Uma bandeira não é somente uma bandeira. Uma bandeira, seja ela pintada com as cores que for, é um símbolo. Uma bandeira carrega em si a vida de todos aqueles que lutaram e lutam por aquilo que esta simboliza. Uma bandeira carrega assim todos aqueles que gritaram, os que choraram, os que celebraram e os que morreram por ela.
O arco-íris representa a diversidade em harmonia, várias cores diferentes que coexistem sem se anularem, tal como as identidades humanas. A escolha do arco-íris foi intencionalmente poética e política: Gilbert Baker quis um símbolo vivo, natural e universal, que não pertencesse a nenhuma nação ou religião, algo que surgisse no céu depois da tempestade, como promessa de esperança. Cada cor tem ainda um significado próprio, corpo, vida, cura, luz, natureza, serenidade, espírito, criando uma narrativa visual de existência, orgulho e liberdade.

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O orgulho representado nestas cores é de alguém que já não pretende continuar a viver com vergonha. Apenas aqueles que um dia foram envergonhados, insultados, discriminados e humilhados, somente por existirem, conseguem perceber a importância de já não termos medo. Esta bandeira LGBTQIA+ representa, acima de tudo, o facto de já não termos medo de viver e o orgulho em existir, tal como somos. Um dia fomos um erro, um dia fomos um crime, um dia fomos uma doença. Hoje, somos apenas seres humanos, como todos os outros. Perguntam-me muitas vezes: porque é que não temos o dia do orgulho heterossexual? A resposta é obvia e está na necessidade da existência da própria bandeira. Nunca nenhum heterossexual viu ameaçada a sua vida ou correu perigo, somente pelo facto de ser heterossexual. Não somos todos iguais. Somos até todos, bastante diferentes. É a inclusão dessa diferença que torna a humanidade rica e interessante.
A aprovação da nova legislação em Portugal que proíbe o hastear de bandeiras de movimentos, associações ou partidos em edifícios públicos, o que inclui a bandeira LGBTQIA+ é dizer: vocês não existem. Esta nova legislação, retrograda, conservadora e extremista, tenta anular todo o processo desde 1978, que luta pela igualdade de direitos. Banir esta bandeira é dizer: vocês não pertencem. Contudo, curiosamente, a grande novidade que tenho a dar ao nosso Parlamento, caso o mesmo ainda não se tenha apercebido, é de que existimos. Todos os elementos da Comunidade LGBTQIA+ são efectivamente pessoas. Não somos uma massa invisível de carne. Temos nomes, vidas, votamos, pagamos impostos (demasiados), sendo que o esforço para pagar impostos em Portugal é dos mais pesados, porque os salários são mais baixos que no resto da Europa. Nós pessoas, sejamos lá de que cor do arco-íris formos, trabalhamos, desenvolvemos este país. Neste sentido, questiono: com que direito ou fundamento humano, monetário, político ou social, têm alguns deputados de dizerem que não existimos?
Eu, que pago muito de impostos, ergo a bandeira todos os dias, porque jamais voltarei a ter vergonha de existir. Abraço a bandeira LGBTQIA+ e sinto em mim que esta bandeira é não um tecido colorido, mas quase 50 anos de luta.
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Peter Pina



Um Comentário
Vitor Grade
Há uma ideia neste texto que parte do pressuposto errado de que a existência de pessoas depende do reconhecimento simbólico do Estado. Não depende.
Ninguém sério hoje nega a existência de pessoas homossexuais. Isso é um falso conflito criado para dramatizar o debate. O que está em causa não é “existirmos”, é se o Estado deve ou não adotar símbolos identitários específicos como se representassem todos.
E aqui convém ser claro: não deve.
Recordar quem sofreu no passado é justo. É até necessário. Mas transformar essa memória numa permanente exibição simbólica institucional não é homenagem, é apenas instrumentalização. A dignidade de quem lutou não se mede pela quantidade de bandeiras hasteadas, mas pela liberdade concreta que hoje existe. E essa liberdade, felizmente, existe.
Depois há outra questão mais profunda: a ideia de “comunidade”.
Fala-se de “comunidade LGBTQIA+” como se fosse um bloco homogéneo, com interesses, visões e identidade comum. Não é. Nunca foi.
Reduzir pessoas à sua orientação sexual é precisamente o contrário daquilo que se diz defender. Uma pessoa não é definida por com quem se relaciona. É definida pelo seu caráter, pelas suas escolhas, pelo contributo que dá à sociedade. Tudo o resto é rótulo.
E esses rótulos têm sido usados, e aqui convém não ter ingenuidade, como ferramenta política pelas esquerdas radicais. As chamadas políticas identitárias fragmentam a sociedade em grupos, criam antagonismos artificiais e servem agendas ideológicas muito concretas.
Por fim, há o ponto essencial que são os edifícios públicos.
Um edifício público não é um espaço de afirmação identitária. É um espaço comum. Pertence a todos, independentemente de orientação, religião ou ideologia. E é precisamente por isso que deve ser neutro.
Neutralidade não é exclusão.
Neutralidade é respeito por todos.
Quem precisa de validação institucional constante para afirmar a sua existência está, na verdade, a fragilizar a própria ideia de igualdade. Porque igualdade não é destacar. Igualdade é não precisar de o fazer.
Eu não sou uma sigla.
Não sou uma bandeira.
Sou um cidadão.
E isso chega.