a fazer,  opinião

Se o edifício não vai à bandeira, a bandeira vai ao edifício



Uma bandeira nunca é apenas um tecido colorido. Uma bandeira é memória. É corpo. É história. É a soma de todos aqueles que tiveram medo, mas avançaram na mesma. De todos aqueles que foram insultados, expulsos, silenciados, agredidos ou obrigados a viver escondidos para sobreviver.

Talvez por isso me tenha custado tanto ouvir que a bandeira arco-íris não poderia ser hasteada num edifício público no dia 17 de Maio. Porque quando alguém tenta esconder uma bandeira, raramente está apenas a esconder cores. Está a tentar esconder pessoas. E eu conheço demasiado bem o peso de tentar esconder uma pessoa.

Em criança tinha vergonha. Vergonha de olhar. Vergonha de falar. Às vezes até vergonha de respirar. Crescer dói. Doem os ossos e a alma. Cresci a perceber que existiam gestos permitidos e outros perigosos. Existiam maneiras “certas” de estar, falar, andar, amar. E quando alguém cresce assim, aprende cedo a diminuir-se para caber no medo dos outros. Mas um dia percebemos que viver encolhido também mata.

Foi dessa urgência que nasceu a minha necessidade de fazer activismo e escrever os meus textos teatrais, as minhas crónicas literárias, os meus artigos de opinião e a carta que escrevi ao Presidente da Assembleia da República. Nada nasceu de um impulso isolado. Nasceu de uma vida inteira a tentar apertar os cordões dos ténis enquanto o mundo gritava que havia algo de errado comigo. Escrevi aquela carta pelo menino que fui e por todos os outros que continuam hoje sentados na mesma cama invisível, com medo de existir.

Hoje, continuam a existir crianças aterrorizadas de ir à escola. Jovens que recebem insultos e ameaças simplesmente por serem quem são. Pessoas que vivem em estado de alerta permanente. Pessoas que ponderam desaparecer. O bullying continua vivo. O preconceito continua vivo. O extremismo continua vivo. E talvez seja precisamente por isso que o silêncio se tenha tornado tão perigoso.

Quando ouvi falar da proibição do hastear da bandeira LGBTQIA+ em edifícios públicos senti que não podia ficar quieto. Não por mim apenas. Mas porque a memória é uma responsabilidade colectiva. Porque os direitos conquistados não são eternos. E porque a História já nos mostrou demasiadas vezes aquilo que acontece quando começamos lentamente a empurrar pessoas de volta para a invisibilidade.

Foi então que nasceu a ideia do evento-manifestação “Se o edifício não vai à bandeira, a bandeira vai ao edifício”. Falei com o fantástico Hélder Bertolo, da Opus Diversidades, partilhei esta inquietação, este desconforto, esta necessidade de transformar indignação em presença. A proposta foi apresentada à COMOL (Comissão da Marcha do Orgulho LGBTI de Lisboa), que a aprovou unanimemente e avançou com a realização do evento.

No dia 17 de Maio, às 11h, na Praça do Município, cada pessoa leva a sua bandeira. Sem palco oficial. Sem necessidade de autorização simbólica para existir. Apenas corpos presentes. Pessoas. Comunidade. Um gesto colectivo simples, mas impossível de ignorar. Porque naquele momento a praça transforma-se em algo maior do que uma praça. Transforma-se num lugar de afirmação. Num espaço onde ninguém precisa de pedir desculpa por existir. Este encontro não nasce da necessidade de proteger humanidade.

A 17 de Maio de 1990, a Organização Mundial de Saúde retirou a homossexualidade da lista de doenças mentais. Faz agora 36 anos. Trinta e seis anos apenas. Isto significa que ainda existem muitas pessoas vivas que cresceram oficialmente catalogadas como doença.

Nunca me esqueço disso. Talvez por isso me doa tanto ouvir novamente discursos sobre conversão, pureza, normalidade ou “valores tradicionais” usados como arma contra vidas humanas.

Nós existimos. Temos nomes. Trabalhamos. Pagamos impostos. Amamos. Enterramos os nossos mortos. Fazemos teatro, escrevemos livros, limpamos ruas, conduzimos autocarros, damos aulas, salvamos vidas em hospitais. Somos parte deste país. E não vamos voltar para o armário da História.

Uma bandeira arco-íris não ameaça ninguém. O que ameaça uma sociedade é ensinar pessoas a terem vergonha de existir. Por isso estarei naquela praça. Pelo menino que fui. Pelos que vieram antes de nós. E pelos que ainda hoje precisam de perceber que não estão sozinhos.

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Peter Pina