação disso foi mais fácil para o meu ex do que para mim: nessa altura, tudo quanto fossem circunstâncias fora daquilo que eu considerava como fazendo parte da minha “rede de segurança”, causavam-me uma ansiedade extrema e quase impossível de gerir, mas ao mesmo tempo, admitia tanto ao meu namorado como a mim mesmo que também tinha curiosidade acerca de ter sexo com outras pessoas. Fiz-me as perguntas que acho que toda a gente faz: “E se ele deixa de gostar de mim? E se isto vai colocar em causa tudo o que construímos até agora?”, e por aí fora…

O que eventualmente desbloqueou as coisas foi chegarmos ao consenso que era uma situação que requeria diálogo e que estabelecêssemos um conjunto de regras e princípios. Creio que é neste aspecto que muitas relações abertas falham: esse diálogo não existe e as coisas tornam-se numa espécie de vale-tudo que muitas vezes não acaba bem. O nosso “arranjo”, por assim dizer, foi o de começar por fazer trios ou estar com outros casais e, depois, fazer sempre uma espécie de “reunião de equipa” entre os dois para percebermos como é que a experiência tinha sido e se algum de nós se tinha sentido excluído. É claro que isto não são conversas fáceis de ter porque expomos a nossa vulnerabilidade e os nossos receios, mas esta abertura de diálogo é algo extremamente valioso em qualquer relação. 

Continuámos a explorar as coisas até que nos sentimos prontos a dar o próximo passo que era encontrarmo-nos individualmente com outras pessoas. Mais uma vez, as minhas inseguranças e pavor da incerteza foram o obstáculo principal e tive a sorte de estar com uma pessoa que teve a paciência de me deixar fazer as minhas continhas de cabeça até estar pronto para avançar.

Há alguns casais com relações abertas que conseguem funcionar muito bem com uma política de don’t ask, don’t tell, mas eu não tinha natureza para isso e, por esse motivo, nós falávamos abertamente acerca de quando nos encontrávamos com outras pessoas e havia sempre a pergunta antes se o outro se sentia confortável com o encontro. 99% das vezes a resposta era ‘Sim’, mas também havia dias em que um de nós, fosse porque motivo fosse, não se sentia cómodo com isso e, sempre com o objectivo de manter a nossa relação como a prioridade principal, ir fazer sexo com um estranho era algo que não era prioritário.

Há alguns casais com relações abertas que conseguem funcionar muito bem com uma política de don’t ask, don’t tell, mas eu não tinha natureza para isso e, por esse motivo, nós falávamos abertamente acerca de quando nos encontrávamos com outras pessoas e havia sempre a pergunta antes se o outro se sentia confortável com o encontro.

Penso que foram estes dois factores que nos permitiram abrir as coisas da forma bonita como o fizemos: comunicação honesta e ter bem presente quais são as prioridades. Tudo o resto saiu fortalecido: o companheirismo, o próprio sexo e as conversas abertas acerca dele e das coisas que queríamos fazer, fetiches, etc. Eu sei que isto não acontece com todos os casais que tentam abrir as suas relações, mas aconteceu connosco. Penso que isso também se terá devido ao facto de a nossa relação já estar assente em muito mais do que a parte física quando a decidimos abrir. Já havia uma história de vida e já havia algo mais a cimentar as coisas.

Demorámos anos a chegar a esse ponto, mas foi esta a nossa história. Não pensem que foi sempre fácil: claro que houve discussões e áreas moralmente cinzentas das quais resultaram conversas difíceis, mas que foram sempre superadas com crescimento e que contribuíram duma forma que eu não consigo quantificar para a maturidade emocional que tenho hoje. Maturidade essa que me vai permitindo gerir a deriva da solteirice duma forma minimamente funcional. Há casais que se sentem à vontade para tomar esse passo mais cedo e outros que nunca o chegam a tomar, mas desde que sejam felizes e haja respeito mútuo, não existe um ‘Livro de Regras’ que funciona para toda a gente. Enquanto membros desta comunidade temos o privilégio de ter, de certa forma, carta branca para construirmos as nossas relações fora da heteronormatividade - se assim o escolhermos – e de criar algo que é único para nós e para o nosso parceiro (ou parceiros) e nos faz felizes.

A pergunta que coloco a mim mesmo agora é se eu voltaria a estar numa relação aberta no futuro e essa é uma resposta que eu não sei dar pelo simples facto de não saber com quem é que vou ter uma relação no futuro. Sei que quando estou interessado num rapaz e a conhecê-lo, se calhar por causa da forma como o meu cérebro funciona, ou se calhar por já não ter a líbido que tinha aos 20 anos, a minha energia é reencaminhada para a pessoa que tenho à minha frente e deixo de ter vontade para encontros casuais, mas não espero que isso seja recíproco até se assumir que estamos numa relação e, mesmo dando esse passo, eu não sei se esperaria isso da outra pessoa, desde que houvesse um diálogo honesto acerca disso. 

A pergunta que coloco a mim mesmo agora é se eu voltaria a estar numa relação aberta no futuro e essa é uma resposta que eu não sei dar pelo simples facto de não saber com quem é que vou ter uma relação no futuro.

Penso que estou numa fase da minha vida em que já deixei de presumir que, semi-citando Fernando Pessoa, “tenho em mim” todas as qualidades “do Mundo” que um parceiro possa procurar e por isso, e pela maturidade que consegui na minha última relação, acho que seria uma conversa que eu estaria pronto para ter mais cedo, se assim fosse o caso. No entanto, e como já disse, acho mesmo que não existe uma resposta e solução universal que funcione para todos os casais quando falamos acerca deste tópico. Penso que o importante é que se tente normalizar ao máximo que estas conversas são coisas perfeitamente saudáveis e normais de existir dentro duma relação. Não têm nada a haver com “amor”. 

Amar alguém não é limitar uma parte da condição humana dessa pessoa. Amar alguém é querer estar presente na vida do outro duma forma que seja mutuamente enriquecedora e que ajude ambos a crescer, em vez de olharmos para a outra pessoa com a expectativa que seja a solução para todos os nossos problemas, ou com a presunção de acharmos que temos em nós tudo o que o outro precisa. Amar alguém é ter a coragem de ter conversas que nos façam sentir desconfortáveis porque percebemos que essas conversas são importantes para a relação, apesar de darem muito trabalho, mas é um trabalho que vale a pena.

 

R. J. Ripley

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