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Sem Aviso: A Dor das Perdas Inesperadas



A vida tem momentos que nos tiram o chão. A perda repentina de alguém — seja pela morte, desaparecimento, afastamento brusco ou corte de relação — traz uma dor intensa, confusa, e por vezes solitária. Nestes momentos, o mundo parece continuar como se nada tivesse acontecido, mas dentro de nós tudo ficou suspenso.

Para muitas pessoas LGBTQIA+, o impacto de uma perda pode ser ainda mais profundo, especialmente quando envolve vínculos invisibilizados, famílias escolhidas, relações não reconhecidas, ou um contexto de rejeição e discriminação.

A morte ou o desaparecimento repentino não dá tempo ao corpo nem à mente para se prepararem. Fica um vazio cheio de perguntas: Porquê agora? Porquê assim? E se eu tivesse dito…? É comum surgirem sentimentos como:

• Choque e negação: “Isto não pode estar a acontecer.”

• Culpa: “Devia ter feito algo diferente.”

• Raiva: Contra a pessoa, contra as circunstâncias, contra o mundo.

• Medo: Do futuro, da solidão, de que aconteça de novo.

• Tristeza profunda: Que pode surgir aos poucos ou cair de repente.

Estes sentimentos não são fraqueza. São respostas naturais à perda. Não há forma “certa” de sentir nem um tempo “ideal” para deixar de sofrer. Cada pessoa vive o luto à sua maneira — e todas são válidas.

Nem todos os lutos são reconhecidos socialmente. Isto pode acontecer com:

• Relações amorosas não assumidas ou não aceites pela família.

• Amizades profundas que são desvalorizadas por quem não entende a sua importância.

• Laços rompidos por rejeição, homofobia, transfobia ou preconceito.

• Desaparecimentos forçados ou sumiços sem explicação.

Nestes casos, a dor pode ser duplicada: sofre-se pela perda e pela invisibilidade dessa dor.

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Como cuidar de ti quando o outro já não está

1. Permite-te sentir o que vier:

Chorar, gritar, ficar em silêncio, rir de uma memória. O luto é um ciclo, não uma linha recta.

2. Cria espaço para a lembrança:

Escreve cartas, acende uma vela, faz uma playlist, pinta um quadro — qualquer forma de homenagear ou expressar o que significava essa pessoa para ti.

3. Evita o isolamento prolongado:

Às vezes precisamos de tempo a sós. Mas ficar muito tempo sem partilhar o que sentes pode agravar a dor. Procura alguém de confiança ou um grupo de apoio.

4. Fala com um/a profissional se precisares:

O luto pode despertar questões antigas, traumas, medos ou sintomas de depressão e ansiedade. Não estás sozinho/a.

5. Psicólogos/as, terapeutas e linhas de apoio estão disponíveis.

6. Cuida da tua rotina e do corpo:

Comer, dormir e manter uma estrutura mínima ajuda o cérebro a processar melhor o que estás a viver. São âncoras em mar aberto.

7. Não tenhas pressa em “superar”:

A perda transforma-te. Não voltas a ser quem eras, mas podes encontrar uma nova forma de estar, com essa dor integrada, não silenciada.

Se estás a passar por isto…

A tua dor importa. Não precisas de esconder, explicar ou justificar o que sentes. Perder alguém, de forma repentina, é uma ferida real — e mereces tempo, apoio e compaixão para curar.

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Recursos úteis em Portugal

• ILGA Portugal – Apoio psicológico LGBTQIA+

www.ilga-portugal.pt

• Inluto – Associação Portuguesa de Cuidados Integrados no Luto

www.inluto.pt

• SOS Voz Amiga – Apoio emocional gratuito

213 544 545 / 912 802 669 / 963 524 660

• Casa Qui – Apoio a jovens LGBTQIA+

www.casa-qui.pt

• rede ex aequo – Jovens LGBTQIA+ e simpatizantes

www.rea.pt

• Aconselhamento Psicológico do SNS 24 – 808 24 24 24 selecionar depois opção 4 (24h/dia)

• Grupo de Apoio Mútuo para Luto (GAMs)

Pergunta na tua Unidade de Saúde Familiar ou Junta de Freguesia sobre grupos locais.

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Letícia David. Psicóloga