Para assinalar o Dia Mundial de Luta contra a Sida, o dezanove.pt foi falar com a Dra. Diva Trigo, Infecciologista no Hospital Fernando da Fonseca (Amadora-Sintra) e Professora na Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa.
dezanove.pt: Para quem não sabe ou nunca se debruçou sobre o assunto, qual é a diferença entre VIH e SIDA?
Diva Trigo: Esta questão surge frequentemente em consulta: “mas afinal, tenho VIH ou tenho SIDA?”. O VIH é o Vírus da Imunodeficiência Humana que é um vírus que afecta o sistema imunitário, ou seja, o sistema de defesa do organismo contra agressores externos. A SIDA é a Síndrome da Imunodeficiência Adquirida, que é causada pelo VIH, e corresponde a uma fase avançada da infecção, quando o vírus já debilitou de forma significativa o sistema imunitário, abrindo caminho para outras infecções ou alguns tipos de cancro que se relacionam com o VIH, as chamadas patologias oportunistas. Se o VIH for diagnosticado e tratado numa fase inicial da infecção, não existe evolução para SIDA, portanto, evitam-se complicações de saúde.
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Nos últimos anos, devido à eficácia dos tratamentos (falo por mim, que faço um injectável a cada dois meses), o VIH tornou-se, não diria uma doença, mas uma condição crónica. A que se deve tanta iliteracia na população em geral e Portugal ter uma taxa de infecção tão alta, face aos restantes países da União Europeia?
Efectivamente, hoje em dia, quando falamos em VIH, falamos numa condição crónica. Os regimes terapêuticos utilizados são muito eficazes no controlo da infecção, impedindo a sua evolução, o que permite longevidade em bom estado de saúde. Adicionalmente, temos à disposição diferentes esquemas de tratamento, cómodos e bem tolerados, com menor impacto na qualidade de vida das pessoas do que acontecia no passado. A baixa literacia em saúde e, especificamente, nesta área, é uma realidade. Não por não existirem fontes disponíveis e credíveis de informação, mas pela baixa percepção de risco individual e pelo estigma ainda associado a esta infecção. Penso que campanhas generalistas de sensibilização são muito úteis; precisamos de falar aberta e claramente sobre sexo seguro e sobre rastreio e tratamento de infecções transmitidas por via sexual. Mas essa abordagem não basta. É preciso continuar a veicular informação em diferentes canais e com diferentes mensagens-chave, consoante o público-alvo. E é preciso garantir um acesso equitativo a serviços de saúde, bem como uma abordagem inclusiva, empática e não julgadora de quem se liga aos cuidados de saúde.
Passados 43 anos da descoberta do VIH, quais os principais desafios que os profissionais de saúde enfrentam?
Um dos maiores desafios é precisamente o combate ao estigma relacionado com a infecção, inclusive dentro dos próprios serviços de saúde. Por um lado, desmistificando os contextos em que um teste de rastreio de VIH deve ser realizado, por exemplo, e, por outro lado, garantindo que todas as pessoas que vivem com VIH são tratadas com respeito e igualdade. Destacaria mais dois grandes desafios: a garantia de acesso a cuidados preventivos como PrEP (Profilaxia Pré-Exposição) a todos os que dela podem beneficiar e a necessidade de diagnóstico cada vez mais precoce de novas infecções já estabelecidas.
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Concorda que deveria haver um maior envolvimento da sociedade civil na, digamos, educação da população em geral, nomeadamente por parte das escolas?
Sem dúvida. Não poderemos crer que todos os jovens têm acesso a educação sexual adequada junto das suas famílias, grupos de amigos ou sozinhos, on-line. As escolas devem ser um local privilegiado para esse tipo de formação, com transmissão de informação de uma forma natural e sem preconceitos, e, idealmente, garantindo canais para referenciação a profissionais de saúde, quando necessário apoio adicional. Além disto, os meios de comunicação social e as organizações de base comunitária têm o poder de alcançar um elevado número de pessoas e desempenham um papel muito valioso na promoção de literacia em saúde.
Estamos de acordo que o estigma e a discriminação são os principais obstáculos que uma pessoa que vive com VIH enfrenta? Como podemos lutar contra estes obstáculos?
Concordo. O estigma reflecte medo e desinformação e traduz-se, muitas vezes, em situações de grande sofrimento e isolamento. A melhor forma de combater o estigma é através de informação e visibilidade, tal como aconteceu, por exemplo, em 2022 na campanha em que o Ricardo participou (“Eu sou VIH+ e visível“). Foi um acto de grande coragem e acredito que tenha tido um impacto muito positivo na desmistificação do que a infecção por VIH representa: um diagnóstico que merece atenção, mas não define uma pessoa, nem a deve condicionar. Hoje em dia, sabemos que uma pessoa que vive com VIH, faz a sua medicação e tem o vírus controlado não transmite a infecção a parceiros, pode ter filhos, ter uma carreira, envelhecer. É importante esta mensagem de “normalidade”.
Desde os anos 1980, e até aos dias de hoje, o VIH sempre esteve e continua muito colado à comunidade LGBTQIA+. No entanto, o relatório mais recente de infecção por VIH em Portugal demonstra que a maior parte das novas infecções ocorrem na comunidade heterossexual. Que podemos fazer (ainda que o VIH faça parte da nossa história) para demonstrar esta nova realidade?
É importante reconhecer o papel da comunidade LGBTQIA+ na história da resposta ao VIH; foi pioneira e continua a ser muito activa na luta por inclusão, direitos e informação. No entanto, hoje sabemos que a infecção por VIH não escolhe orientação sexual, género, idade, grau académico, estrato sócio-económico, …
A comunicação pública precisa de reflectir isso mesmo e tocar todos os que possam estar em situação de risco, independentemente das suas preferências e hábitos.
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Uma palavra de esperança para os nossos leitores neste Dia Mundial de Luta contra a SIDA.
Hoje, viver com VIH não é uma sentença, é uma condição controlável. Quem tem acesso a tratamento pode viver tantos anos e com tanta qualidade como qualquer outra pessoa. A ciência avança todos os dias, e o que antes parecia impossível, como não transmitir o vírus, hoje é uma realidade. Portanto, acreditemos que o futuro reserva novas e ainda melhores novidades para quem vive com VIH. Além disto, existem hoje diferentes opções farmacológicas disponíveis para a prevenção de aquisição de infecção. Se acha que pode estar em risco, informe-se da melhor opção para si. Mais do que nunca, este dia é sobre vida, empatia e informação. Juntos, podemos acabar com o estigma e discriminação relacionados com VIH e ver crescer uma geração livre de novas infecções.
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Ricardo Falcato


