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Ser VIH+: um segundo “coming out”

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Cada um de nós, pessoas LGBTQIA, tem a sua história pessoal, mais ou menos tortuosa, mais ou menos fácil. A minha, possivelmente, semelhante à de tantos outros: nascido no final dos anos 1970, filho único de uma família de classe média baixa com grandes expectativas para mim, nomeadamente, tirar um curso superior, casar aos 20 e poucos, ter filhos. A juntar ao que a sociedade desejava de mim, a educação religiosa judaico-cristã incutiu-me também o medo, a repulsa, o sentir que gostar de homens era pecado, era errado.

A juntar ao que a sociedade desejava de mim, a educação religiosa judaico-cristã incutiu-me também o medo, a repulsa, o sentir que gostar de homens era pecado, era errado.

Como tantos outros/as, namorei cerca de sete anos com uma rapariga, estive de casamento e igreja marcada, vivendo uma vida dupla de grande sofrimento. De dia era o filho, namorado e homem perfeito; de noite, muitas vezes com excesso de álcool e outras substâncias (de forma a arranjar coragem), frequentador de bares e saunas gay, nos quais dava lugar ao verdadeiro Ricardo que oprimia dentro de mim.

Tal como em outros processos em que temos de nos demarcar da maioria e assumirmo-nos como nós próprios, após um longo processo de dor e sofrimento, saí do armário para com a família e amigos e, apesar de vários afastamentos (faz parte), a vida fluiu, namorei, vivi junto, aceitei-me com orgulho, em suma, vivi.

Tal como em outros processos em que temos de nos demarcar da maioria e assumirmo-nos como nós próprios, após um longo processo de dor e sofrimento, saí do armário para com a família e amigos e, apesar de vários afastamentos (faz parte), a vida fluiu, namorei, vivi junto, aceitei-me com orgulho, em suma, vivi.

 

2014: o ano em que o mundo acabou (ou não) para mim

Em 2012/2013, após uma separação algo atribulada, comecei a sentir alguns sintomas físicos que não conseguia explicar e atribuía ao facto da tristeza provocada pelo fim da relação: mal estar generalizado; problemas de estômago e gástricos. Estava infectado, apesar dos longos meses de negação e recusa em fazer o teste. Como era possível ter VIH? Eu que sempre tive cuidado com as relações íntimas. 

Após uma saída do armário complicada, aqui me encontrei eu, em 2014, com todos os sintomas da infecção, a ter de enfrentar novos fantasmas e receios, pois pouco ou nada sabia acerca do VIH e possíveis consequências. O resultado surgiu como uma sentença de morte (pasme-se a minha ignorância na altura). O medo da morte, o ter de voltar a confrontar família e amigos com, de novo, uma nova realidade... Sentia estar a sofrer algum tipo de castigo, por conta das minhas acções.

Algo que deveras me incomodava: como poderei ter uma vida normal e voltar a namorar se sou VIH+?

Tudo parecia negro, mas até os dias mais negros podem trazer um raio de sol e uma nova perspectiva face à vida (melhor e mais saudável do que a anterior)... Antes que me esqueça destes raios de sol, chamemos as coisas pelos nomes, obrigado GAT (Grupo de Activistas em Tratamento), na pessoa do João Brito, obrigado equipa de Infecciologia do Hospital Fernando da Fonseca, na pessoa da Dra. Diva Trigo.

 

A importância de ser VIH+ (e assumir)

Assumir ser VIH+ é, sem sombra de dúvidas, uma segunda saída do armário. Após uma primeira fase, no meu caso, em que tive de me assumir como homem gay, tive anos mais tarde de passar, novamente, por um processo de reconstrução. Admito que o medo de fazer este “coming out” paira sempre sobre mim... Afinal de contas, como contar à pessoa com quem temos relações sexuais que vivo com VIH+ num país onde grassa o estigma e a descriminação? Como fazer o parceiro entender que  não está a ter sexo com uma bomba relógio? Como vai reagir a sociedade? E no emprego? Algumas coisas que me ajudaram a percorrer este “novo” caminho:

  • O VIH não é uma doença, é uma condição. A taxa de mortalidade do vírus é ínfima, ao contrário do estigma. Esse, sim, mata diariamente e conduz a perturbações psicológicas e baixa auto-estima;
  • No meu caso, com apenas 1 comprimido por dia, o meu estado de saúde geral é bem melhor do que há 10 anos quando me infectei;
  • I=I. Indetectável = intransmissível. Desde que soube da infecção em 2014 e comecei a fazer tratamento retroviral, passados poucos meses, a infecção tornou-se indetectável. Ou seja, caso aconteça ter relações desprotegidas, a probabilidade de infectar o parceiro (com VIH, não outras DST’s) é igual a 0;
  • Todos os seis meses faço análises de sangue, por esse motivo a probabilidade de ter alguma outra doença sem ser diagnosticada a tempo é extremamente reduzida;
  • Posso ser pai biológico, basta querer;
  • A minha estimativa de longevidade de vida é igual ou superior à das pessoas não infectadas com VIH.

 

Em todo este processo, a meu ver, é importante normalizar, “sair do armário”, quebrar barreiras e lutar diariamente contra o estigma. Sou VIH+, como podia ser diabético, ou sofrer outro tipo de patologia. Não merecemos todos, de uma forma ou de outra, ser felizes?

A todos os que me possam estar a ler (já vai longo, eu sei), tentem colocar-se no lugar do outro, não julguem. Qualquer um de nós está sujeito à infecção por VIH. O mais importante é acabar com o estigma e dar lugar à informação, à testagem, à prevenção. 

Aproveitei este segundo “coming out” para contribuir para um mundo melhor, onde a vergonha e o estigma não tenham lugar. Acompanhas-me nesta viagem?

 

Ricardo Falcato

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